Revista Piaui
"Como um furacão subia a costa da Flórida, a equipe do Instituto de Neurociências entrou em pânico com a possibilidade de o caminhão não chegar a tempo ao aeroporto"
anais da neurociência
Sonhos de Natal
Num laboratório potiguar, as experiências para provar que Freud tinha razão
MARCELO LEITE
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Minha tática de jogador estreante é pegar o máximo de munição pelos corredores da fortaleza, sem saber ao certo para que servirá. Não dá para correr e, ao mesmo tempo, decifrar as informações numéricas na base da tela do computador. Falta coordenação. Sigo em frente, incapaz de definir o que me provoca mais incômodo e tédio - se a opacidade das regras do jogo, se a repetição interminável dos passos iniciais no labirinto de portas, pátios, escadas e rampas, ou se os 29 eletrodos espalhados pelo meu couro cabeludo, rosto e peito.

Sentada à esquerda, a estagiária Luciana Rocha não me dá descanso. A cada morte no jogo, sua mão delicada e ligeiramente fria, que ainda há pouco pincelava cola sobre os contatos fixados com esparadrapo na minha cabeça, aperta pela enésima vez a tecla que reinicia o jogo Doom.

No centro da tela há um patíbulo, cercado por muros de pedra escura. À esquerda, de costas, está a Coisa. A luta começa com o impulso da manopla para a frente e um toque quase automático sobre o botão azul, reservado para a troca de armas. Depois de quase uma hora de tentativas, está claro que o revólver na mão direita é inútil, não conseguirá romper a couraça, e a Coisa vai se virar e escapar pela direita.

Num ataque frontal, finalmente a Coisa sucumbe. É hora de caminhar para a porta secreta de pedra cinza. Um novo toque sobre o botão azul providencia outra troca de arma, pois a experiência mostrou que o adversário, um guarda munido de fuzil, sucumbe apenas a tiros de escopeta. Caso consiga alvejá-lo, haverá outro, e mais outro, e clones da Coisa com bolas de fogo, mais portas de aço e portas de pedra, piscinas azuis e munições...

O feixe de fios puxados para trás, como num rabo-de-cavalo, parece ser a origem da dor de cabeça que começa a se impor. São quase onze e meia da noite de uma segunda-feira de maio, e não vejo a hora de despregar a mão suada do joystick. Quero sair do quarto-laboratório localizado no 1º andar do Instituto Internacional de Neurociências de Natal Edmond e Lily Safra, no bairro da Candelária, no qual entrei às oito e meia daquela manhã, e onde já havia dormido, conectado, no dia anterior.

Sou a 22ª cobaia da experiência criada por André Pantoja, um fisioterapeuta que deixou o Rio de Janeiro para fazer mestrado no Instituto de Neurociências de Natal. Pantoja quer comprovar que os sonhos têm valor adaptativo - ou seja, ao usar situações passadas como preparação para o futuro, os sonhos facilitam a sobrevivência e a reprodução do sonhador. É com esse objetivo que ele alista voluntários para agüentar duas noites maldormidas, num dormitório desconfortável, com os contatos de um eletroencefalograma pregados na pele. Para piorar, a cobaia passa por duas sessões de uma hora de Doom, uma antes de dormir, outra logo depois de acordar.

O biólogo Sidarta Ribeiro, diretor científico do Instituto de Neurociências de Natal, contou que, em seu sonho, podia ver o edifício branco do centro de pesquisa cercado pelas águas de uma enchente. Não queria arriscar-se a enfrentar a água de carro. Apesar da proximidade dos esgotos de uma favela, seguiu o impulso: andou pela água até o Instituto, para junto dos funcionários que aguardavam a chegada dos equipamentos que fariam os laboratórios funcionarem. Mas a água não parava de subir. Diante da inundação, Sidarta Ribeiro mandou soltar as amarras, e o prédio saiu navegando.

O pesadelo com o final feliz alegórico ficou marcado na memória de Ribeiro. Um ano antes, o subsolo do Instituto tinha sido de fato inundado pela chuva. Além disso, o sonho representava um exemplo óbvio da teoria de Sigmund Freud de que nossas fabulações noturnas são compostas por motivos do dia anterior, os "vestígios diurnos". Na noite em que teve o pesadelo, sua ansiedade era grande. Fazia pouco mais de um ano que deixara Durham, no estado americano da Carolina do Norte. Para trás ficara uma carreira segura, depois do pós-doutorado na Universidade Duke, onde havia despontado como capitão do rat lab de Miguel Nicolelis, o laboratório de roedores.

Brasileiro como Ribeiro, Nicolelis é mais conhecido pelos trabalhos do monkey lab, onde sinais colhidos por microeletrodos no interior do cérebro de primatas movem braços robóticos e até robôs inteiros. No rat lab, permaneceram encaixotados - por onze meses - os equipamentos que aguardavam a compilação de todas as informações exigidas pela alfândega brasileira, do número de cada pinça ao peso de cada caixote.

Na véspera do sonho marítimo, os equipamentos finalmente faziam a viagem, de caminhão, da Carolina do Norte à Flórida, onde embarcariam de avião para o Brasil. Como um furacão subia a costa da Flórida, toda a equipe do Instituto de Neurociências de Natal entrou em pânico com a possibilidade de o caminhão não chegar a tempo ao aeroporto de Miami.

Ribeiro, Nicolelis e um terceiro neurocientista, Claudio Mello, começaram a planejar o desembarque em Natal logo depois da posse de Lula como presidente. Sonhavam erguer em região pobre e periférica um pólo de pesquisa com qualidade internacional. Pesaram na escolha da capital potiguar a proximidade com a Europa e os Estados Unidos, a abundância de praias, a baixa pluviosidade e a tradição de pesquisa com primatas na Universidade Federal do Rio Grande do Norte, a UFRN.

No momento, o Instituto conclui um concurso internacional para preencher doze vagas de professor, criadas em associação com a universidade, que oferece um inédito "enxoval" de 500 mil reais para cada contratado montar seu laboratório. Miguel Nicolelis, no entanto, não deixará seu posto de professor titular da Universidade Duke. Claudio Mello, que continua na Universidade de Saúde e Ciências do Oregon, concorre a uma das doze cadeiras. Dos três idealizadores, apenas o caçula Sidarta Ribeiro já se repatriou de fato. "Nos Estados Unidos eu era um caçador-coletor: ia

 

 
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