Revista Piaui
"Nos primeiros dias da semana, enquanto o mercado desabava, não se mexeu: sua experiência dizia que não se deve tentar 'trocar o pé' no terremoto"
figuras das finanças
Bilhões e lágrimas
Luis Stuhlberger, o zero à esquerda que achava que nunca seria alguém, construiu o maior fundo multimercado fora dos Estados Unidos e, no meio da crise, deu mais uma tacada
CONSUELO DIEGUEZ
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"Sempre achei que não seria nada na vida. A única coisa que eu tinha para oferecer, até 1979, era o meu histórico escolar. Em todo o resto, era um zero à esquerda", disse Luis Stuhlberger, que sorriu timidamente e brincou: "Acho que eu precisaria de muitas doses de uísque para contar essa história." Voltou-se para a xícara de café e os biscoitos de chocolate à sua frente - os únicos estimulantes à mão - e continuou a auto-análise. "Naquele ano, se tivesse de escrever uma página sobre Luis Stuhlberger, diria que ele fora um dos melhores alunos do Colégio Bandeirantes, um dos melhores estudantes de engenharia da Escola Politécnica da USP, uma pessoa de boa índole, de bom caráter, um bom ser humano. Fora isso, era uma pessoa inexpressiva em todos os campos: no social, no pessoal, na liderança, nos relacionamentos."

Fez uma pequena pausa e se esmerou ainda mais na composição do retrato do jovem perdedor: "No meio que eu freqüentava, se fosse apontar quem se destacaria, eu era a última pessoa para quem você olharia. Eu não era escolhido para nada. Era do grupo dos feios. A única coisa a meu favor era a inteligência em potencial, senão não seria um dos melhores alunos da classe. Daí, para pôr qualquer coisa em prática, foi um grande desafio. E fui muito infeliz com isso. Achava que seria um eterno fracassado, como muita gente que conheço. Gente inteligente, preparada, que fez boa escola, mas que não conseguiu construir nada."

A copeira trouxe mais café e biscoitos. Enquanto mastigava, Luis Stuhlberger fez, finalmente, uma consideração positiva. Disse que o sofrimento talvez seja o responsável pela disciplina e perseverança que veio a demonstrar nos negócios. "Eu acordo todo dia e agradeço muito a Deus pelo que sou, por conseguir fazer bem o que faço e estar feliz: sou uma mistura bem-sucedida do Forrest Gump com Chance Gardener", disse, referindo-se a papéis feitos no cinema por Tom Hanks e Peter Sellers (em Muito Além do Jardim). Pelos modos inseguros e desajeitados, ele lembra os dois personagens. Quando se entrega a confissões autodepreciativas, parece um dos tipos angustiados de Woody Allen.

Eram nove horas da noite e Stuhlberger estava sentado à cabeceira da mesa da sala de jantar de seu apartamento de 450 metros quadrados, na Vila Nova Conceição - um dos bairros mais caros de São Paulo -, onde um imóvel como o seu não sai por menos que 4,5 milhões de reais. A sala de jantar, com mesa de mármore de doze lugares e uma tapeçaria antiga que ocupa toda uma parede, funciona como escritório. É nela que passa boa parte do tempo, inclusive finais de semana, lendo, estudando, analisando e decidindo investimentos. Stuhlberger é um dos sócios da Credit Suisse Hedging-Griffo, administradora de recursos com 40 bilhões de reais em carteira. Mas o que o tornou um mito no mercado financeiro é o fundo que ele administra sozinho: o Hedging-Griffo Verde, com 10 mil clientes e patrimônio de 11 bilhões de reais.

O Verde é um fundo multimercado, conhecido no jargão como hedge fund (composto por ações, moedas, títulos públicos e privados, e derivativos - operações que têm como base cotações de ativos negociados na Bolsa de Mercadorias e Futuros, a BM&F). É o maior fundo do tipo no mundo, excetuando-se os americanos. Seu desempenho não é acompanhado nem de longe pelos concorrentes. De 1997 até julho passado, os recursos investidos no Verde tiveram uma valorização de 3 684,2%. Alguém que, há onze anos, tivesse entregado 30 mil reais ao Verde teria hoje mais de 1 milhão. Stuhlberger é um fazedor de milionários. A começar por ele mesmo, cujo patrimônio é estimado em várias centenas de milhões de reais.

"Não há nada que se compare ao Verde no mercado", disse Paulo Bilyk, um dos sócios da Rio Bravo, uma prestadora de serviços financeiros. "O que mais se aproxima dele são os fundos do Pactual do começo dos anos 90, que tiveram desempenho espetacular." André Jakurski, dono da JGP, uma administradora de recursos carioca, e o responsável pelo sucesso dos fundos do Banco Pactual aos quais Bilyk se refere, me definiu Stuhlberger como "o gestor mais brilhante da nova geração". E acrescentou: "Ele é excepcional."

No domingo, 14 de setembro, quando saíram as primeiras notícias de que o Lehman Brothers, o quarto maior banco americano, pediria concordata e que o Merrill Lynch seria vendido na bacia das almas, Stuhlberger estava em Pequim, num quarto de hotel. Ligado no laptop, dava instruções ao seu pessoal no Brasil. O que lhe passava pela mente, conforme contou depois, era um misto de "temor" e "atenção às oportunidades". Precisava decidir se era hora de aproveitar a queda dos preços das ações para comprar barato. Nos primeiros dias da semana, enquanto o mercado desabava, preferiu não se mexer: sua experiência dizia que não se deve tentar "trocar o pé" no meio do terremoto.

O Verde estava com 67% do seu patrimônio em papéis de renda fixa. Desde que o sistema financeiro americano dera sinais de marchar para o desastre, em agosto do ano passado, Stuhlberger começara a se desfazer de ações. E lamentava que, quando a crise chegou, elas fossem responsáveis por 33% da carteira do fundo. "O ideal seria ter menos de 30%", disse. Estava angustiado, e não em pânico: tinha lastro para esperar. Não precisava vender ações na baixa para fazer caixa e atender a possíveis saques. O fundo podia sofrer perdas, avaliava, mas nada que colocasse seu patrimônio em perigo.

Na quinta-feira, "o dia do pânico total", como Stuhlberger o batizou, ele estava em Xangai. Quando a Bolsa brasileira foi ao fundo do poço, Stuhlberger vislumbrou uma oportunidade. "No meio do furacão, dei uma ordem de grande compra de papéis de primeira linha, principalmente Petrobras e Vale", contou. No dia seguinte, quando o governo americano anunciou medidas de salvação das finanças, comprou mais. "Com a cavalaria americana em

 

 
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