Revista Piaui
"Temos um déficit abissal no quadro de agentes penitenciários. Somos menos de 800 homens para mais de 18 mil presos."
diário
De veterinário a agente
LEONARDO FERREIRA DE LIRA
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Não é todo dia que um agente penitenciário – como passaram a ser conhecidos os antigos carcereiros – se habilita a escrever um diário. Mas LEONARDO FERREIRA DE LIRA, de 31 anos, costuma fazer várias coisas inusitadas ao mesmo tempo. Apesar de formado em veterinária, ele prestou concurso na área de segurança pública, e trabalha há nove anos como agente penitenciário. Desde 2006 faz escolta e transferência de presos da capital de Pernambuco para todo o Brasil. Também dá aulas de jiu-jítsu, faz pós-graduação em segurança pública e participa de um programa para bolsistas do governo.

SEGUNDA-FEIRA, 26 DE JANEIRO

6:00H_O celular da minha noiva, Paula, desperta com uma voz dizendo aos berros: “Vamos levantar, escovar os dentes.” Fico um pouco mais na cama. Fui dormir tarde ontem porque queria rever na televisão os melhores momentos do meu time, o Náutico. Paula trabalha no setor de exportação das Baterias Moura. É formada em relações internacionais pela Faculdade Integrada do Recife e ganha pouco mais de 2 mil reais por mês. Vamos nos casar dentro de nove dias.

Esse é o nosso terceiro final de semana morando juntos, no apartamento que ela financiou pela Caixa Econômica. Antes, morávamos com minha mãe e minha avó. Meu pai mora com minha irmã e meu cunhado.

Meu carro está no conserto desde o mês passado, quando dois bandidos me roubaram. Era madrugada. Paula e eu tínhamos saído para comer um sanduíche perto de casa. O carro foi achado poucas horas depois, com uma batida do lado direito. A minha pistola, que pertence ao Estado, estava escondida embaixo do banco. Foi localizada no dia seguinte em um terreno abandonado. Recuperamos a arma graças a informações obtidas dentro do presídio.

7:40H_Estou escrevendo da Gerência de Operações de Segurança (GOS). Minha escala de trabalho é de 12 por 60: trabalho 12 horas e folgo as 60 horas seguintes. Existe uma escala extra, opcional, de mais 96 horas a serem distribuídas dentro do mês, incluindo um fim de semana.

Sempre que temos alguma missão logo cedo, somos avisados na véspera. Ontem eu estava no culto evangélico quando me avisaram por celular para chegar bem cedo. Fui verificar a viatura, uma Mercedes Sprinter, com um xadrez onde cabem oito detentos e tem lugar para mais seis agentes.

Hoje seria dia de levar um preso do Presídio Professor Aníbal Bruno, a oeste do Recife, para uma audiência na comarca de Itapissuma, no litoral norte do estado. Peguei o cinto com minha algema e o coldre, minha camisa preta com o nome da GOS e meu colete. O chefe do plantão avisou que à tarde teríamos outra missão: levar ao fórum os integrantes de um grupo de extermínio do agreste. Peguei uma pistola Taurus calibre ponto 40, conferi o seu número e a munição, assinei o livro, carreguei a arma, deixando uma bala na agulha, e depois recuei o cão com a trava de segurança. Dois da nossa equipe (somos quatro) vieram com metralhadoras e coletes à prova de bala.

9:00H_Justo quando chegávamos em frente ao presídio, fomos avisados da mudança de planos: deveríamos, antes, levar outro preso até o aeroporto de Recife para embarcá-lo no vôo das 10:30h. Geralmente quando um preso é transferido para fora do estado ele viaja em avião de linha comercial. Para sua escolta é reservada a última fila de três poltronas juntas. O preso fica algemado o tempo todo, com um pano cobrindo as algemas.

Enquanto esperávamos pelo detento, cruzei com um homicida que a imprensa daqui tinha tornado famoso. No fundo, ele é só um criminoso qualquer, não o monstro descrito pelos jornais. Muitas vezes a propaganda que a mídia faz de certos criminosos é de interesse múltiplo: ganha o detento pela fama de bandidão, ganha a polícia por ter prendido “o cara mais perigoso do pedaço”, ganham os jornais que vendem barbaridade, e ganha a população, que fica aliviada com a ilusão de que não tem mais bandidos nas ruas.

Nosso preso, de seus 45 anos, foi condenado por tentativa de homicídio. Ele era do sertão, tinha ido morar no Rio, e acabou se envolvendo numa briga com um desafeto que tentou agredi-lo com uma foice. Só que foi ele quem acabou enfiando a foice no sujeito. Na épo-ca, o delegado carioca garantiu que ele responderia ao processo em liberdade, e que não se preocupasse, porque as testemunhas estavam todas a seu favor. Ele não acreditou e fugiu para Pernambuco. Isso foi há dezenove anos. Três meses atrás, quando foi comprar uma terrinha e puxaram a documentação para fazer o financiamento, descobriram a ordem de prisão.

Voltamos ao presídio para buscar o detento que deveríamos ter apanhado logo cedo, mas ele não foi localizado: segundo o banco de dados, já tinha sido transferido para outra prisão, em Igarassu.

HORA DE ALMOÇO_Igarassu tem uma das melhores comidas do sistema carcerário daqui. Só perde para a do presídio de Limoeiro, no norte do estado. Antigamente, a melhor era a de Caruaru – uma agente penitenciária de lá chegou a levar quentinhas do presídio para jantar em casa. Entrei no portão de Igarassu dizendo Open the door!, com voz de trovão. Os agentes já sabem que sou eu e se divertem. Justo quando nos sentamos para almoçar, recebemos a informação de que nossa missão havia sido cancelada por falta de escolta. Temos um déficit abissal no quadro de agentes penitenciários. Somos menos de 800 homens para mais de 18 mil presos.

Fomos transportar o grupo de extermínio para a capital. Como os detentos eram três homens e uma mulher, e o nosso efetivo era só de quatro homens, precisávamos de reforço. Quando a mesma quadrilha foi presa e levada pela primeira vez ao fórum, tivemos o apoio de um helicóptero, grupos de elite da Polícia Civil e até a Polícia Federal deu suporte. Na época o caso teve cobertura maciça

 

 
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