Revista Piaui
"No Muro de Berlim pintado em 1989, o beijo de Leonid Brejnev e Erich Honecker: 'Meu Deus, ajudai-me a sobreviver a esse amor letal'"
parece que foi ontem 1
9 de novembro de 1989 e eu
TIM APMANN
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Não era mais um posto de controle, mas um posto fora de controle. Dezenas de pessoas cruzavam de um lado para o outro, inebriadas pela experiência de atravessar sem mostrar documentos nem esvaziar bolsas. Nem serem presas ou mortas pela polícia. Tive o privilégio de ver como o concreto se transformara em espaço livre 

Minha mãe nasceu na Prússia Oriental, em 1939, dois meses antes do início da Segunda Guerra Mundial, e meu pai, na Pomerânia, um ano antes. São regiões que pertenceram à Alemanha, mas dela foram desmembradas no final do conflito.

Nos seis primeiros anos de vida da minha mãe morreram perto de 6 milhões de poloneses e 20 milhões de cidadãos da União Soviética. Com o fim da guerra, uma parte da Prússia Oriental ficou com a União Soviética e outra com a Polônia, enquanto a Pomerânia foi entregue em boa parte à Polônia, ficando o restante com a Alemanha. Os quase 10 milhões de alemães dessas duas regiões foram expulsos de suas casas.

Assim como a vida dos poloneses e russos foi um pesadelo durante a ocupação nazista, também a vida dos alemães nos territórios ocupados pelos exércitos soviéticos e poloneses tomou rumos sombrios.

Lembro-me do relato, feito por meu pai, a respeito da expulsão de sua família de casa, numa véspera de Natal, com pouco mais que a roupa do corpo e um mínimo de bagagem na mão, rumo a um destino desconhecido. Fazia 20 graus abaixo de zero quando eles se puseram em marcha com o objetivo de chegar à zona soviética da Alemanha. Sempre me pareceu assombroso que tivessem sobrevivido àquelas caminhadas sem fim, dia e noite, atravessando cidades e aldeias em ruínas e cobertas de gelo. Milhões não sobreviveram.

Minha mãe também tinha histórias para contar. Da última noite que passou em Königsberg, a capital da Prússia Oriental (uma cidade do tamanho da atual Santos) já totalmente em ruínas, ela se lembrava de vultos entre os escombros, arrancando pedaços de carne dos cavalos que jaziam nas ruas. Só sobreviveu devido ao nascimento da sua terceira irmã: toda mulher com quatro filhos pequenos tinha autorização para embarcar num dos últimos trens que ainda sairia da cidade. Com essa autorização concedida à minha avó, ela chegou à Saxônia.

Como aconteceu a tantos milhões de pessoas deslocadas pela guerra, foi assim que as famílias de meus pais recomeçaram a vida no que viria a ser a República Democrática Alemã, a rda, ocupada pela União Soviética.

O reinício da vida foi de privações absolutas. Mas, depois de alguns anos, a população passou a ter, novamente, comida o suficiente. E o país foi se desenvolvendo.

Dadas as circunstâncias, os mais jovens abraçaram cordialmente a ideia oficial do governo - o socialismo pareceu a resposta lógica e luminosa ao que viera imediatamente antes. Todo o poder nas mãos dos trabalhadores e camponeses! Cada um ganhando de acordo com o seu trabalho! Mocidade alemã, para frente! Construa uma pátria que exprima a vontade do seu povo pela liberdade e igualdade!

Meus pais se conheceram, no início dos anos 60, numa pequena faculdade de belas-artes no litoral báltico. Basicamente, não tinham nada contra o país em que viviam, apenas possuíam uma certeza: os filhos que viessem a ter jamais se alistariam nas Forças Armadas, fossem quais fossem as penalidades por descumprirem as obrigações militares.

Embora a reconstrução de imóveis se intensificasse, a perspectiva de um jovem casal encontrar um apartamento na Berlim Oriental era pequena até os anos 70. Quando meus pais conseguiram um pequeno apartamento num bairro operário foi uma festa. O banheiro, com apenas o vaso sanitário, era externo. A cozinha tinha só uma pequena pia, com água fria, e servia de dormitório para um dos dois filhos - no caso, eu. Mas era um apartamento independente, coisa rara.

Por lei, todo prédio novo era obrigado a alocar 3% de seu orçamento para a decoração de suas paredes externas. Como minha mãe tinha estudado pintura mural na escola de Belas-Artes, coube a ela dedicar-se a essa tarefa. Segundo a orientação do regime, a arte mural deveria exprimir a felicidade das pessoas que tinham a sorte de viver na parte socialista da Alemanha. Poderia também retratar a miséria dos que viviam na parte capitalista da Alemanha - cujo governo era manipulado pelos nazistas e pelos imperialistas americanos - onde não existia o direito ao emprego, à educação ou à habitação. Como eles sobreviviam, só Deus sabia! 

A construção do muro erguido para manter inviolável a Berlim socialista coincidiu com o meu nascimento (em 1962) e o do meu irmão (três anos depois). Ela também levou meus pais a dar nomes americanos aos dois filhos - Tim e Tom. Se na Alemanha de hoje você conhecer alguma mulher de prenome Mandy, pode ter certeza de que ela é originária da antiga Alemanha Oriental.

Tom e eu entendíamos que o muro, erguido a não mais de dez minutos a pé de onde morávamos, era necessário para manter os nazistas no Ocidente. Era -óbvio que os nazistas estavam se preparando para ocupar o nosso país a qualquer momento e acabar com o nosso regime progressista e socialista. Só não entendíamos por que não podíamos, nós, dar um pulo do outro lado e ver como era um país cheio de nazistas. Tom e eu daríamos qualquer coisa só para ter uma oportunidade de ver esse lugar misterioso atrás do Muro de Berlim, tão perto e ao mesmo tempo tão distante. 

Quando perguntávamos por que os berlinenses ocidentais não vinham todos para o nosso lado, onde havia trabalho, educação e sistema de saúde gratuito para todos, meus pais se entreolhavam. E então respondiam de forma enigmática: "Tenho certeza que eles sabem por que não querem viver no nosso lado." Era óbvio que evitavam o assunto.

No início dos anos 70, durante quatro inesquecíveis dias de um feriadão de Páscoa, o Muro se entreabriu. Era a terceira vez desde a separação

 

 
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