Revista Piaui
"Em pouco mais de um ano, o blog Generación Y virou um fenômeno, com 170 mil comentários de leitores espalhados pelo mundo."
carta de Havana
A voz da Geração Y
O passado e o cotidiano de Yoani Sánchez, blogueira cubana que é considerada pela Time uma das 100 pessoas mais influentes do mundo
SANDRO VAIA
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Yoani Sánchez planta manjericão, coentro e alecrim em pequenos vasos, no terracinho de seu apartamento no 14º andar de um prédio modesto na rua Factor, em Havana, onde vive com o marido Reinaldo e o filho Teo. É seu único capricho de dona-de-casa. Para chegar ao apartamento de 60 metros quadrados, que fica no último andar do prédio, aperta-se o botão número 12 de um velho, cansado e apertado elevador soviético. Marca-se o 12, o elevador inexplicavelmente pára no 13, sobe-se um lance de escada, e chega-se ao apartamento de Yoani.

Ali, frágil e miúda, a filóloga cubana de 32 anos, com o cabelo preso displicentemente em rabo-de-cavalo, mostra com uma ponta de auto-ironia o "cantinho do ego", onde estão documentados, discretamente, os motivos de sua inesperada fama mundial: o xerox da página da revista Time que a mostra como uma das 100 personalidades mais influentes do mundo, e a reprodução do prêmio Ortega y Gasset de jornalismo digital que lhe foi concedido pela Prisa, casa editorial espanhola que é dona, entre outros empreendimentos, do jornal El País.

Em pouco mais de um ano, seu blog, Generación Y, virou um fenômeno. Com 170 posts, ele granjeou 170 mil comentários de leitores espalhados pelo mundo. Há casos de um único post ter recebido mais de 6 mil comentários. Foi barulho o bastante para irritar o semi-aposentado Fidel Castro, que chamou o Ortega y Gasset de "um dos tantos prêmios que o imperialismo concede para os que levam água para seu moinho" e acusou a editora espanhola de "neocolonial".

No prédio da rua Factor, que precisaria de uma demão de tinta e vidraças novas no saguão de entrada, do tempo de Brejnev sobraram dois elevadores, mas um precisou ser canibalizado para que o outro continuasse funcionando.

(Notícia nova no Generación Y: chegaram dois elevadores novos. Eles terminariam os vinte anos de remendos e a prática forçada do esporte de subir e descer 232 degraus todo dia, às vezes com uma bicicleta nas costas. Os novos elevadores não levam a carga depreciativa da pesada e obsoleta tecnologia soviética. São simplesmente russos.)

O seu marido Reinaldo, de 61 anos, que é jornalista, mas foi expurgado da profissão em 1988 quando trabalhava no Juventud Rebelde (seus artigos "não se ajustavam à linha editorial do jornal"), virou mecânico de elevadores, e assim ganhou a vida durante muitos anos.

Reinaldo também dá aulas de espanhol e ganha algum dinheiro como guia cultural em Havana. Sua especialidade é o Museu da Revolução, do qual conhece todas as minúcias e onde consegue mostrar, com opulência de datas e detalhes, todas as retificações, modificações e expurgos que foram feitos ao longo do tempo. Ele é capaz de mostrar de onde, exatamente, foram retiradas as fotos que mostravam visitas de Fidel Castro à União Soviética. Depois de Gorbachev, a União Soviética perdeu seu nome, abandonou o comunismo e perdeu o seu destaque no Museu da Revolução. Outra foto desaparecida do museu é uma na qual Fidel Castro aparecia mostrando o passaporte falso com o qual Che Guevara pôde entrar na Bolívia para a aventura guerrilheira que acabou em sua morte. Não ficava bem a pose de um chefe de Estado exibindo e vangloriando-se de um passaporte falso.

Reinaldo festejou a vitória dos revolucionários contra os invasores da praia Girón, na baía dos Porcos, quando cubanos exilados tentaram retomar o poder, com o apoio do governo americano, em 1961, e foram derrotados em dois dias. Nessa época, Reinaldo estava nas montanhas, ajudando a alfabetizar camponeses. "Tenho lembranças muito intensas dessa epopéia da praia Girón, apesar de estar longe do cenário, porque a mobilização era nacional, com todas as pessoas vestidas de milicianos na rua", disse-me ele. "Havia um fervor patriótico: estávamos sendo agredidos pelo inimigo. Minha família era absolutamente revolucionária." Em 1962, Reinaldo só ficou sabendo da crise dos mísseis depois que ela terminou. Estava nas montanhas de Sierra Maestra, como voluntário na colheita de café.

Em Cuba, circulam hoje, paralelamente, duas moedas: o peso cubano, com o qual são pagos os salários, e que serve para as despesas básicas do dia-a-dia, e o Cuc (abreviação de Cuban coin, moeda cubana), que vale mais que o dólar - um Cuc compra 80 centavos de dólar. Com o peso conversível, é possível comprar roupa, celulares, eletrodomésticos, comida não racionada, material de construção, móveis, e até se hospedar em hotéis ou apenas navegar pela internet nas lan houses. Só têm acesso aos pesos conversíveis quem recebe remessas de parentes que moram no exterior (segundo avaliações de diplomatas estrangeiros, entra em Cuba cerca de 1 milhão de dólares por dia dessa forma), médicos que participam das missões humanitárias fora do país, funcionários de empresas do governo que desviam produtos para vender no mercado negro, ou empregados na indústria do turismo, que recebem gorjeta e também vendem em Cuc mercadorias desviadas.

Para Yoani e Reinaldo, ter a própria casa é uma carta de alforria. Não ter que depender do Estado para morar, não ter que dividir a casa com outras pessoas é uma bênção. Em Havana, como o déficit habitacional é de cerca de 1 milhão de residências, a convivência obrigatória entre gerações diferentes é um dos maiores motivos de desavenças domésticas. Morar obrigatoriamente com os pais, ou com os sogros, ou dividir espaço com pessoas de outras famílias é um foco perene de conflitos.

Yoani é neta de imigrantes espanhóis que chegaram a Cuba na década de 20. Sua avó materna veio das Astúrias e o avô materno, das Ilhas Canárias. Eles não mantêm nenhum contato com o que restou da família na Espanha. Chegaram com o sonho e a ilusão da maioria dos imigrantes: melhorar de vida, juntar um pouco de dinheiro e retornar para a terra de origem. Mas quem volta? Em Cuba, dizem que quem conhece a ilha fica "encantado" e não sai mais.

A blogueira diz que herdou dos

 

 
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