Na festa de fim de ano, numa escola pública americana em Davis, na Califórnia, quatro meninos de 10 anos apresentaram uma peça intitulada Sopa Chinesa. Num dado momento, fingiram que apontavam ao acaso para alguém na plateia de pais, alunos e professores. A insistência foi tanta que o escolhido subiu ao palco. Para os alunos, o professor de biologia tinha um jeito estranho, combinação de uma altura desmedida com a timidez de um eremita. Mesmo ressabiado, permitiu que os moleques envolvessem seu pescoço com um guardanapo de pano branco. Nem bem prenderam o tecido, amassaram um tomate e quebraram doze ovos em sua cabeça, um por um. A plateia gargalhou. Impassível, o professor não se mexeu.
Dos quatro meninos endiabrados, dois foram expulsos da escola e os outros, suspensos. Um desses sortudos era um brasileiro, que, hoje, aos 49 anos, ainda se lembra com precisão do espetáculo. Não com orgulho de quem enfrentou as regras da escola e escapou da punição mais severa, mas com desconforto. Tem uma sensação estranha diante da recordação da gema, da clara, do tomate lambuzando o cabelo repleto de brilhantina. E, principalmente, porque aquele homem fora incapaz de se mexer diante da matéria que lhe escorreu pela cabeça.
Em março de 2009, ao lado do assistente Romulo Fróes e outros treze ajudantes, o artista plástico Nuno Ramos estava contente. E também apreensivo diante de uma inusitada tarefa: cobrir completamente de sabão artesanal um barco de pesca de 11 metros de comprimento e uma canoa de 7 metros. Como nunca havia trabalhado com a mistura de soda cáustica, sebo e óleo, o artista não sabia se o sabão iria grudar no molde de fibra de vidro que revestia os cascos.
Grudou. E o resultado foi mostrado na exposição "Mar Morto (Soap Opera 2)", que ocupou os 700 metros quadrados da galeria Anita Schwartz, no Rio de Janeiro. Nuno Ramos não deixou de se perguntar, como sempre faz depois de suas peças prontas: e se não tivesse grudado no molde? Que aspecto teria? "Nas artes plásticas, nunca tenho pleno controle", disse.
Foi de olhos arregalados que Nuno Ramos nasceu no antigo Hospital Matarazzo, em São Paulo. Nas horas que se seguiram, correu o comentário no hospital de que nascera uma criança tão bonita como um bonequinho. Quarenta dias depois, de volta a Assis, no interior do estado, o bebê ainda chamava a atenção. A mãe, Dulce Ramos, era obrigada a parar de amamentar para saciar a curiosidade de mulheres desconhecidas, que apareciam em seu quarto para conferir a beleza do recém-nascido. "Meses depois, ele cresceu e ficou normal, como qualquer outra criança", lembrou Dulce Ramos, com uma sinceridade desconcertante, em seu apartamento no bairro paulistano de Pinheiros.
Com 6 anos, quando andava com a mãe, Nuno parou num muro, desabotoou as calças e fez xixi ali mesmo. Enquanto o líquido amarelado escorria pela calçada, um passante gritou: "O menino promete!" Ainda com as calças arriadas, Nuno chorou de vergonha.
Ele tem lembranças de infância menos constrangedoras. Samuel Pessoa era mais um parceiro de diversão do que apenas o avô materno, de nariz grande e espirro escandaloso, professor de parasitologia na Universidade de São Paulo. Certa vez, numa das costumeiras tardes em que eles tiravam uma soneca depois do almoço, com direito ao uso de pijamas, o avô tampou os olhos com as mãos e perguntou: "Já pensou, Nuninho, como é horrível ficar cego? Ficar no escuro para sempre?"
Nuno Ramos se lembrou do caso num artigo que publicou, em setembro de 2000, na edição em homenagem ao avô da revista do Instituto de Estudos Avançados, da USP: "Eu tapei meus olhos como ele, e logo procurei abri-los, aflito, mas sem querer ele tinha apagado a luz e eu achei que não estava mais enxergando. Ele riu muito disso, como se risse da morte." Quando Nuno Ramos tinha 15 anos, seu avô começou a enlouquecer por causa de uma esclerose múltipla.
Numa manhã recente, ele mostrou, orgulhoso, uma jabuticabeira no jardim de sua casa, no bairro paulistano de Vila Romana. Ele ouvia as histórias do avô embaixo de uma árvore como aquela, sentado a seu lado numa pedra bruta e úmida. Num escritório-biblioteca, separado do resto da casa por um caminho de cimento, Nuno contou as histórias de seu avô com um sorriso no rosto. Entre a confusão de livros nas prateleiras e na mesa, ele estaria isolado das distrações do mundo exterior se não fosse o computador ligado, mostrando e-mails ainda não respondidos.
Sossego absoluto e sem as distrações da internet, ele só desfruta no seu ateliê, um galpão a 12 quilômetros dali. Raros são os dias de semana que Nuno não passa toda a tarde e começo da noite no estúdio, um espaço de 600 metros quadrados e pé-direito que ultrapassa os 5 metros, no Cambuci. O local é inóspito - e o artista gosta que seja assim. "Numa semana, contrato uma caçamba para jogar um monte de coisa fora, mas na outra já está novamente uma bagunça", disse, com o orgulho de uma criança que se sujou de terra. "Devo ter uns dez martelos, vinte tesouras, quarenta trenas. Mesmo assim, às vezes, não encontro nenhum deles."
Na entrada, há um corredor largo onde estão os restos do barco coberto de sabão que exibiu no Rio. Adiante, o estúdio se abre num imenso barracão com dez painéis que chegam a 4 metros de altura. Neles, está grudada uma enorme variedade de materiais. Quando os trabalhos são expostos, a plaquinha ao lado resume a mistura de espelhos, tecidos, folhas, plásticos, tinta, metais, resina e outras coisas com um sucinto "técnica mista". Ele chama os painéis de "pinturas". Quando os faz, sempre deitados no chão, vez ou outra precisa subir numa escada para ter uma visão geral do que está criando.
O engajamento político marcou a família de Nuno Ramos. O avô Samuel Pessoa viajou pela Ásia por três meses, em 1952, numa