O general Stanley A. McChrystal desceu do Black Hawk com o motor ainda ligado e seguiu direto para a cidade. Ele viera até Garmsir, um posto avançado coberto de poeira às margens do rio Helmand, no sul do Afeganistão, para avaliar a guerra que o presidente Barack Obama lhe pedira para salvar. McChrystal tirou o colete à prova de balas e o capacete. Seu rosto, ossudo e austero, parecia fazer parte do deserto à sua volta.
Estava rodeado de guarda-costas - o que é normal para um general de quatro estrelas -, e mais uma variedade de oficiais dos fuzileiros navais encarregados de tomar conta da cidade. Garmsir esteve sob o controle do Talibã até maio de 2008, quando uma unidade de marines a invadiu e limpou. Desde então, os britânicos, e em seguida os americanos, vêm controlando a área e tentando, muito lentamente, construir alguma coisa em Garmsir - um governo, um exército, uma força policial - pela primeira vez desde o começo da guerra, há mais de oito anos.
Os fuzileiros em torno do general, entre eles o comandante do batalhão local, fizeram um ar de surpresa, e até de alarme, quando McChrystal removeu seu equipamento de proteção. Mas, à medida que o grupo percorreu a pé as ruas de chão gasto que levam ao bazar de Garmsir, os outros começaram também a tirar seus capacetes.
"Quem são os donos das terras aqui em volta?", perguntou McChrystal, percorrendo as ruas e espiando dentro de algumas lojas. "São os próprios agricultores ou eles arrendam dos proprietários?"
Era o tipo de pergunta que um sociólogo ou economista poderia fazer. Ninguém tinha uma resposta.
O grupo entrou no bazar. Os afegãos intuíram a chegada de um americano importante e começaram a formar pequenos grupos dentro dos quiosques. O general parou e virou-se para eles.
"Do que vocês estão precisando aqui?"
Um tradutor verteu para o pashto a pergunta do general.
"Precisamos de escolas!", respondeu um afegão. "Escolas!"
"Estamos cuidando disso", disse McChrystal. "Essas coisas levam tempo."
O general caminhou mais um pouco, abordando outro grupo de afegãos. E lhes fez a mesma pergunta.
"Segurança", respondeu um homem. "Precisamos de segurança. Primeiro a segurança, e depois pode vir o resto."
"É o que tentamos fazer", disse McChrystal. "Mas vai levar algum tempo. As coisas levam tempo para dar certo."
Continuou a fazer perguntas, obtendo sempre as mesmas respostas. Ao fim de algumas horas, ele tornou a vestir o colete à prova de balas e seu capacete, embarcou no Black Hawk e decolou rumo a outra cidade.
As coisas levam tempo para dar certo, mas quanto tempo Stanley McChrystal tem? A guerra no Afeganistão já entrou em seu nono ano. O Talibã, a julgar pelo número dos seus ataques, recuperou boa parte da força perdida desde que os americanos derrubaram seu governo, no final de 2001. Soldados e fuzileiros navais morrem a um ritmo mais acelerado do que nunca. Nos Estados Unidos, a oposição à guerra não para de crescer.
Pior: mesmo depois de todo esse tempo no Afeganistão - depois de tanto dinheiro, de tanto sangue -, a falta de resultados salta aos olhos em todos os pontos do país. Em Garmsir, não há nada que se pareça nem de longe com um Estado moderno capaz de tomar conta das coisas se os Estados Unidos e seus aliados da Organização do Tratado do Atlântico Norte, a Otan, deixassem a área. Basta percorrer uma parte do país para ver como o seu território é vasto e inóspito, e como os esforços têm sido insuficientes.
E há o governo de Cabul. O presi-dente Hamid Karzai, que num certo momento se tornou o favorito do Ocidente, ao que tudo indica venceu as eleições de agosto passado na crista de uma verdadeira enxurrada de fraudes. Os americanos e seus aliados estão sendo confrontados com a possibilidade de que o governo que estão apoiando, construindo e defendendo seja uma carcaça podre.[1]
Em sua primeira avaliação das condições do país, enviada ao presidente Obama no início do mês passado, McChrystal conclui que o Afeganistão está à beira do colapso e os Estados Unidos, à beira da derrota. Para mudar os rumos da guerra, segundo McChrystal, o presidente Obama tem à sua frente o que pode ser a escolha mais momentosa de sua política externa: a escalada ou a derrota. McChrystal pediu o envio de mais 40 mil soldados americanos - 65 mil já estão lá - e a aceleração do esforço para treinar soldados e policiais afegãos, além de construir um Estado. Se Obama não puder intensificar os combates, sugere McChrystal, melhor desistir desde já.
"Recursos inadequados", escreve McChrystal, "resultarão provavelmente num fracasso."
A magnitude da escolha apresentada por McChrystal, e agora posta diante de Obama, é difícil de exagerar. Pois o que McChrystal propõe não é um ataque temporário, ao estilo do Iraque - um rápido influxo de tropas americanas, logo sucedido por uma retirada. O plano de McChrystal é um projeto detalhado para um longo compromisso americano com a construção de um Estado moderno no Afeganistão - onde tal coisa jamais foi vista - e com a instauração da ordem em um lugar famoso pelos vários impérios que derrotou pelo cansaço. Mesmo na melhor das hipóteses, esse compromisso deve consumir, ainda por muitos anos, centenas de bilhões de dólares e acarretar muito mais mortes de norte-americanas e norte-americanos.
Isso, se der certo.
Poucos dias depois de McChrystal enviar seu relatório, me sentei a seu lado no quartel-general de Cabul e ele me pareceu otimista e relaxado. O relatório continuava secreto - ainda não vazara para o público. O furor decorrente ainda estava por vir, assim como os rumores de que McChrystal cogitava renunciar, o que ele acabou sendo obrigado a desmentir de público. A atmosfera não era de tensão - ainda. Só de urgência.
"Aceitei esta função porque me pediram que aceitasse e porque é muito, muito importante", disse-me