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Alberto Nannini RE UNIR
Eu era todos. Você inclusive. Até agora, onde vamos decidir. Meu relato talvez não faça sentido, e deve ser muito fragmentado. O lítio embota o raciocínio, mas, se você me entender, tudo ficará claro como o meio-dia.
Uma tempestade me apanhou no caminho a uma convenção. Eu vendia algo, não me lembro o que, e pegava de volta dinheiro e tempo das pessoas. E ganhava estrelas coloridas.
Precisei parar, não era possível prosseguir. Como minha vida até então, trânsito impedido. Passagem prejudicada. O Café convidava, logo ali, com seu neon insistindo em brilhar por trás daquela água toda, que alguém chorava lá de cima.
Eu entrei, e uma indiferença estranha me apanhou no caminho. Molhado, com um meio sorriso, buscando condescendência. Como sempre. Recebi olhares firmes, olhares iguais. E estremeci.
Eu converso com o faxineiro. Não. Isso foi depois. O ordenamento não faz sentido para mim, mas fazia, antes de eu entender, e fará para você também. O faxineiro foi um dos últimos.
Estou em frente a um espelho, sentado, escolhendo o que comer. Mas a garçonete me traz exatamente o que eu queria. Eu pedi? Eu não pedi.
De frente ao uma lareira, pessoas tomam algo quente em xícaras, e ouvem alguém narrar uma história, sobre deuses e espelhos.
Mais próximo a mim, um garoto brinca com bloquinhos de montar. E eu pensei que não havia nada melhor a fazer naquele momento do que brincar com ele. E sentei ali com ele, que sorriu para mim, e me disse que construía um hospital, com todas as alas, e uma ponte, para levar até ele. E era mesmo um hospital, estava bem claro para mim.
Foi só então que chegou o faxineiro. Ele tinha o olhar fundo, de um cansaço legítimo. Olhou nos meus olhos, e eu desviei o olhar.
E aí, todos me olhavam. Levantei, segurando um dos blocos de montar, e ele sorriu só com um lado do rosto, e me disse que profundo era o poço do passado. O garoto me disse que o mundo era divertido, colorido e variado, como uma caixa de bloquinhos, e as possibilidades de encaixe eram infinitas. E eu olhei para o faxineiro, e entendi: todos ali eram eu.
Uma confluência permitia que eu olhasse e convivesse com várias versões de mim mesmo. Mesmo as femininas. As novas e antigas. Todos eram familiares. O cozinheiro me disse: não existe eu. Tudo é um.
Entendi que o "eu" que eu acostumava não tinha mais legitimidade do que aquelas outras versões. Olhei e os entendi, e me uni a eles de novo. No começo, todos tinham meu rosto. Depois, isso mudou, e os (meus) rostos variam, belos como o seu.
Quando a tempestade cessou, e não lembro porque ou como fui embora, cheguei à tal convenção. E disse, solenemente, que eu era todos. Não há chefe, cliente, estrelas: há um só, dividido apenas porque não sabe se reunir.
E me trouxeram aqui. Medicado, amarrado.
Mas o meu-eu enfermeiro simpatiza comigo. Sei onde ele guardou o pentotal, e tenho a dose derradeira aqui na minha frente. Você, que sou eu também, vai decidir. Não consigo agora, nesta versão, pouco coeso. Entendi o caos, e fui preso. Eles acham! Loucura é não saber. Mas decida: estique seu braço e pegue o copo. Sim... Dê-me, até o último gole.
ALDMERIZA RIKER A mulher
Todos os dias, cedo, ela estava lá. Na praia, catando os resíduos trazidos pelos mar. Séria, concentrada no seu trabalho. Não falava com ninguém, nem olhava para os lados. Vez ou outra, tomava um gole de água de uma garrafa que sempre trazia. Os cabelos claros, presos, escondidos num chapéu. As roupas largas, de tecido grosseiro, escondiam as formas de seu corpo. Andava na praia de um lado para outro com um saco na mão.
