Revista Piaui
"Não houve derramamento de sangue porque o xeque golpista teve o apoio de membros da dinastia."
carta do Catar
Ao vivo de Doha
Como a emissora árabe que a Casa Branca disse ser "a porta-voz do error no mundo" cobriu a vitória de Barack Obama
DANIELA PINHEIRO
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Em meio à multidão que lotava o Grant Park, em Chicago, na noite de 4 de novembro, o repórter comentou ao vivo a notícia da eleição americana: "Foi uma vitória nacional, com um mandato legítimo para mudar a história." Ao longo das horas seguintes, trechos do discurso do presidente eleito foram repetidos ad nauseam pela emissora, junto com cenas da campanha e uma música dramática que dava um tom emocional ao noticiário.

Na forma (cortes acelerados de multidões mesclando cenas do vitorioso em câmara lenta, contra um fundo em que se agitavam bandeiras americanas) e no conteúdo (de simpatia com o eleito) parecia uma rede de notícias 24 horas ocidental, esperançosa com a "mudança" prometida por Barack Obama.

Mas houve diferenças. O ministro de Relações Exteriores do Iraque, Hoshiyar Zebari, por exemplo, participou ao vivo de um debate com o escritor de esquerda Tariq Ali, nascido no Paquistão, sobre as mudanças que o novo governo dos Estados Unidos provocaria no Oriente Médio. Uma reportagem mostrou a repercussão da vitória na Libéria e numa comunidade de negros pobres da Bahia. Estudantes iranianos opinaram sobre as relações da Casa Branca com o clero xiita no seu país. Direto de Cabul, um ministro do governo, um líder talibã e o editor do principal jornal de oposição debateram a idéia de Obama de remanejar tropas americanas do Iraque para o Afeganistão.

"Isso não se vê em outras emissoras", disse-me o diretor de notícias Al Anstey, um inglês alto, grisalho e com gestos lentos de aristocrata, em seu amplo escritório na sede da Al Jazeera em Doha, no Catar. "Em canais como a CNN ou a BBC, predomina uma visão ocidental da notícia. Como estamos em todo o mundo e sempre damos espaço para todos os lados envolvidos numa notícia política se manifestarem, somos um canal único."

Al Jazeera Internacional foi lançada, há dois anos, para ser a versão em inglês. Em árabe, ela está no ar desde 1996, e é líder de audiência no Oriente Médio, onde 95% dos domicílios têm televisão a cabo. Foram contratadas estrelas do jornalismo da BBC, da CNN, da CBS e da ABC para dar credibilidade ao projeto. Em pouco tempo, os índices de audiência alcançaram níveis comparáveis aos dos concorrentes estabelecidos há décadas no mercado.

O alvo atingido pela nova rede são os filhos de imigrantes que perderam na Europa a língua materna dos pais (mas não a religião e nem a cultura), países muçulmanos que não falam árabe (como o Paquistão e a Indonésia), e também espectadores interessados em pontos de vista diferentes do americano e do europeu. Foi um choque: assim como ocorreu com o canal em árabe, pela primeira vez, judeus foram entrevistados por uma cadeia de televisão do Oriente Médio; e dinastias ditatoriais da região, criticadas por muçulmanos.

A Al Jazeera Internacional é vista hoje em 120 milhões de residências em

80 países. Uma das exceções são os Estados Unidos, onde a emissora não conseguiu a concessão de um canal a cabo. Mas, indiretamente, percebe-se que o interesse dos americanos por sua programação é crescente: têm origem nos Estados Unidos 60% dos 5 milhões de acessos semanais ao site da emissora e às reportagens da rede postadas no YouTube.

A sede da Al Jazeera, em Doha, está alojada em dois prédios baixos, sem nada de especial, na frente de um estacionamento de terra batida lotado de carros de luxo, quase todos brancos devido à temperatura média de 45 graus. Juntas, a televisão árabe e a internacional têm 1 200 funcionários de 45 nacionalidades e escritórios em 40 países. A impressão de austeridade se dissipa dentro do canal internacional, que tem chão de mármore, paredes de vidro e iluminação indireta em tons prateados. Há dezenas de tevês de plasma espalhadas pelos dois andares. A maioria dos funcionários é de jovens americanos e ingleses, em jeans e camiseta, que almoçam em suas mesas e deixam suas canecas de porcelana ao lado dos computadores.

O canal árabe fica do outro lado da rua. Embora com a fachada idêntica à do internacional, suas dependências são antigas, apertadas e simplórias. Em uma visita, o presidente do Egito, Hosni Mubarak, surpreendeu-se com as instalações. "Essa caixa de fósforos é que faz um barulho desses?", indagou aos presentes. Nas paredes, há fotos de soldados com capacetes, paisagens do Oriente Médio e frases de Gandhi, Bob Dylan e filósofos muçulmanos.

Muitas funcionárias usam abbaya, a roupa preta que só deixa à mostra face, mãos e pés, e quase todos os homens estão de dishdasha, o camisolão branco acompanhado de um lenço vermelho e branco na cabeça. Num anexo, há uma pequena mesquita para os empregados rezarem durante o expediente.

Na medida em que reproduziu o padrão e a forma das emissoras ocidentais, o conteúdo da Al Jazeera também sofreu influência externa. A sua programação é feita de mesas-redondas, programas de entrevistas, reportagens especiais e telejornais, apresentados por profissionais em roupas ocidentais. O enfoque e a prioridade dos temas são distintos na estação internacional e na árabe. Na véspera da eleição americana, o drama dos refugiados no Congo era o segundo grande tema do canal em inglês. Já o outro investiu na cobertura de protestos na Caxemira e na eleição na Zâmbia.

Até o surgimento da Al Jazeera, os telejornais na televisão árabe eram feitos com uma câmera estática, apresentadoras de xador e poucas imagens externas. Até hoje, em países como a Arábia Saudita toda a programação é submetida à censura prévia. Filmes, novelas e videoclipes ainda dominam a grade das emissoras.

Com o sucesso da Al Jazeera, surgiram clones como a Abu Dhabi TV, mantida pelo governo dos Emirados Árabes Unidos, e a Al Arabiya, fundada em 2003, que é financiada (e também editada) pela realeza da Casa de Saudi. Um dos programas mais populares da Abu Dhabi TV foi a série cômica Irhabiyat (Terrorismo), que

 

 
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