
WALTER BENN
Se você quer promover um funcionário, e tem que optar entre um branco heterossexual e uma negra lésbica, e esta última for uma funcionária melhor, o racismo, o machismo e a homofobia recomendam a escolha do branco heterossexual. Mas o capitalismo prefere a negra lésbica.
A importância da raça e do sexo na campanha presidencial dos Estados Unidos é, evidentemente, um produto da importância do racismo e do machismo – ou seja, da discriminação – na sociedade americana. Desse ponto de vista, a disputa entre Barack Obama e Hillary Clinton foi um triunfo, exibindo tanto os grandes avanços rumo à superação do racismo e do machismo como a enorme distância que existe a percorrer. A campanha tornou possível, em outras palavras, conceber os Estados Unidos como uma sociedade que está voltada para a direção certa, ainda que tenha um longo caminho pela frente. O poder de atração dessa visão – não apenas para os americanos – é óbvio. O problema é que ela é falsa.
Os Estados Unidos são atualmente uma sociedade menos discriminatória do que antes do movimento pelos direitos civis e do surgimento do feminismo, mas não é uma sociedade mais justa, aberta e igualitária. Ao contrário: o país se tornou mais injusto, menos aberto e bem menos igualitário.
Em 1947, sete anos antes de a Suprema Corte impedir a segregação nas escolas, e dezesseis anos antes da publicação de A mística feminina, de Betty Friedan, um quinto da força de trabalho americana auferia 43% da renda nacional. Atualmente, esse mesmo quinto fica com 50%. Em 1947, o quinto inferior obtinha 5% da renda total, e hoje fica com 3%.
Ou seja, depois de meio século de anti-racismo e de feminismo, os Estados Unidos são menos igualitários do que a sociedade racista e machista da segregação. Além disso, praticamente todo o aumento da desigualdade ocorreu depois da aprovação das leis proibindo a discriminação de raça, cor, sexo e religião – o que significa não apenas que o sucesso da luta antidiscriminação não conseguiu diminuir a desigualdade, mas que foi compatível com a sua expansão radical. De fato, ela ajudou a aumentar o abismo entre ricos e pobres.
Por quê? Porque é a exploração, e não a discriminação, o principal produtor de desigualdade. É o neoliberalismo, e não o racismo ou o machismo (ou a homofobia ou discriminação contra os velhos), que cria as desigualdades mais relevantes na sociedade americana. O racismo e o machismo são apenas dispositivos de triagem. Na verdade, não são nem dispositivos de triagem muito eficientes, economicamente falando. Se, por exemplo, você está querendo promover alguém a chefe de vendas na sua empresa, e tem que optar entre um branco heterossexual e uma negra lésbica, e esta última for uma vendedora melhor do que o primeiro, o racismo, o machismo e a homofobia podem recomendar a escolha do branco heterossexual, mas o capitalismo prefere a negra lésbica. Isso significa que, ainda que alguns capitalistas possam ser racistas, machistas e homofóbicos, o capitalismo, em si, não o é.
É por isso que as vitórias (embora parciais) sobre o racismo e machismo representadas pelas campanhas de Obama e Hillary Clinton não são vitórias sobre o neoliberalismo, e sim do neoliberalismo: vitórias de um compromisso com a justiça que não faz nenhuma crítica à desigualdade, desde que seus beneficiários sejam racial e sexualmente diversificados. Esse é o significado das estatísticas mostrando o quanto as mulheres ganham menos que os homens, ou os negros menos que os brancos. Não é que as estatísticas sejam falsas, mas tornar esses indicadores os alvos privilegiados implica pensar que, se mais mulheres ganhassem tanto quanto os homens ricos, ou se os negros fossem tão bem remunerados como os brancos, os Estados Unidos estariam mais perto de ser uma sociedade justa.
É o abismo crescente entre ricos e pobres que constitui a desigualdade, e reagrupar a raça e o sexo dos bem-sucedidos deixa o abismo intacto. No neo-li-be-ralismo vigente, negros e mulheres continuam desproporcionalmente representados tanto no quinto inferior (onde são numerosos) como no superior (onde são poucos) da renda americana. Na utopia neoliberal que a campanha de Obama corporifica, os negros deveriam ser 13% dos (numerosos) pobres, e 13% dos (bem menos numerosos) ricos; as mulheres, 50% de ambos. Para os neoliberais, o que torna isso uma utopia é que a discriminação não desempenharia nenhum papel na administração da desigualdade. O que faz com que a utopia seja neoliberal é que a desigualdade permaneceria intacta.
Pior: a desigualdade não apenas permaneceria intacta, mas – não sendo mais produzida pela discriminação – se legitimizaria. Aparentemente, os liberais americanos se sentem bem melhor com um mundo em que os 20% que ganham melhor estão ficando mais ricos à custa de todos os outros, contanto que esses 20% superiores tenham um número proporcional de mulheres e negros. Nesse aspecto, é impressionante a capacidade da campanha de Obama de fazer com que nos sintamos bem em relação a nós mesmos, ao mesmo tempo em que deixa a nossa riqueza intacta. São emblemáticas as suas propostas fiscais que visam cobrar mais dos “ricos”, e não da “classe média”.
Quem são os ricos? “Costumo definir os ricos”, informa o site de Obama, “como as pessoas que ganham mais de 250 mil dólares por ano.” O que significa que -pessoas ganhando, digamos, 225 mil são da classe média, e merecem ser taxadas da mesma forma que aquelas que ganham 49 mil dólares. O título na página onde isso aparece é “Estou pedindo que vocês acreditem”. Mas talvez seja pedir demais aos 40% dos americanos que vivem com menos de 42 mil dólares que acreditem que pertencem à mesma classe média dos cerca de 15% que ganham entre 100 mil e 250 mil dólares ao ano.
No entanto, nos últimos vinte anos, é nisso que o Partido Democrata vem pedindo que acreditem. A desigualdade econômica não cresceu tão rápido no governo
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