Intrigado com aquela figura, passei a observá-la com mais cuidado. Seus gestos, seu porte esguio e o que mais me chamava a atenção era sua indiferença com tudo que se passava a sua volta. Parecia uma concha perdida na praia, fechada sobre si mesma. Examinava os detritos que apanhava, um por um. Depois, sentada num canto da praia, retirava-os do saco, examinava-os, detidamente, quase como se quisesse revirá-los pelo avesso. Sentia ímpetos de aproximar-me dela, atraía-me seu modo silencioso, a maneira de movimentar-se na praia, como se encobrisse um mistério que só ela poderia deslindar. Um dia, arrisquei um bom-dia. Nada. No outro, também. Assim, sucessivamente. Ela não respondia, nem levantava sequer a cabeça. Comecei a pensar que ela fosse surda ou tivesse algum retardo mental. O que me motivava mais a aproximação é que percebia traços de beleza em seu rosto apesar da aparência descuidada. Não desisti. Um dia, para surpresa minha, levantou a vista e olhou-me. Fiquei impressionado. Os olhos castanhos, sem brilho, como se estivessem encapados por uma película transparente não se deixando oxigenar, assim todo seu corpo. Não esqueci aquele olhar. A solidão transbordava, a tristeza comprimia-se ali por inteira.
Após dias, meses, observei que seu ânimo arrefecera. Às vezes parava, olhava o mar longamente, depois continuava. Uma vez chegou, sentou-se e assim permaneceu, olhando o mar. Não um olhar calmo, tranqüilo, apreciando os recortes das ondas, mas um olhar agudo, em sentinela, a perscrutar as dobras que o vento fazia nas águas do mar e depois nas espumas que se formavam na areia da praia. Outro dia, ficou ali quase estática, sob o sol, a pele crestada. Criei coragem, ofereci-lhe água. Ela tomou-a sôfrega. Olhou-me demoradamente e disse-me: profundo é o poço do passado. Passou uns dias sem aparecer. Senti sua falta. Atormentava-me ao pensar que estivesse doente, precisasse de ajuda, não sabia onde procurá-la. Dias depois, apareceu. Cabelos soltos, aparência melhor. A tristeza ainda no olhar. Aproximou-se de mim e disse: - Vim me despedir. Duas lágrimas caíram, pareciam as últimas daqueles olhos quase secos. Contou-me sua história. Vivia uma paixão intensa, quando uma noite, ele desapareceu, misteriosamente, levando tudo o que lhe pertencia. Ela recorreu a todos os meios de busca. Embalde. Então, resolveu procurar na praia, um resquício que fosse, uma prova cabal da existência daquele amor.
- Só achei um botão. Mostrou-me.
Ana Luiza Rodrigues
Desde então, a caixa começou a ser preenchida com suas memórias cotidianas. Primeiro, veio a boneca de pano Úrsula, sua mais querida companheira de infância, que figurava como o brinquedo mais feio no meio de sua coleção de bonecas de porcelana francesa. Anos depois, a caixa serviu de refúgio para as cartas de amor -nunca respondidas - que Francisco, o filho do padeiro, lhe endereçava. Pobre Francisco... Mal sabia que suas cartas serviam apenas para alimentar o ego de sua musa quando esta padecia de alguma desilusão amorosa. Surpreendeu-se ao encontrar o dedal de sua avó, uma mecha de cabelo de seu irmão, um papel no qual se discernia com certo esforço um "amo você, mamãe" escrito com giz de cera pelo seu primeiro filho.
E ela foi retirando da caixa, uma por uma, as peças que compunham o quebra-cabeça de sua vida.No meio dos vestígios de seu passado, encontrou o retrato em preto-e-branco que seu marido lhe mandara quando estava distante, em uma de suas viagens. Na foto, via-se um homem franzino com óculos de grossos aros pretos. Era o terceiro ano sem ele, que falecera de uma gripe forte. "Em nossa idade não se pode descuidar, Luís..." - ela o alertava sempre.
