Revista Piaui
“Tinha aquela adrenalina no sangue, de querer acelerar, ser o melhor piloto, fazer as melhores manobras.”
questões urbanas
Vidas paralisadas
O que acontece com os milhares de motoboys que se estatelam todos os anos nas ruas de São Paulo
FÁBIO FUJITA
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No primeiro dia útil de 2002, quando mais de 1 milhão de paulistanos ainda não haviam voltado do Réveillon, Renato de Oliveira dirigia tranquilamente sua moto pela cidade quase deserta. Ele subira a Serra do Mar um dia antes do teste que definiria o seu destino. Se fosse aprovado, entraria no time juvenil do São Caetano. Chegou cedo à empresa, em Santo Amaro, para a qual há seis meses fazia entregas esporádicas. Tinha serviço: buscar um documento nas imediações e levá-lo ao parque de diversões Playcenter, na outra ponta da avenida Marginal. Com São Paulo vazia era tarefa simples.

Renato de Oliveira, de 18 anos, embicou a moto numa via expressa para fazer a conversão. Como não viu nenhum carro, acelerou para entrar na pista. Saindo de trás de árvores que lhe encobriam a visão, um carro apareceu subitamente no seu retrovisor. Ainda teve tempo de frear, mas como as outras pistas estavam vazias preferiu desviar. Assustado, o motorista do carro teve a mesma ideia.

Com o choque, o motoboy foi atirado no ar. "Eu estava com a adrenalina lá em cima, não me lembro de ter sentido dor", contou Renato. Tirou o capacete e viu passantes se aproximarem para ajudá-lo. Mas hesitaram e pararam. Pelo olhar de pânico dos transeuntes, o jovem percebeu que seu ferimento poderia ser sério. Oliveira criou coragem e olhou para suas pernas. "Fechei os olhos e comecei a rezar", disse.

Quadruplicou o número de motoboys em São Paulo na última década. A cidade licencia hoje quase mil veículos novos por dia, fazendo com que os engarrafamentos batam recordes a cada semana. Com isso, o motoqueiro é a alternativa mais barata e rápida para a entrega de mercadorias de pequeno porte - que vão de pizzas a documentos, passando por dvds e buquês de flores. Segundo Dirceu Rodrigues Alves Júnior, da Associação Brasileira de Medicina de Tráfego, a Abramet, foram vendidas 1,8 milhão de novas motos no Brasil, em 2008 e, com o aquecimento da economia, "a perspectiva das montadoras é aumentar cada vez mais a produção".

Em contrapartida, apenas no período entre maio e julho passado, o Hospital das Clínicas recebeu 148 vítimas de acidentes de motos. No ano passado, houve 478 motociclistas mortos em São Paulo. "Nesse número só entram as mortes no local", ressalvou Aldemir Martins, presidente do sindicato dos motoboys, o Sindimoto. "A morte posterior, decorrente do trauma, não está nesse cálculo."

Há dezenas de acidentes com mo-toqueiros todos os dias em São Paulo. O próprio Aldemir Martins passou por um bem grave. Ele estava atrás de um ônibus que fez uma virada brusca. O presidente dos motoboys bateu e ficou enganchado em baixo do ônibus. Martins foi arrastado pelo asfalto até que o motorista, alertado pelos gritos e gestos de transeuntes, percebeu que devia parar o ônibus. O líder do sindicato teve fratura exposta de tíbia e perônio, e correu o risco de amputação. Por um ano e meio, teve de andar com um aparelho fixador. Até hoje, carrega as marcas dos pinos e sente dor se a temperatura esfria. Num outro acidente, Martins bateu o olho no guidão e ficou com uma pálpebra irregular. No último, tomou um tranco de um carro que fez uma marcha a ré súbita. Saldo: pé direito quebrado.

De motociclistas que se acidentam e sobrevivem, mais de 70% ficam com algum tipo de comprometimento nas pernas - o que pode significar amputações, infecções tardias e recorrentes (que muitas vezes são mortais), enrijecimento e perda de movimento. Segundo Dirceu Alves Júnior, que viu casos terríveis em seus 24 anos de trabalho na Abramet - como motociclistas com a massa encefálica transbordando de um crânio aberto -, o dano tende a ser irreparável. "O acidentado precisa de tratamento de longuíssimo prazo", disse, "porque ele já chega à uti com infecção produzida pelo próprio asfalto e vai precisar de múltiplas cirurgias."

Quando Renato de Oliveira acordou na mesa de cirurgia, sua primeira reação foi checar se sua perna afetada, a direita, continuava lá. Estava. Mas pouco a pouco, no pós-operatório, ele constatou que o sonho de jogar no juvenil do São Caetano não poderia se realizar. As artérias estavam tão comprometidas que o fisioterapeuta passou a prepará-lo para a eventualidade de ter que sacrificar a perna. Dizia que, com as próteses atuais, muito eficientes, o motoboy poderia, quem sabe, até mesmo voltar ao esporte.

De fato, Oliveira voltou às quadras. Mas ao esporte paraolímpico: integra a Seleção Brasileira de Vôlei sentado. Vinte e cinco dias depois da primeira operação, teve a sua perna amputada. Posteriormente, colocou uma prótese. Não se adaptou e teve de trocá-la. Usou quatro diferentes até se adaptar à atual. Pagou por quatro delas - a outra lhe foi dada de presente por um ortopedista. A que usa agora lhe custou 10 mil reais. Para comprá-la, Oliveira teve de vender o carro, um Kadett. Uma prótese de ponta custa 100 mil reais.

 A médica fisiatra Julia Greve, que acompanha a romaria dos mutilados no Hospital das Clínicas, usa uma referência bélica para falar de jovens como Renato de Oliveira: "Num país sem campos minados nem guerras, estamos criando uma geração de indivíduos que perderam a perna em acidentes de moto ou que tiveram que amputá-la." Ele mesmo não culpa a profissão pela fatalidade, mas a vulnerabilidade da moto no contato com veículos maiores. "A perna é o para-choque do motoboy", disse.

Com ou sem mutilação, quase todos os acidentados em motos apresentam traumatismo cranioencefálico, variando apenas no tipo de sequela. "Muitos chegam em coma e ficam ali adormecidos uma semana", explicou Alves Júnior. "Poucos saem desse quadro. É comum acontecer edema cerebral e compressão dos centros respiratórios, levando o paciente à morte." Os que sobrevivem estão sujeitos à perda da memória, comprometimento da fala e diminuição da sensibilidade num dos lados do corpo.

Carlos Eduardo de Souza trabalhava como motoboy na Zona Norte de São Paulo. Fazia bicos durante o dia e

 

 
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