Revista Piaui
"Não há nem o convívio da calçada nem o comércio de rua..."
questões arquitetônicas
A ópera do Pequeno Príncipe
Mesmo com todos os ataques e denúncias que a envolvem, a Cidade da Música feita por Portzamparc no Rio é a mais relevante obra pública construída no Brasil desde Brasília
FERNANDO SERAPIÃO
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Do alto, num helicóptero, há pouco mais de seis anos, o arquiteto francês Christian de Portzamparc viu pela primeira vez o terreno da Cidade da Música. Estavam com ele o prefeito Cesar Maia e Ricardo Macieira, secretário municipal das Culturas. Assim que ganhou altitude, o helicóptero sobrevoou Botafogo, passou pelo centro, entrou na Zona Norte, acompanhou a Linha Amarela e chegou à Barra da Tijuca. "É ali!", gritou Cesar Maia, apontando a rotatória de cruzamento das duas maiores avenidas da região, o Cebolão.

No dia seguinte, Portzamparc voltou à Barra de carro. Tanto pelo ar como por terra, sua primeira impressão foi negativa: o acesso à Cidade da Música seria difícil. Não tanto por ser longe do centro da cidade, e mais pelo trânsito pesado e a ausência de metrô na região. Cesar Maia lhe garantiu, porém, que o metrô chegaria lá. (Não chegou e não chegará tão cedo.)

No centro do terreno, havia um morrote de uns 10 metros de altura. Ao subir até o topo, o arquiteto francês reapercebeu - e reanimou-se com - a beleza da área: do alto do outeiro avistou o mar, mais de 20 quilômetros de praia, a grande baixada pontilhada de lagoas e o recorte das montanhas da Floresta da Tijuca. Já se passavam mais de vinte anos da primeira visita dele à Barra.

Portzamparc pisara pela primeira vez na Barra em 1981, para comer peixe num pequeno restaurante de pescadores. A área ainda era relativamente erma, com construções esparsas, apesar de Lucio Costa ter desenhado o seu projeto urbanístico já em 1969. Desde então, o francês retornou a ela diversas vezes, sempre de férias, acompanhando o seu desenvolvimento. Se os prédios e centros de comércio foram construídos ao sabor do mercado - tendo como ápice do grotesco uma réplica da Estátua da Liberdade -, desvirtuando o traçado e as idéias de Lucio Costa, o excelente paisagismo de Fernando Chacel foi relativamente preservado.

Com o tempo, a Barra se tornou o eixo de expansão da Zona Sul, mesmo que, geograficamente, ela esteja mais ligada à Zona Norte. E mesmo com a existência, hoje, de uma oposição entre moradores da Barra e da Zona Sul. Quem mora em Copacabana, por exemplo, não identifica o morador da Zona Oeste como um semelhante. E vice-versa.

Isso ocorre porque a Barra tem muito de subúrbio norte-americano. Ou seja, é um local de ocupação recente, distante do centro, onde os deslocamentos são feitos de automóvel, em vias expressas. Não há nem o convívio da calçada nem o comércio de rua. Ele é resultado do urbanismo do século XX, que setorizou os usos e esvaziou o principal elemento da cidade tradicional: a rua.

Ricardo Macieira estava no helicóptero com Christian de Portzamparc. Formado em arquitetura no início da década de 80, ele trabalhara três anos com Lucio Costa justamente no plano da Barra. Ele me recebeu num fim de tarde, em seu gabinete na prefeitura, vestido de camisa jeans e calça cáqui. "Como estava previsto um equipamento cultural no eixo monumental, decidimos fazer ali a Cidade da Música", explicou. Na verdade, o plano de Lucio Costa previa a manutenção de um grande "bosque rústico", que teria equipamentos de "caráter científico-cultural".

O secretário estava (e continua) convicto de que o Rio precisava de um grande edifício com fins culturais, que fosse criado por um arquiteto estrangeiro e famoso. Para Macieira, o "efeito Bilbao" - expressão cunhada depois que o museu do canadense Frank Gehry colocou a cidade basca no mapa do turismo mundial - renovaria a cidade, que ano a ano vê esmaecer o título de capital cultural do Brasil.

Além da Cidade da Música, Macieira participou de outra saga - fracassada - baseada na mesma idéia: o Guggenheim. O Rio só venceu Curitiba, Salvador e Recife, que também disputavam a construção da filial brasileira do museu, quando concordou em entrar no projeto com 200 milhões de dólares - e a fundação nova-iorquina, com nada. No início de 2003, o francês Jean Nouvel foi contratado para desenhar o prédio. Ele realizou um projeto numa região imunda e sucateada, o Píer Mauá, o que gerou uma grande celeuma (com abaixo-assinados, artigos na imprensa e liminares na Justiça, que acabaram suspendendo o contrato entre a prefeitura carioca e a Fundação Guggenheim).

Pouco antes, Maia havia rompido com seu ex-pupilo Luiz Paulo Conde. Arquiteto e líder da categoria no Rio, Conde movimentara a cena arquitetônica, de início como secretário de Urbanismo da primeira gestão de Maia e, posteriormente, como prefeito. Ele implantou os projetos Rio-Cidade e Favela-Bairro, que renderam uma grande quantidade de trabalho para seus colegas. Assim, o fato de contratar dois arquitetos franceses, e ainda por cima com honorários acima da tabela nacional, foi interpretado como uma vingança do prefeito. "Cesar Maia transferiu o ódio que tem do Conde para os demais arquitetos cariocas", disse-me na ocasião um respeitado projetista local.

Macieira contou que, em paralelo à peleja pelo Guggenheim, "surgiu a idéia de criar a sede para a Orquestra Sinfônica Brasileira". A OSB é uma das mais antigas sinfônicas do Brasil e ocupa o Theatro Municipal do Rio que, apesar do nome, é administrado pelo estado. "Imediatamente, fui a Paris consultar o Portzamparc", lembrou o secretário da Cultura.

Portzamparc já havia sido sondado para criar outro prédio carioca: um novo auditório para o Museu de Arte Moderna. Com a recusa do francês, o auditório do MAM foi transformado em casa de -shows, de forma um tanto desastrada, mas seguindo em linhas gerais o volume do projeto de Affonso Reidy, da década de 50. Em sua visita de dez dias a Paris, Macieira estava acompanhado de Raul Ribeiro, secretário de Relações Internacionais da prefeitura. Lá, ambos conheceram em detalhes a Cidade da Música no parque de La Villette, o projeto que deu renome internacional a Portzamparc.

Numa manhã de agosto passado, o inverno fez os termômetros marcarem

 

 
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