Revista Piaui
"O Afeganistão é a maior armadilha que Obama enfrenta. E foi preparada por ele mesmo"
impasses do império
Ilusões de Obama
O padrão de anúncio grandioso, implementação adiada e autodefesa retardada não evitará que os abutres caiam sobre o presidente
DAVID BROMWICH
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Bem antes de se tornar presidente, Barack Obama já dava sinais de prometer com facilidade e ceder com frequência. Moderado por temperamento, sempre foi claro que, uma vez eleito, ele se inclinaria para o centro. Mas havia algo de estranho na rapidez com que cunhou um slogan declarando que seu governo olharia para o futuro e não para o passado. Reduzido à prática, o slogan queria dizer que Obama preferiria não expor muitos dos atos ilegais da administração Bush. O valor da conciliação vencia o imperativo da verdade. Obama representava "as coisas que nos unem e não as que nos dividem". Uma desagradável correção de erros passados poderia ser vista como retaliação e o novo presidente não permitiria que um equí-voco dessa natureza atrapalhasse seus objetivos ecumênicos.

Os apelos de Obama pela harmonia, e seus gestos de conciliação, encon-traram uma recepção uniformemente negativa. A bem da verdade, os republicanos estão tratando o sucessor de George W. Bush pior do que trataram Bill Clinton. Obama apenas parece mais estável porque a grande imprensa, que detestava Clinton de forma irracional, levantou-se em sua defesa. Mas existem inúmeras fontes de informação alternativas, capitaneadas pela Fox News Radio e Fox TV, as estações de Rupert Murdoch. Dessa fonte brotou um discurso que atingiu 20 milhões de ouvintes, no início do verão americano. A mensagem era coerente, detalhada e subvertia a ordem estabelecida. Visava atacar a legitimidade do presidente e prometia uma insurreição. Convocava-se um vago exército de furiosos e ressentidos a manifestar seu desprezo por Barack Obama e a exibir lealdade a princípios que poderiam estar ameaçados - o direito ao porte de armas, o direito de não pagar por planos de saúde.

O rancor dessa gente vinha da hostilidade ao projeto do sistema de saúde anunciado pelo presidente - projeto que detestavam sem tê-lo visto e que sequer fora explicado com clareza suficiente para compensar a desconfiança. Barack Obama passou a ser apresentado por determinados setores como o símbolo perfeito das forças que ludibriavam o povo americano, roubando-o de seus direitos de nascença. "Esse cara" - outra expressão comum - não tinha o direito de impor leis aos americanos.

Atrasos na aprovação do "pacote de estímulo" para revigorar a economia após o colapso financeiro de 2008 e, depois, do projeto do sistema de saúde deveram-se em grande medida à espera de Obama para que os republicanos concedessem a essas medidas uma aura de unanimidade bipartidária. Alguns, de fato, votaram a favor do estímulo econômico. Nenhum encampou a proposta do novo sistema de saúde. Os republicanos se mantêm onde estavam e assistem à estatura política do presidente diminuir.

 Os motivos de Obama para esperar certamente têm algo a ver com o medo. Ele recebe quatro vezes mais ameaças de morte que George W. Bush. Também se vê contido por um desejo natural dos moderados - o de se manter próximo de todas as instituições ao mesmo tempo: militares, financeiras, legislativas, comerciais. Fosse o mundo ideal, ele poderia inspirar a todos e ofender a ninguém. Mas a ideia de acomodar os inimigos gradualmente para chegar ao consenso parece, em Obama, quase um delírio no sentido mais literal: uma crença estabelecida em algo que não existe. Como ela teria chegado a dominar um homem tão inteligente?

Até agora a carreira de Obama não contava com realizações singulares pelas quais ele fosse o único responsável. Sua experiência parece não ter lhe ensinado a lei da seleção natural da política, em que as maiorias se formam dos que sobraram. Qualquer ato concreto produz pequenas multidões de desiludidos. A política é feita de sentimentos feridos que só o tempo pode curar, se é que cura. Essa é uma verdade que confronta Obama em diversos campos, mas que ele não aceita com facilidade. Sua forma de pensar se aproxima do espírito do Iluminismo, que supõe que um conjunto de procedimentos corretos jamais pode ser descrito e plenamente compreendido sem ser aceito.

Ele age como se fosse o líder de um partido inexistente, como se paciência e um temperamento cordato pudessem trazer à tona o melhor em todos os homens. Ele parece falar, ao mesmo tempo ou alternadamente, como um organizador e um mediador, um líder nacional e um curandeiro. Há algo de estranho nessa alternância de posturas, do ponto de vista da prudência pragmática.

As grandes bandeiras que ele levantou nos primeiros meses - a decisão de fechar Guantánamo, de pressionar pelo estabelecimento de dois Estados como solução para Israel e a Palestina, e de reformar o seguro-saúde com um plano nacional - foram apresentadas com um prefácio grandioso, seguido por meses de silêncio. Deixou que seus agentes, conselheiros ou o partido - se possível, os partidos, tanto o democrata quanto o republicano - cuidassem dos detalhes. Só que, durante a longa espera, são justamente as características mais marcantes de suas intenções que acabam sendo atenuadas.

Assim, seu pronunciamento no começo de junho, no Cairo, parecia anunciar uma nova pressão sobre Israel e uma posição a favor da criação de um Estado palestino. Foi um discurso ponderado e corajoso. Mesmo sabendo que ganharia inimigos impiedosos na direita americana, Obama foi ao Cairo e se dirigiu aos muçulmanos sem condescendência. Mas, nos quatro meses seguintes, suas intenções não foram apoiadas por sanções, e o governo de Benjamin Netanyahu aprovou milhares de novas unidades para a expansão das colônias israelenses.

O sistema de saúde, por sua vez, foi sendo minado por uma agenda diferente de negligência. Primeiro houve um longo verão de doutrinação conservadora pelo rádio, que tornou a oposição à mudança tão clamorosa que muitos encontros políticos regionais explodiram em tumultos. Foi somente no dia 9 de setembro que Obama falou para uma sessão conjunta do Congresso. Ali, finalmente, fez uma defesa concatenada e impressionante de seu plano. O discurso devolveu seus índices de popularidade para mais de 50% de aprovação e foi maculado apenas pelo grito de um representante da Carolina do Sul: "O senhor está mentindo!" Violar o silêncio daquele salão

 

 
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