Adriana Macagi é paulistana, tem 27 anos e mora em Los Angeles, na Califórnia. Com os olhos azuis e a pele bem clara, pontuada por sardas, ela joga nas costas o cabelo longo, castanho e cacheado. Adriana fez, há pouco, uma pequena lipoaspiração, que, se não a deixou com a silhueta esguia de uma modelo, realçou a bela aparência. No Brasil, foi aeromoça da tam e, nos Estados Unidos, garçonete e gerente de um restaurante italiano. Nos últimos dois anos, além de trabalhar passou a vender seus óvulos. E, com isso, ganhou mais de 60 mil reais.
Ela se mudou para os Estados Unidos em 2003. Viveu ilegalmente até agosto do ano seguinte, quando se casou com um americano. Com os documentos em dia, quis doar sangue - o que já fazia em São Paulo, no Hospital Albert Einstein. Ao escrever no Google a palavra "donation", topou com um recrutamento de doadoras de óvulos. Pagava-se, e não pouco, por essa "doação". No início de 2005, ela se inscreveu numa companhia chamada The Egg Donor Program, criada por Shelley Smith, ela mesma mãe de um casal de gêmeos gerados de óvulos alheios.
Adriana diz que pensou em duas coisas, ao se alistar: nos 6 500 dólares que ganharia e, enfatiza, "na possibilidade de ajudar alguém". Também foi cativada pelo tratamento que Shelley Smith dispensa às vendedoras de óvulos. Elas são sempre chamadas de "anjos".
Shelley é uma ex-atriz de Hollywood, que trabalhou em filmes desconhecidos para tv, e apareceu três vezes na série "Ilha da Fantasia". Em 1990, quando nasceram seus filhos, abandonou os estúdios para se dedicar à causa dos óvulos. Começou a trabalhar como agenciadora de doadoras (em inglês, egg broker). Um ano depois, passou a publicar anúncios em revistas femininas, oferecendo "oportunidade financeira e emocional extremamente recompensadora" a mulheres jovens, com boa ovulação. A propaganda teve retorno e Shelley abriu sua agência.
Na internet, a página inicial do The Egg Donor Program apresenta uma imagem angelical da sua proprietária. Vestida de branco, ela aparece com os cotovelos apoiados em uma mesa, as mãos juntas e o queixo repousando sobre os dedos entrelaçados. Num canto da página, que é dominada por uma grande fotografia de um lírio, lê-se a seguinte frase: "Veja nossas Doadoras-Anjo". Lá estão retratos de garotas morenas, ruivas, loiras, orientais - todas de aparência saudável. Ao todo, a companhia conta com 250 doadoras, entre 21 e 29 anos. São parte de uma elite: só 10% das mulheres que se apresentam na empresa são aprovadas.
Para conseguir virar anjo, Adriana passou um dia na agência, fazendo testes psicológicos. Teve que levar fotos dela (atuais e de quando era criança), do pai, da mãe e do irmão. Terminado o processo, seu perfil foi posto no site.
A introdução mostrava uma foto dela de cabelos presos. Usava brincos, batom vermelho e uniforme de comissária de bordo. Um quadro indicava dados objetivos, como altura, peso, religião (ela é espírita) e instrução (completou o segundo grau). Em informações pessoais, Adriana citava algumas preferências, como livro (O livro dos espíritos, de Allan Kardec), filme (Regras da Vida; dirigido por Lasse Hallström, com base num romance de John Irving, o filme tem como tema a orfandade), cor (azul e rosa) e comida (chocolate e frutos do mar). Em estilo de vida, respondia qual era o trabalho atual, o anterior, o estado civil, se fumava e se bebia. No questionário sobre a saúde, as perguntas eram técnicas, para saber se houve algum caso de doença grave na família. No histórico genético, mais informações práticas, como a altura e a idade dos pais. Perguntavam-lhe também qual era sua memória mais antiga. "Meu pai me ensinando a contar", respondeu. Pediam-lhe que descrevesse sua infância. Ela escreveu o seguinte: "Fui uma criança feliz, com muitos amigos. Morava em um edifício grande no Brasil, onde havia várias crianças com quem brincar - muitos ainda são meus amigos. Sempre fui boa aluna. Nunca quebrei um osso".
Havia um tópico intitulado "nossos comentários", onde a agência dava sua impressão da doadora: "Quando Adriana chegou ao nosso escritório, ficamos fascinados por sua beleza. Com um corpo torneado e curvilíneo, pudemos perceber que ela sabe se cuidar. Adriana foi comissária de bordo e está em dúvida se segue a carreira ou se faz trabalhos sociais. Além de atraente, os adjetivos saudável e natural são bons para descrever essa jovem serena e calma. Mesmo sem falar um inglês perfeito, nós pudemos sentir que esse 'Anjo' tem um coração carinhoso".
Em outubro de 2005, Adriana foi selecionada por Julie, desenhista inglesa de 44 anos, e José, argentino de 38, professor de futebol. Tentavam engravidar havia quatro anos. Escolheram-na porque, fisicamente, Adriana lembra Julie. O casal encontrou Adriana pessoalmente, foi aprovada, e começou um processo burocrático que envolveu advogados e papelada abundante. Um documento indicava os exames iniciais a serem feitos pela doadora: sangue (para identificar doenças transmissíveis sexualmente), urina (para detectar o uso de drogas) e nível hormonal (para saber se os óvulos eram saudáveis). O documento dizia que o pai e a mãe "serão eternamente gratos a você e, quando olharem nos olhos da criança, se lembrarão do seu gesto de amor". O parágrafo seguinte enfatizava que a agência deveria ser ressarcida caso a doadora desistisse no meio do tratamento.
O contrato principal tinha dezenove páginas. Ao assiná-lo, Adriana se comprometeu a abdicar de qualquer responsabilidade moral e legal em relação ao filho. Abriu mão também do direito de custódia e de visita. Comprometeu-se a não constar como a mãe biológica na certidão de nascimento e a se abster de relações sexuais durante o período de ovulação. Fixou-se o valor da doação da seguinte forma: 6 500 dólares para Adriana, 7 500 dólares para a agência, fora custos médicos, que podem chegar a 15 mil dólares. No ano passado, uma pesquisa publicada pela Sociedade Americana de Medicina Reprodutiva apontou que o preço médio pago para as setenta