Revista Piaui
"O Globo chegou aos 56 anos sem gastar com propaganda. Seus donos estão cansados de rebarbar propostas de franquias, currículos de executivos e planos de expansão."
gastronomia
O império global da mandioca
O segredo do biscoito de polvilho que veio de São Paulo e conquistou o Rio de Janeiro com uma receita mais do que simples
CLARA BECKER
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O dia da carioca Magali Peixoto começa muito antes que as praias se encham de gente e as ruas se entupam de carros, arrebanhando a freguesia que garante seu emprego.

Ela trabalha à sombra de um sucesso popular no Rio de Janeiro. É empacotadora do biscoito Globo, o preferido das praias e dos engarrafamentos. Todo dia, sai de casa para o serviço às quatro e meia da manhã, quando o sol nem deu sinal de que pretende nascer e os vizinhos dormem no Morro da Caixa d'Água, no subúrbio de Quintino, a terra de Zico. Ela desce a ladeira irregular na noite fechada. "Daqui a pouco, todo mundo acorda, mas a essa hora sou só eu, Deus e os cachorros", diz Magali, incluindo entre os madrugadores os dois vira-latas dela, Raí e Priscila.

Magali desce o morro com passos firmes. Visto de baixo, o caminho parece um barranco. De cima, um precipício. Mas, aos 53 anos, Magali sabe de cor onde pôr os pés. "Precisa me ver descendo isso aqui de salto alto, na chuva", diz, oferecendo à interlocutora o próprio braço como balaústre. No horizonte, brilham os bicos de gás da Refinaria Duque de Caxias. Se já estivesse claro, ela informa, daria para ver, ao fundo da Baixada Fluminense, o cume do Dedo de Deus, lá em Teresópolis, a quase 90 quilômetros de distância.

Ao pé do morro, ela toma o trem para a cidade. E, no fim da linha, anda mais quinze minutos até a rua do Senado, número 273A. São 5h30 e ainda não amanheceu quando Magali chega à fábrica do Globo, como faz há 35 anos. Na frente do velho sobrado, os vendedores ambulantes começam a fazer fila, à espera da mercadoria. Lá dentro, prestes a dar início à epopéia do biscoito, está um dos donos da empresa. Faz meia hora que o padeiro Francisco Nunes Torrão aguarda seus onze funcionários para poder dar a largada de uma jornada que, desdobrada em dois turnos, só se encerrará 150 mil biscoitos mais tarde. Serão 96 fornadas consecutivas que se estenderão até as oito da noite.

Torrão é um dos sócios-fundadores do biscoito Globo. Nasceu em Portugal, 73 anos atrás. Veio para o Brasil em 1954, driblando a convocação para o serviço militar, num tempo em que o exército salazarista despachava soldados para as colônias africanas. Ele integra o quarteto que criou a empresa em 1963. Passados 46 anos, continua madrugando para abrir as portas da fábrica às cinco em ponto da manhã. Às seis, quando sai a primeira fornada, ele prova um biscoito ainda quente e - o que é essencial - antes que passe pela estufa, etapa que o tornará mais crocante. Torrão, ao contrário do mercado, prefere o Globo assim.

Outros onze empregados revezam-se para desdobrar o expediente por mais de catorze horas. A maioria tem "um bom tempo" de casa. E ninguém reclama da rotina. Edmilson da Silva, por exemplo, mantém o ponto da massa há 44 anos. Para esses detalhes, Torrão não troca por máquina alguma o toque humano. E só há quatro máquinas à vista nos 460 metros quadrados do prédio centenário, de paredes altas revestidas, de alto a baixo, com azulejos brancos. A tinta marrom nas portas está descascando.

O equipamento industrial se resume à misturadora, que vira a massa, à pingadeira, que molda as roscas, e aos dois fornos, que assam os biscoitos. "Muita coisa aqui ainda é feita manualmente", resume Torrão. E isso não é problema. Depois de analisar o funcionamento da empresa no curso de engenharia de produção, o estudante Bernardo Cunha de Miranda, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, concluiu que o único gargalo visível nessa linha de produção está nos fornos, que fazem 164 biscoitos por minuto. Torrão agradeceu a informação e deixou tudo igual.

As mãos de Magali produzem 2 500 pacotes por dia. Manipulam, em média, 25 mil biscoitos. Quer dizer que arrumam as roscas em fileiras nos sacos de papel. Fecham sumariamente o invólucro, retorcendo como orelhas as pontas dos embrulhos. Achatam as embalagens com dois tapinhas anódinos. Cinco vezes por minuto.

Seus gestos parecem mecânicos. Mas a empresa lubrifica as engrenagens da produção artesanal com uma política de recursos humanos que, há décadas, promove o bom humor da turma na cozinha abafada por fornos ligados a 230 graus. Repete-se, na política pessoal, a fórmula do biscoito: nunca mudar o que uma vez deu certo. A firma paga salários acima do mercado - de 300 a 500 reais por semana, de acordo com o faturamento da temporada - e sempre em dinheiro vivo. Não fala em demissões, reengenharia, reestruturação, downsizing e outras firulas da moderna administração de empresas. Na hora de contratar, aposta no bom e velho compadrio, preferindo parentes e amigos de funcionários antigos.

Magali é exceção. Entrou pela cota do acaso. Numa tarde de sol em 1973, comprou um pacote de Globo doce na praia do Flamengo, e aproveitou para perguntar se a fábrica não estaria precisando de alguém como ela. O vendedor palpitou que sim, porque o movimento era grande. Ela passou por lá no dia seguinte e pegou uma vaga.

Pela informalidade, o biscoito Globo não poderia parecer mais carioca. Mas ele é paulista. Nasceu em 1953, produto do fim de um casamento. Milton, Jaime e João Ponce Fernandes são irmãos cujos pais se desquitaram. A ter que escolher entre morar com a mãe ou com o pai, os três acharam mais fácil se mudar para os fundos da padaria de um tio, na rua Cipriano Barata, perto do Museu do Ipiranga, em São Paulo. Lá, aprenderam a fazer biscoito de polvilho. E nunca mudaram a receita.

O biscoito Globo chegou ao Rio em 1955. Veio para o 36º Congresso Eucarístico Internacional, que levaria multidões ao Aterro do Flamengo, ainda em fase de terraplenagem. A peregrinação religiosa foi, para o biscoito, uma epifania. Pela primeira vez, ele se encontrou com

 

 
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