Revista Piaui
"Não entendo muito de política, mas votei no Lula nas duas vezes que ele foi presidente, e se pudesse votar nele novamente, votaria"
diário
Só tenho o que preciso. E está bom assim
MARTHA DE SOUSA P. DA SILVA
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MARTHA DE SOUSA PEREIRA DA SILVA, de 53 anos, sempre trabalhou como empregada doméstica até que seu marido, Izaías, cismou de voltar para o campo. Ele ligou-se ao Movimento dos Sem-Terra e foi ocupar uma fazenda em Sidrolândia, em Mato Grosso do Sul. Martha ficou na dúvida: ficar na sua casa em Campo Grande ou juntar-se ao marido para viver num fim de mundo sem água nem luz?

SETEMBRO DE 2005_Meu marido Izaías trabalhava há treze anos como motorista de caminhão da Brahma. Ele fazia entrega de bebida pelo interior do estado. Há pouco tempo, um colega disse ao Izaías que tinha um assentamento do MST aqui perto, em Sidrolândia, e ele encasquetou de ir para lá. O sonho dele sempre foi ter um pedaço de terra e trabalhar nela. Ele nasceu e foi criado no campo. Trabalhou a vida toda na cidade, mas sempre quis voltar. Agora ele só pensa nisso.

Eu e o Izaías estamos casados há 27 anos. Moramos numa casa no Tijuca I, um bairro de Campo Grande. Eu trabalhava em uma casa de família, e eles me ajudaram a comprar a minha casa com o dinheiro do meu trabalho e um financiamento da Cohab. Dez anos depois, vendi, comprei um terreno e construímos nossa segunda casa, bem maior. Tenho três filhos: Rodrigo, Jhoze e Juninho. Todos são adultos e eu já tenho três netos.

OUTUBRO DE 2005_O Izaías arrumou as coisas dele e foi para o tal assentamento. Largou uma casa boa na cidade para ficar acampado no meio do nada. Não fui com ele, não quero saber de mato. Meus filhos também não concordam. Eles têm um bom emprego na cidade, os três são funcionários do supermercado Comper. O Rodrigo, de 31 anos, é gerenciador de mercadorias. A Jhoze, do meio, tem 26 e é auxiliar administrativa. O Júnior, de 25, faz reposição de estoque.

Eu também nasci em sítio. Morei no campo até meus 9 anos e aí fui trabalhar em Nioaque como babá. Depois, arrumei emprego de garçonete num hotel e mais tarde vim para Campo Grande, trabalhar em casa de família. Fiquei 25 anos na mesma casa.

Agora não tenho mais emprego fixo. De vez em quando, as filhas da minha ex-patroa, que já são casadas, me chamam pra tomar conta das crianças ou me contratam por diária. Também vendo Avon, que dá para tirar uns 50 reais por mês. Faço pãozinho e bolo para vender, mas não é todo dia.

JULHO DE 2006_O Izaías já está acampado há nove meses e nada de ganhar a terra dele. Ele disse que não vai desistir, porque falta pouco para o Incra cortar as terras e distribuir para as famílias que estão esperando nas barracas. Tem gente que está lá há muito mais tempo do que o meu marido, sem saber quando e se vai ganhar um lote de terra. Eles estão acampados na sede da Fazenda Eldorado, que fica a uns 90 quilômetros de Campo Grande, no município de Sidrolândia.

Por aqui, eu vou me virando. Cuido da casa, pago as contas, lavo, passo e cozinho pra mim mesma. A Jhoze e o Juninho moram comigo, mas passam o dia todo fora. O Rodrigo, mais velho, mora com a mulher dele. De vez em quando, minha mãe, que mora em Guia Lopes da Laguna, vem me visitar.

O Izaías vendeu o caminhão e comprou uma caminhonete F-1000. Ele estica uma lona na carroceria e mora lá dentro, como se fosse uma barraca. Deus que me livre de viver assim. Às vezes, ele me convida, mas eu já disse que só vou o dia que tiver lá um quarto para dormir e um banheiro com piso.

Meu marido não participou de nenhuma invasão, nenhum desses conflitos que a gente vê na televisão. Quando ele chegou, a fazenda já estava cheia de gente acampada, mas tudo em paz. Ele diz que essa Fazenda Eldorado é bem grande e tem muita terra boa para plantar.

OUTUBRO DE 2006_A dona Rosária, minha ex-patroa, me chamou para ajudar numa encomenda de salgadinhos da irmã dela, dona Gilda, que faz comida para fora e vai precisar de ajuda. Dessa vez ela recebeu um pedido muito grande.

Eu pensei melhor: não quero passar o resto da vida longe do meu marido. Ele não vai voltar para a cidade, e meus filhos já estão criados.

O Izaías já construiu um banheiro com piso. Agora eu vou, mas só de visita nos fins de semana.

DEZEMBRO DE 2006_Vim passar uns tempos com o meu marido.

Finalmente o Izaías ganhou um pedaço de terra. Ele se sustenta fazendo frete com a caminhonete. Como o pessoal no assentamento não tem dinheiro para pagar, alguns pagam com óleo diesel. Todo mundo se ajuda como dá.

Eles chamam de sítio o conjunto de todas as casas. O assentamento todo é um sítio só, como se fosse um bairro, onde moram as 160 famílias que ganharam os lotes de terra. E todo mundo que estava acampado ganhou um terreno, não ficou ninguém de fora. O assentamento se chama Alambari.

Enquanto não chega o material de construção para fazer uma casa de alvenaria, como o Incra prometeu, o Izaías está construindo uma casa de madeira. O pessoal do Incra sempre diz que "daqui a três meses" vai mandar o material e as sementes, mas esse dia nunca chega. Enquanto isso, cada um se vira como dá.

JANEIRO DE 2007_Minha casa na cidade tem tudo do bom e do melhor, mas eu não trouxe nada de lá, só a minha cama de casal e o colchão. Deixei a casa com a Jhoze e o Juninho. Espero que eles cuidem bem.

Aqui não tem água nem luz. Para trazer água, o Izaías tem que buscar de uma lagoa que fica a uns 5 quilômetros. A gente leva o gado para

 

 
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