Revista Piaui
"O presidente saiu para posar para a foto oficial e na volta Clara lhe fez uma contraproposta: Quero ser aquilo que no cinema se chama de continuísta"
o primeiro e o terceiro poder
Azia, ou o dia da caça
MARIO SERGIO CONTI
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Criticado diariamente por jornalistas, o presidente fala que a imprensa lhe faz mal ao fígado e diz o que pensa de Janio de Freitas, Elio Gaspari, Diogo Mainardi, Ali Kamel, Luis Nassif, Merval Pereira e outros mensageiros e arautos.

A 176ª entrevista do presidente Luiz Inácio Lula da Silva em 2008 estava marcada para as nove e meia da manhã da quinta-feira que antecedeu o Natal. Meia hora antes, Clara Ant deu um entusiasmado "bom-dia!" ao entrar na sua sala, no 3º andar do Palácio do Planalto, a 50 metros do gabinete de Lula. Apressada, queria repassar o pequeno texto informando ao presidente as características, a linha política e o número de leitores da revista que o entrevistaria. Da ficha, poderiam também constar números recentes do governo e um breve perfil do jornalista que faria a entrevista.

A jornada de trabalho de Clara Ant é regulada pela bandeira nacional na frente do palácio. Se estiver hasteada, é sinal de que Lula está presente. Se não, saiu. Todos os dias, ela chega ao Planalto antes da bandeira subir e só sai depois que ela desce - a não ser quando o presidente viaja.

Quando chefiou a equipe técnica do Planalto que fez uma visita de trabalho à Casa Branca, em maio de 2005, Clara Ant viu em Washington como o Departamento de Estado monitora os interesses americanos ao redor do mundo, e reforçou a convicção de que só deveria escrever sugestões curtas ao seu chefe, o presidente Lula.

"A Watch Room é imensa, funciona 24 horas por dia, e tem dezenas de funcionários, que acompanham estações de rádio e televisão, a internet, relatórios de embaixadas e consulados e juntam todas as informações que digam respeito aos Estados Unidos", contou Clara Ant, há mais de dois anos. "Todos os dados são encaminhados à Analysis Room, onde outras dezenas de pessoas comparam, checam e consolidam o que foi coletado."

O trabalho das duas salas dá origem, uma vez por semana, a um relatório, que é colocado na mesa da secretária de Estado Condoleezza Rice. "O relatório tem uns três ou quatro parágrafos, de três frases cada", disse a assessora especial de Lula, e completou com veemência: "É por isso que fico uma arara quando jornalistas mal informados, ou de má-fé, dizem que o presidente lê coisas curtas porque é preguiçoso."

Clara Ant tem 60 anos, é alta, abre com frequência um riso amplo e assume ares de mãezona judia quando dá broncas, o que também faz amiúde. Ela fechou o sorriso e ameaçou ficar brava quando pedi que deixasse ler o que havia escrito sobre piauí na ficha para Lula. Logo desistiu e, de bom humor (mas nem tanto), tocou-me da sala.

Ela nasceu em La Paz, na Bolívia, onde seus pais, judeus poloneses, foram parar no fim da Segunda Guerra, à espera de um visto para os Estados Unidos que nunca se materializou. Sua língua materna foi o iídiche, aprendeu hebraico na escola e espanhol na rua. Aos 10 anos, mudou com a família para o número 124 da José Paulino, a rua de adoção da comunidade judaica em São Paulo. Aprendeu a falar português sem sotaque, se casou, separou, viu suas irmãs e os pais se mudarem para Israel, se formou em arquitetura e urbanismo pela Universidade de São Paulo e ali descobriu sua vocação, a política.

No teatro clássico, observa Roland Barthes, a câmara onde fica o governante é secreta e misteriosa. Dela emana a aura da divindade que se encarna no soberano. É nas sombras, indevassável, que o poder trama em surdina o domínio dos súditos. Já a antecâmera é espaço de transição. Ali, o chefe supremo exerce o primeiro dos poderes, o de fazer esperar (o termo em português é exato: sala de espera).

Isso no teatro de Racine, nos versos firmemente alexandrinos de Fedra. Na prosa solta de uma manhã no Planalto, o visitante perambula à vontade, sem ser conduzido à antecâmara. Vê funcionários que passam aspirador de pó em carpetes esmaecidos. Cruza com um solitário Henrique Meirelles. Observa o capricho com que uma moça lava a janela. Contempla os mirrados Dragões da Independência no alto da rampa de entrada. Ouve três vezes em quinze minutos a mesma pergunta - "Com açúcar ou adoçante, doutor?" - feita por garçons que portam bandejas redondas e enormes.

O visitante fica assim, despoliciado, até topar com César Alvarez, o encarregado da organização da agenda de Lula. O gaúcho Alvarez trabalha no gabinete pessoal do presidente, chefiado por Gilberto Carvalho.

Num café da manhã, Carvalho explicou que define as audiências de Lula com base em três prioridades. Primeiro, ministros, secretários de Estado e assessores graduados. Em seguida, representantes de associações de classe, sindicatos e movimentos sociais. Em terceiro lugar, donos ou executivos de empresas.

"As multinacionais sempre querem trazer seus CEOs para visitar Lula", disse Gilberto Carvalho. "Acho que para mostrar às matrizes que têm prestígio e acesso ao presidente." Também para as reuniões com empresários, Clara Ant redige fichas com informações sobre as companhias e perfis sumários dos Chief Executive Officers, inclusive com fotos 3 x 4 deles, para que, como explicou Carvalho, "Lula reconheça logo e cumprimente o executivo certo".

César Alvarez conhece Clara Ant há mais de trinta anos. Militaram juntos na Organização Socialista Internacionalista, a OSI, grupo trotskista que se tornou conhecido nos anos 70 pelo nome Liberdade e Luta, pelo qual passaram os ex-ministros Antonio Palocci e Luiz Gushiken. Clara foi vice-presidente da Federação Nacional de Arquitetos e Urbanistas, participou da fundação e dirigiu a Central Única dos Trabalhadores e se elegeu deputada estadual pelo PT. Nessas atividades, conheceu o presidente.

"Minhas relações com Lula eram as que podiam existir entre um líder metalúrgico de massa e a dirigente de um grupo clandestino de esquerda", lembrou Clara Ant. "Que podiam existir" é eufemismo para "divergência frontal e azeda",

 

 
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