Da sala, vinham as vozes de seus netos e o eco das conversas de seus filhos. Lera em alguma parte - a memória lhe falhava- que "profundo é o poço do passado". Suspirou. Cada vez que abria aquela caixa mergulhava num sem fim de cheiros, sons e sensações. Relembrar o passado era coisa engraçada. Era como cair em um poço e ver refletido em suas paredes você mesmo em diferentes momentos. Quanto mais profundo, menos clara a imagem lhe parecia e mais suscetível a erros ela se tornava.
De repente, caiu em si. Lembrou que tinha um bolo para tirar do forno e um passado para construir.
Ana Paula Nogueira Desencanto
Leve então
O resto desta ilusão
E todos os cuidados meus
Brinquedos dos caprichos
Os versos, na voz de Chico Buarque, saem do som abafado da vitrola antiga que Ana herdou da avó, junto com o disco raro do compositor, conseguido a duras penas - e muito dinheiro - numa loja de antiguidades da Rua do Lavradio. Desde então, a gravação está sempre na agulha.
Seria mais uma noite comum, em que Ana passa sozinha contemplando o mar do seu espaçoso apartamento na Avenida Atlântica, não fosse uma idéia súbita que atravessara-lhe o espírito ao acordar e se dar conta da data: 20 de junho, dia em que conheceu José, no baile de formatura do Instituto de Educação, há 30 anos.
Ela, uma menina tímida, filha de pais abastados, que sonhava em dar aulas para crianças pobres da periferia do Rio. Ele, assessor do Itamaraty, que passava boa parte do seu tempo viajando. Nesse dia, foi levado ao baile por um amigo, que queria lhe apresentar a irmã que iria se formar. Acabou se apaixonando por Ana, também formanda, com quem se casou.
É pena porque foi tão lindo amar
Sentir você sonhar tão junto a mim,
Ouvir tanta promessa,
Fazer tanta esperança,
Pra hoje ver lembrança, tudo enfim
Ana ouve a música enquanto se arruma. Passou o dia às voltas da preparação da noite especial. Comprou flores, que enfeitou a bela sala de móveis antigos e bem conservados. Fez o cabelo, pintou as unhas de vermelho e tirou do armário o vestido branco, de tafetá, que usara no baile de formatura.
Sua bela silhueta, bem conservada aos 48 anos, ainda se encaixa no antigo vestido. Na verdade, ela parece ainda mais bonita que no Baile de Formatura, com um ar mais maduro, fruto das poucas rugas que insistiram em se instalar no rosto bem tratado.Os anos não lhe foram cruéis, pelo menos nesse aspecto. Mas não teve filhos, nem os alunos que tanto sonhou, com o seu tempo gasto a organizar jantares de gala e a esperar por José.
Não passou
De um triste desencanto, amor,
E desde então eu canto a dor
Que eu não soube chorar
As três únicas estrofes da canção de Chico são tocadas à exaustão, acompanhadas dos muitos cigarros, que, por usa vez, fazem par às várias taças de vinho. No final da última estrofe, ela então se deita no chão da sala.
Ana dá uma longa golada no vinho, junto com algo que esconde na mão. Se abraça e sente o vento quente, típico das noites de verão do Rio, entrar pelas janelas do apartamento. Fecha os olhos e dá o último suspiro.
É de manhã. José cumprimenta o porteiro e entra no elevador. Pela primeira vez, conseguiu desmarcar uma importante reunião e voltar mais cedo para casa. No longo caminho até a cobertura, pressente algo. Toca a campainha, mas ninguém atende. Deixa então as flores na mesinha do hall e tenta achar as chaves de casa na mala. Entra correndo e encontra Ana no chão da sala.
A vitrola ainda roda o disco terminado. Ao lado, umas fotos antigas e a frase: "Profundo é o poço do passado". Ele coloca a agulha no começo da música, se deita ao lado de Ana, e, pela primeira vez, parece entendê-la.
