Revista Piaui
"Acho que sou um sentimental"
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O formulador emotivo
CONSUELO DIEGUEZ
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Marco Aurélio Garcia se inflama ao atacar Israel, a Globo e os tucanos. E chora ao se lembrar de um bom jantar em Paris e da morte da mulher, ao falar de seu filho e de sua mãe, e ao defender a candidatura de Dilma Rousseff

"Lula ama Hugo Chávez, Chávez é muito charmoso", disse Marco Aurélio Garcia, assessor especial do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Eram 9 horas de uma abafada manhã em Belém. Ele respondia, em francês, às perguntas de quatro deputados socialistas do Parlamento Europeu que tinham vindo participar do Fórum Social Mundial, o contraponto da esquerda ao Fórum Econômico Mundial, em Davos, na Suíça.

"O senhor considera a Venezuela uma democracia?", quis saber Henri Weber, do PS francês. "Claro que sim", respondeu Marco Aurélio. "É uma democracia pluripartidária, com imprensa livre e oposição ativa." Os deputados quiseram saber como estavam as relações do Brasil com Estados Unidos, Europa e Japão. "Nunca tivemos relações tão próximas com os Estados Unidos como no governo Lula", respondeu. O Brasil, ressaltou, foi um mediador vital nas complicadas relações entre George W. Bush e Chávez. "Bush confiava muito em Lula", disse.

Durante o Fórum, 8 mil pessoas lotaram o Centro de Convenções para saber o que os presidentes Lula, Chávez, Evo Morales, da Bolívia, o paraguaio Fernando Lugo e o equatoriano Rafael Correa pensavam da crise econômica. O brasileiro foi o último a falar. Apesar de ter um discurso escrito à mão, como de hábito Lula falou de improviso. Mas expôs as idéias que Marco Aurélio tinha posto no texto.

"Todos os companheiros temos divergências", disse Lula. "Evo Morales, quando nacionalizou o gás, tinha gente, aqui no Brasil, que me acusava de frouxo. Eu jamais permitiria que um metalúrgico brasileiro fosse brigar com um índio boliviano. Tivemos divergências com Rafael Correa. Vamos resolvê-las, cada um respeitando a soberania do outro. Eu ando pelo mundo defendendo o Chávez, porque todo o mundo é contra Chávez. Tenho orgulho de ser o presidente da República que mantém, possivelmente, a melhor relação com a Venezuela que o Brasil já teve."

Quando retornou ao hotel, Marco Aurélio sentou-se no restaurante, pediu uma cerveja e disse, satisfeito: "É impressionante a capacidade de memorização do presidente." Perguntei para ele por que elogiara tanto o presidente da Venezuela. "Não advogo o estilo Chávez para o Brasil, mas ele tem grandes qualidades e, do ponto de vista pessoal, é uma personalidade encantadora", comentou. "É um homem sincero, com um voluntarismo extraordinário, que captou os problemas da sociedade venezuelana. Um homem nunca existe fora de suas circunstâncias e Chávez é o resultado do processo político que o cercou."

Para o assessor presidencial, Chávez marcará a história da Venezuela como Perón marcou a da Argentina. "Gostemos ou não deles, Chávez e Perón ganharam importância porque têm seguidores. Chávez é exuberante, pode ter uma visão da democracia diferente da minha, mas não passará para a história como um tirano. Porque os tiranos não passam para a história. Quem é partidário do Stroessner no Paraguai? Do Videla, na Argentina? Do Médici, aqui? Esses não deixaram nada, só más recordações."

Rubens Barbosa, embaixador em Washington no governo de Fernando Henrique Cardoso, é um dos críticos do latino-americanismo defendido por Marco Aurélio Garcia. "Essa política é uma bomba de efeito retardado porque ela só funciona com o governo do PT", disse-me ele. "Não é uma política de Estado e sim partidária, baseada em afinidades ideológicas. Como ficarão as relações do Brasil com esses países quando o PT não for mais governo?"

Diplomatas ligados ao PSDB culpam o assessor do presidente por dificuldades pelas quais o Brasil passou recentemente na América Latina. Seria o caso da invasão da refinaria da Petrobras, na Bolívia, da ameaça do Equador de não pagar sua dívida com o Brasil, e os atuais embates com Fernando Lugo, que quer rever o acordo de venda de energia do Paraguai para Itaipu.

Marco Aurélio tocou nesses assuntos durante um almoço, no Clube de Golfe, em Brasília. "O que nós perdemos na Bolívia?", questionou. "Nada. Houve uma bravata do Evo? Houve. E só, porque eles nunca deixaram de cumprir o acordo de venda de gás para o Brasil. Um ex-presidente chegou a sugerir que deveríamos ter colocado tropas na fronteira com a Bolívia. Isso é uma estupidez."

Ele está seguro de que o Brasil agiu de forma igualmente correta nos atritos com o Equador e o Paraguai. "Por que a arrogância desses embaixadores em relação aos nossos vizinhos? Lula dizia: 'Nunca briguei com Bush e querem que eu brigue com o Evo?' Nos criticam por causa da nossa relação com Chávez. Mas qual é o problema que tivemos com Chávez?"

Passou então para o ataque, mas sem se alterar: "Fizeram um carnaval com esses episódios. Mas o Celso Lafer, quando era chanceler do Fernando Henrique, foi lá nos Estados Unidos e tirou os sapatos ao passar por detectores de metal. Se esses embaixadores querem ter uma conduta estritamente diplomática, deveriam ter tido outro comportamento no caso do Bustani que foi imolado." (O embaixador José Maurício Bustani foi forçado a deixar a Diretoria-geral da Organização para a Proibição de Armas Químicas, em 2002, por pressão da Casa Branca.)

Ele disse que a aproximação com os governos latino-americanos de esquerda é produto da necessidade, e não da ideologia: "É claro que agora existe uma solidariedade maior do Brasil com os vizinhos. Não queremos que o país seja uma ilha de prosperidade em meio a um bando de miseráveis. Temos que ajudá-los, sim. Essa é uma visão pragmática. Temos superávits comerciais com todos eles", explicou.

Citou, novamente, a Venezuela: "Eles importavam até ovos do Brasil. Dissemos a Chávez que a economia venezuelana não podia depender só do petróleo. Que eles tinham que desenvolver sua agricultura até por uma questão de segurança alimentar. Agora estamos exportando granjas, frigoríficos e caminhões. Já os venezuelanos

 

 
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