Revista Piaui
"Viajante, curioso e lingüista experimentado, o britânico Colgan observa desde as nuances do nosso "oi" até a incoerência de algumas chamadas do noticiário"
diário
Um inglês na selva paulistana e na Amazônia.
KEN COLGAN
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Ao longo dos últimos dez anos, a profissão de KENNETH COLGAN levou-o a pelo menos trinta países mundo afora. Da Austrália a Burkina Faso, do Japão ao Haiti, a agenda desse intérprete titular do Parlamento Europeu, que domina quatro idiomas (grego, espanhol, francês e italiano), além do inglês, é um verdadeiro mapa-múndi. Sua próxima missão será em Angola. Para viagens de lazer, o poliglota Colgan, de 49 anos, tem uma queda acentuada pelo Brasil. Em janeiro, fez sua quarta expedição ao país para um primeiro batismo de Amazônia. As coisas nem sempre transcorreram conforme o imaginado, mas Colgan, admirador de porcos, fã de açaí e que acha Dalton Trevisan pessimista, pretende voltar

 

Bruxelas, SÁBADO, 17 DE JANEIRO DE 2009_Levanto às 5h30 porque não consegui dormir. Consegui manchar minha calça no joelho direito dois segundos depois de vesti-la. Como pode? É justamente a calça que escolhi para levar para a Amazônia e não vou lavá-la porque ontem gastei um tempão impregnando-a com repelente de insetos. Não quero que isso se perca, apesar de o produto resistir a quatro lavagens. Jogo um pouco de água, mas só consigo espalhar mais a mancha. O táxi chega e impede que eu piore as coisas.

Chego ao aeroporto de Zaventem às 6h45. Estou um pouco ansioso quanto à segurança, pois minhas sacolas contêm, entre outras coisas, três tipos de repelentes de insetos, um desinfetante e uma po-mada de cortisona para a eventualidade de os itens mencionados não funcionarem.

Faço escala em Madri e sigo para São Paulo. A viagem é boa, apesar de não estar sentado ao lado de nenhuma brasileira linda - de mulher alguma, aliás. Na poltrona ao lado está um francês cuja leitura de bordo é uma pilha de revistas sobre carros. Leio um conto do Rubem Fonseca: o início é brilhante, mas o final me pareceu um tanto desapontador. Depois ataco um romance policial de Lawrence Block. Perfeito para o avião. Também assisto a um filme e durmo um pouco. Além disso, me levanto periodicamente para fazer exercícios de alongamento - fato que, obviamente, não deixa feliz meu vizinho fissurado em carros. Dado que ele não encolhe as pernas, passo por cima delas cautelosamente e faço questão de atrapalhar sua sessão de cinema privada. Ele seleciona todos os filmes disponíveis e assiste a dez minutos de cada um.

Pousamos em Guarulhos com quarenta minutos de antecedência e esperamos meia hora até que trouxessem uma escada para sairmos do avião. O piloto anuncia que estamos em uma "posição remota". Nunca havia saído de um Jumbo por uma escadinha de metal: não é uma experiência que valha trinta minutos de espera. Somos transportados de ônibus até uma área de desembarque com poucos guichês e, portanto, longas filas.

O táxi em direção ao hotel Ibis, na avenida Paulista, passa pela praça Charles Miller. Deixo o taxista perplexo ao mencionar que Miller foi quem introduziu o futebol no Brasil.

Todos os hotéis Ibis são parecidos. As únicas diferenças entre este e os de Londres ou Estrasburgo são: 1) cada quarto tem uma geladeira (vazia, você compra o que quer e a abastece); 2) todos os quartos possuem um cofre (muito útil); 3) há um pequeno degrau para o banheiro, onde, naturalmente, dou uma topada logo após tirar minhas botas de desbravador.

O lado bom: o quarto possui Wi-Fi. 

 

DOMINGO, 18_No café da manhã, uma excêntrica combinação de suco de laranja e açaí, torta de frango e café. Depois vou ao Instituto Butantan para conferir sua considerável coleção de répteis e aranhas. O único senão é que há um monte de crianças correndo, gritando e fazendo aquelas coisas irritantes que as crianças fazem. As cobras são impressionantes, apesar de a maioria se enroscar junto às divisórias de vidro para estragar deliberadamente minhas fotos, ou permanecer encaracolada como uma mangueira de aspirador de pó, processo chamado de "enrodilhar" na ficha de informação disponível. Nota linguística: a palavra "cobra", em português, aplica-se a qualquer serpente. Já "cobra", em inglês, é conhecida no Brasil como "naja". Na volta, pego um táxi até uma estação do metrô onde há uma curiosa exposição dedicada a uma interpretação artística sobre cuecas. Só vendo para crer! Os interessados podem conferir minhas fotos no site www.revistapiaui.com.br.

Planejo ir a uma livraria e depois ao cinema. Esqueci de mencionar que o taxista de hoje de manhã usou a peculiar expressão "pois não", que significa "sim".

À tarde, como o cinema está lotado, resolvo ir ao teatro. Vou de metrô e chego à estação República cedo demais. Algumas pessoas me pedem esmola com frequência maior do que nas duas vezes anteriores em que estive nesta cidade. Também vi gente dormindo nas ruas - até mesmo na avenida Paulista. Será que existem mais pobres na rua hoje em dia ou a minha crescente confiança está me levando para vizinhanças mais carentes? De todo modo, os pedintes se limitam a fazer gestos resignados quando percebem que não vou lhes dar nada.

Comprei o ingresso para o teatro e fui beber uma garrafa de água na rua - os prédios de São Paulo são sempre muito quentes ou muito frios, dependendo se eles têm ou não um ar-condicionado: o bar do teatro não tinha. Eu mesmo me surpreendi com o tanto que compreendi da peça - uma poética história de amor ambientada no sertão. Muito mais do que pude entender daquele filme brasileiro (Tropa de Elite) a que assisti em Lisboa no verão. Mas perdi as nuances, é claro, e por isso não aderi aos aplausos de 90% da audiência. O melhor da peça é que ela dura apenas uma hora. 

 

SEGUNDA-FEIRA, 19_Esqueci de mencionar que, no caminho do aeroporto até a cidade, há muito mais igrejas evangélicas do que na última vez em que estive aqui. Cogitei visitar uma delas, mas acabei não indo, por achar que seria extremamente entediante. Foi só um daqueles impulsos que nos acometem sem que tenhamos

 

 
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