Revista Piaui
"A única pergunta que me faço é como ela pôde acreditar em tudo isso"
anais do crime
O amante do Mossad
Começou na internet a secreta ciranda brasiliense entre Cida e o agente Youssef, Sônia e o misterioso Kleber, Franciana e o major Kalev
DANIELA PINHEIRO
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Maria Aparecida Lima da Silva, chamada por todos de Cida, estava tão concentrada na tela do computador, numa tarde de agosto de 2005, que nem se dava conta do burburinho na sala que dividia com outros dezenove funcionários do Superior Tribunal de Justiça, em Brasília. Vestindo um tailleur elegante e sapatos de salto alto, ela teclava com rapidez e um sorriso estampado na face. Por volta das quatro da tarde, as colegas da seção de multimídia a chamaram para o lanche. No caminho para a copa, ela puxou para um canto a amiga Diani Lima, com quem trabalhava havia dezessete anos, e fez uma confidência: "Conheci um judeu na internet. Ele é tão inteligente, tão educado, que nem quero falar muito para não dar azar."

Meses antes, Cida se inscrevera numa agência de namoros e também começara a freqüentar salas de bate-papo da internet. Chegou a se encontrar com dois rapazes com quem trocara mensagens, mas não houve empatia. Ao contrário de boa parte dos usuários desse serviço on-line, ela se apresentava como era de fato: morena, 35 anos, 1,61 metro de altura, 60 quilos, funcionária pública, independente, em busca de relacionamento sério.

Cida morava com os pais, mas mantinha uma quitinete num prédio com academia e piscina, que usava esporadicamente. Saía nos fins de semana com as amigas, nunca perdia um aniversário e, segundo elas, levava sempre o presente mais caro. Pagava as prestações do apartamento, dirigia um carro novo e conseguia economizar parte do salário de 13 mil reais. Os amigos e a família a descrevem como sensata, organizada, metódica e séria.

Mas Cida tinha um problema. Desde que a irmã mais nova anunciara o noivado, ela havia se atribuído a missão de encontrar, ela também, um marido. Seu último romance terminara cinco anos antes - e terminara mal. O rapaz, colega de repartição, nunca assumira o namoro em público, e justificou a ruptura dizendo a Cida que ela era "velha demais". A moça emagreceu 10 quilos, consultou-se com um psiquiatra e passou a tomar remédios de tarja preta. Às amigas, dizia que o que lhe faltava na vida era "um grande amor".

Muito atenta à aparência, Cida compensava a ausência de beleza investindo no guarda-roupa e na malhação. Comprava sapatos e bolsas de grife, preferia tons escuros e gastava com jóias discretas. Três vezes por semana, os cabelos encaracolados e tingidos de castanho eram domados por escovas e alisamentos. Seus olhos escuros, emoldurados por sobrancelhas bem finas, definidas à pinça, eram sempre circundados a lápis. Fissurada em dietas, procurava manter o peso com aulas de Jump Fit, nas quais se repete uma coreografia dando pulos sobre uma cama elástica.

O judeu da internet de quem Cida falou à amiga se chamava Youssef. Havia algo de misterioso nele. Com 34 anos, media 1,82 metro, tinha porte atlético, boca carnuda e sobrancelhas grossas, permanentemente franzidas - o que configurava um semblante másculo, preocupado e, talvez, atormentado. Era polido e não falava de familiares, de amigos nem de colegas. Nas mensagens, queixava-se de tristeza e solidão.

Youssef contou um dia a Cida que era agente de carreira do Mossad (Instituto de Informação e Operações Especiais), o temido serviço secreto israelense. Sua função, disse, envolvia espionagem e ações antiterroristas. Estava lotado como funcionário burocrático na Embaixada de Israel e viajava com freqüência para Tel-Aviv, onde fica a sede da organização. Para uma mulher na faixa dos 35 anos e sem namorado, que ainda dormia no quarto de adolescência e era a única solteira entre as amigas, Youssef era o protótipo do príncipe encantado.

Cida deixou escapar detalhes sobre a correspondência virtual com Youssef, sem jamais mencionar o seu nome. Ele lhe escrevia sobre seus hobbies - mergulho e futebol -, filmes recentes, lugares visitados, a solidão imposta pela profissão, o judaísmo e o conflito palestino-israelense. Cida disse a colegas que pretendia se matricular num curso de hebraico: estava fascinada pela religião do "novo amigo".

Num dos bate-papos, Cida, que já sabia que Youssef dirigia um carro importado vermelho, quis saber mais. "Onde você mora?", perguntou. "Numa 200 da Asa Sul", respondeu o agente. Era uma informação tão etérea quanto saber que alguém vive em Uberaba: em Brasília, há dezesseis quadras 200, cada uma com pelo menos dez edifícios, e esses com, no mínimo, 48 apartamentos. "Ela percorreu quadra por quadra para descobrir onde ele morava", contou-me Inácia Lino, comadre e amiga de trabalho de Cida, na sua sala no Superior Tribunal de Justiça.

Como é de praxe em contatos pela internet, depois de várias conversas Cida e Youssef marcaram um encontro. Gostaram um do outro. A imprudência interferiu: logo na primeira noite juntos, ela engravidou. Cida não contou a ninguém. Só um ano depois falou sobre o assunto com a amiga Diani Lima. Aos três meses de gestação, a pedido de Youssef, fez um aborto. "Quando Cida contou, ele perguntou se ela queria criar o filho sem pai, já que o trabalho dele era perigosíssimo, que iria morrer, era perseguido", disse Diani. O casal comprou um remédio abortivo e foi para a quitinete dela. Cida passou mal e teve de ser internada em um hospital, durante uma noite, para fazer curetagem. À mãe, ela disse que dormira na casa de uma amiga.

Fora o segundo baque de Cida. Quando percorrera obstinadamente as quadras 200 da Asa Sul, ela conseguira achar o apartamento de Youssef. Ao assuntar com um vizinho, descobriu que ele era casado e tinha dois filhos. Confrontado, o espião contou sua história: chamava-se Kleber Ferraz, estava casado há treze anos com uma namorada da juventude, a professora Ana Paula Ottoni, e tinha filhos de 10 e 8 anos. Não tinham vida conjugal há bastante tempo, disse ele: aturava a mulher pelo bem-estar das crianças. Para se proteger, seria prudente Cida não saber de mais detalhes da vida dele. Com a pressão e os riscos da profissão de agente secreto,

 

 
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