
NORMAN MAILER
Encrenqueiro por temperamento, Norman Mailer passou toda a segunda metade do século XX brigando por seu lugar de artista e intelectual de esquerda numa sociedade que prosperava com a expansão do império americano, e num mundo onde a União Soviética virara um museu de teorias revolucionárias. O autor de Os Nus e os Mortos morreu há um ano, deixando quarenta livros prontos, seis casamentos, dois romances engatilhados e uma enxurrada de papéis inéditos, disputados por duas universidades. A correspondência erótica foi parar em Harvard, vendida por uma ex-amante. Mas as cartas de Mailer sobre política ganharam a corrida da publicação póstuma.
PARA BEATRICE MAILER
8 de agosto de 1945
Sweet Baby,
A notícia da bomba atômica deu mais o que falar por aqui do que a notícia da vitória na Europa, e tanto quanto a morte do presidente Roosevelt. Estou confuso. (Escrevo com base num comunicado sumário. Não sei o que ela causou.) Agora vejo a que ponto os laços do interesse pessoal afetam o raciocínio. Uma boa parte de mim aprova o que quer que abrevie a guerra e me mande de volta para casa, e isso contraria muitas vezes princípios mais antigos e básicos. Por exemplo, espero que seja aprovado o serviço militar em tempo de paz porque, se não for, pode haver uma demoradíssima desmobilização. Nesse mesmo sentido, sou a favor de um instrumento que possa matar muita gente num instante.
Mas a verdade é que se trata de uma perspectiva aterradora. Sempre falamos sobre a humanidade destruir a si mesma, mas agora isso parece coisa tão próxima, apenas uma questão de décadas, de um número de bombas facilmente calculável. Esse negócio de quebrar o átomo vai anunciar a vitória final da máquina. Nunca passou de um cálculo interessante na física que estudei, um sonho distante e já então terrível, o fato de que a energia atômica contida na massa de um grão bastaria para fazer uma locomotiva dar a volta na terra um número fantástico de vezes.
Acho que nossa era marcará o fim de conceitos como a vontade do homem e a orientação do poder pela massa. O mundo será controlado por uns poucos, políticos e técnicos – os homens de Spengler, do fim da civilização européia-ocidental-americana. Por mais que ele me estimule, não sou spengleriano. Na alternativa entre fazer o necessário ou nada fazer, prefiro o nada, se o necessário não me agrada.
Querida, o quadro é horrível. Haverá outra guerra, se não em vinte anos, em cinqüenta, e se metade da humanidade sobreviver, o que virá depois? – acredito que, para sobreviver, as cidades de amanhã serão construídas mil metros abaixo do chão. O homem terá então fugido à sua herança animal – os insetos deixarão de incomodá-lo e ele terá descido mais uns 2 quilômetros para perto do inferno.
Estou patológico com relação a máquinas… E tenho o maior desprezo por marinheiros e aviadores. Que sabem eles da guerra? O pessoal da Marinha com quem falei na vinda para cá me pareceu bem simplório. Detestaram aqueles tipos desagradáveis, mal-humorados e insatisfeitos que transportavam. Quando lhes falavam de lama, náusea, horrores, cacarejavam qualquer coisa simpática, sem nada entender. Que sabiam eles de trabalho, sofrimento, morte? Levam uma vida rotineira, sem novidades, feita da escravidão e dos benefícios de servirem a uma máquina. Quando a morte sobrevém, chega no estouro de uma tempestade – atos de Deus. Como não têm intimidade com ela, seu significado final lhes provoca pesadelos, e é tão irreal como um desastre em tempo de paz. Não conseguem entender por que a máquina é uma amiga enganadora, muito boa por tanto tempo que esquecem que ela tem fusíveis. Não têm experiência da morte como elemento do dia-a-dia, como uma constante emocional, como abrir uma lata de ração com guisado frio e gosmento qua
do sua barriga está quente e doendo de tanto subir morro com sol forte e umidade. Não conhecem o tipo de fadiga que o faz pisar num cadáver de três semanas porque já não tem força para pular por cima. E os pilotos são como os marinheiros. Lutam de uma forma abstrata em um fluido abstrato. A vida deles também é confortável, solitária, de tesão e, igualmente, a morte é um trovão incompreensível e arrasador. São vidas sem outro odor que o de combustível, metal e lubrificantes. Não sabem que latrinas, corpos e brejos são difíceis de distinguir.
A personalização que eles dão a suas máquinas me enoja. Substitui a solidão e o desejo, mas é também assustadora. Chegamos ao tempo em que se amam as máquinas e se detestam as mulheres. O passo seguinte é o temor religioso, e a bomba atômica parece ser a última divindade, a forma final de enteléquia.
Tão pouco amor nessa carta, mas estou melancólico esta noite. Quanto mais penso nessas coisas, mais aterradoras elas ficam. Que outra combinação pode bater a fusão de mecânica com sentimentalismo?
Preciso de você em meus braços esta noite.
Te amo,
Norman
PARA FANNY E I. B. MAILER, ANNE E DAVID KESSLER
4 de setembro de 1945
Queridos pais, tia Nan & tio Dave,
Vi um evento histórico, segundo me disse o alto-falante de bordo. Passamos a uma milha do USS Missouri na hora em que a rendição era assinada, e foi uma emoção ouvir o anúncio pelo rádio enquanto enxergava o encouraçado por uma escotilha. O locutor disse: “Simbolicamente, saiu o sol e brilha sobre a baía de Tóquio no momento em que a rendição é assinada e há paz entre nós.” Talvez eu não pudesse ver tão bem quanto ele, mas o céu me pareceu nublado como antes…
Todo meu amor, dears,
Norman
PS. Estou pesando 65 quilos, que é o máximo que jamais pesei. Portanto, não se preocupem com minha saúde.
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