Leve então
O resto desta ilusão
E todos os cuidados meus
Brinquedos dos caprichos
Um vento quente entra pelas janelas da sala e acaricia os cabelos de José.
econnosco mudar. Desista do stand by. Poupe energia a 100%
Andréia Regeni Eco
A nova casa tinha cheiro de tinta fresca, de folhas secas e parecia ser muito maior agora que Álvaro estava sozinho. Ainda sem móveis. Um árduo trabalho pela frente, já que preencher e decorar requer inspiração, requer um novo fôlego. Completar cada centímetro dessa casa não seria tarefa fácil, mas Álvaro sabia da urgência em começar uma nova vida, uma vida que não queria nascer. A sensação era muito pior do que seu primeiro dia no trabalho. Ele sentia como um garoto perdido, indefeso. Não sabia como calar aquele grito de medo em seus pensamentos. Os fantasmas de dias passados não poderiam descobrir onde ele estava. Não dessa vez.
A vida, dividida em passado, presente e futuro, como devia ser, e ele estaria no tempo e no lugar certo. Hoje era aquela casa na beira da estrada, hoje sua cabeça, seu corpo e todas suas ideias faziam dele um só, e daí pra frente esse seria seu consolo, estar intacto, sem ter de correr para agarrar as palavras que escaparam de sua boca, sem ter que apagar as frases impulsivas que escreveu, era só ele, e a partir desse passo, o passo de não se mover, encontraria a paz. E quando os móveis ficam no passado, o conceito também é material. Ele pediria pra alguém fazer a mudança? Sua nova história acabara de começar, não havia personagens naquele cenário vazio, de céu nublado onde só o vento improvisava a trilha sonora.
Quem é forte o suficiente pra ir até lá e voltar, ir até o fim do túnel já sem luz e agarrar todos seus pertences? Profundo é o poço do passado, que nos enfraquece e nos deixa incapaz de voltar ao presente. Não sem arranhões. O passado te convida pra ficar, pra ser parte dele. Seria melhor então gastar suas economias e comprar móveis novos? Ainda assim, teria de abandonar, como já havia prometido a si mesmo, as fotografias, as cartas e sua coleção de discos. Um homem sem passado, fingindo eternamente a inocência de ter nascido hoje.
Aguentaria um dia. Se fosse preciso, deixaria o sono de lado. E para que esse dia durasse para sempre, foi até o centro da pequena cidade, comprou uma cafeteira, pó de café e um maço de cigarros.
Arthur Guerra de Andrade Filho Todo o universo
Naquela barraquinha, cantava-se para se esquecer a mágoa, sim senhor. Ora. Mas sambar, ai é que são elas, deixava para os despachados. De qualquer maneira, o melhor mesmo ficava a cargo daquilo que os olhos eram cúmplices. Antes de tudo, da praia baiana, porque, meu filho, não tem melhor no mundo. E, como se não bastasse, fazia o complemento perfeito a possível contemplação do vai e vem das moças, no bom sentido. Sabia que o entrecho baseava-se no simples balanço das ondas e dos cabelos, orquestrados pelo vento, regente da harmonia.
O companheiro radinho tocou o hino do Bahia, tricolor de aço, era hora do noticiário esportivo. O hino tocou-o como sempre tocou. Conseqüência daquele momento em que o menino entra pela primeira vez num estádio. Mais precisamente naquele instante em que o garoto ferreteia um time no seu coração, tomando-o para o resto de sua vida, numa paixão leal, capaz das mais sinceras lágrimas e explosões de prazer. Profundo é o poço do passado.
Nas areias, era a vez de uma menina forte e esperta, tomando uma mineral, tomar o palco. O vento, magíster, faz questão de balançar gostosamente cabelos como aqueles, para depois se refrescar no mar, harmônico e alegre, como um menino crescido.
A vida foi simples, meu amigo, se é.
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