Revista Piaui
"O que eu quero é o breu da noite como condição, como algo no qual eu possa afundar e me dissolver. "
carta da Noruega
A busca, noite adentro
O que eu quero é o breu da noite como condição, como algo no qual eu possa afundar e me dissolver
PER PETTERSON
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Às vezes eu saio para caminhar à noite. Não só no verão, quando a luz escorre do céu o dia inteiro e também de noite, e fica fácil enxergar longe, mesmo bem depois da meia-noite, e tampouco só no inverno, quando camadas grossas de neve irradiam luz em direção verticalmente oposta, do chão para cima, como o piso da discoteca londrina em que dancei certa vez (mas isso faz muito tempo). Se estiver suficientemente frio você tem vontade de dançar, é verdade; de ouvir o rangido seco das botas encontrando a neve a cada salto que você dá. O som do sapateado na estrada de campo numa noite de janeiro! É bom ter a cabeça coberta pelo capuz, bom que ninguém possa ver o teu rosto ruborizado. A época mais escura nesse vale é no final de novembro, antes de a neve assentar, quando tudo que posso ver ao abrir a porta e pisar na soleira são as luzes externas de uma outra chácara na encosta em frente, e ao meu redor os campos lavrados pelo outono engolem e sufocam - cada centelha, cada faísca, cada chama, sem devolver nada. Então, se eu não puder dormir ou não quiser dormir, provavelmente vestirei meu casaco, em geral o casaco de marinheiro com que visto os meus personagens nos romances que escrevi, e irei para o pátio. A lanterna fica em casa. O contraste que ela produz ao ser ligada e o raio de luz cortando a noite, dividindo tudo entre aqui e ali, podem despertar novamente o medo do escuro que eu tinha quando era pequeno e que já quase desapareceu, mas em certas situações, em certos cruzamentos mentais e geográficos que sou incapaz de calcular ou antever, ele me atinge com força e me deixa tão rijo de terror que nas minhas piores fases trago comigo a minha faca de Creta. Seguro-a com força pelo cabo e deixo exposta a lâmina afiada de metal, pronta para ser usada contra todos que se esgueiram à minha volta e preenchem completamente a escuridão com seus corpos viscosos, irados e selvagens, dispostos a me atacar na primeira oportunidade.

E nesse momento sinto o frio agudo me queimar a nuca e mesmo assim dou o primeiro passo e percorro todo o caminho até o vale.

Na maioria das vezes não é assim. Sem faca nem lanterna, desço a encosta que sai do Portão (é como se chama o lugar onde moro). Às vezes um dos meus cães me faz companhia - de preferência Laika, que é mais jovem e tem menos tendência à preguiça -, às vezes saio sozinho, quando suspeito que meu alce favorito está parado no lugar de sempre, mascando e cochilando entre os arbustos ao lado da estrada que corta Dæsjroa, ou Dalsroen, como aparece em alguns mapas. Não que o alce tenha medo de Laika. Ele não se mexe um centímetro por mais que a cadela fique latindo, e Laika sabe que o alce não tem medo, e como ele não bate em retirada Laika não pode persegui-lo. A frustração dela é tão grande que ela late sem parar até quase se partir ao meio. E eu também, eu me parto ao meio; tudo isso é barulhento demais, não quero que a minha noite seja assim. Por isso prefiro caminhar sozinho. Não preciso necessariamente de companhia. O alce pode ficar lá nos arbustos, por mim não tem problema, eu gostaria de saber que ele está lá e quem sabe até poder escutá-lo, mas apenas como um componente da noite que percorro, pois também quero fazer parte dessa noite.

O que eu quero é o breu da noite como condição, como algo no qual eu possa afundar e me dissolver; o que eu quero é que a escuridão se infiltre nos meus olhos e que o meu corpo saia flutuando para que deixe de ser tão nítido, ou tão importante quanto ele me costuma parecer, a ponto de, devo admitir, eu me pegar escutando os seus sinais como um monomaníaco ou um hipocondríaco; o que eu quero é dissolver um pouquinho a fronteira entre corpo e não-corpo, talvez consumar uma tênue osmose ali onde começa um e termina o outro; borrar. É o que eu quero quando estou farto de mim mesmo, do meu rosto no espelho, das palavras que ponho na tela, farto do gosto metálico que sinto na boca ao me representar dia após dia, quando a relação proporcional entre eu e eu é de 1:1, só que não exatamente, e o asco e o desdém por mim mesmo vazam pelas fissuras na borda, ali onde a discrepância impede que a fita adesiva da vida grude como deveria.

E me pergunto: terá sido assim para os que se sentiram atraídos pelo grande deserto, o Saara, no livro Desert Divers [Mergulhadores do Deserto], de Sven Lindqvist[1] (que acabo de ler pela terceira vez e no qual penso com frequência); terá sido assim para Saint-Exupéry, para Isabelle Eberhardt[2] ou para os outros naquele livro, será que eles queriam se apagar, será que o Saara era a noite deles, e que não fizeram outra coisa senão pensar com mais ambição, com uma vontade maior do que a minha, estancado em pé no frio, inquieto e me coçando todo, com apenas essa noite avançada de outono à minha disposição? E talvez eu pare por aqui. Mas entendo o anseio, aquela atração, quando me encontro de repente numa estrada escurecida, como agora, com os braços abertos como as asas de um avião, um avião de rota de correio, talvez, indo de Dacar a Casablanca como o avião de Saint-Exupéry; a máquina vibrando, tão quente e próxima do meu corpo, mas também um grande silêncio envolvendo minha cabeça, meus pensamentos, e assim caminho pela escuridão para confirmar o espaço ao meu redor. Para perceber como é potencialmente infinito e portanto capaz de proporcionar uma liberdade quase esmagadora, da mesma forma que o deserto é potencialmente infinito, como o foi para Sven Lindqvist

 

 
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