Revista Piaui
"...como se perguntassem ao diretor do espetáculo: Podemos?"
ficção
A fruta por dentro
SÉRGIO RODRIGUES
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Seus sentidos começaram a variar, a oscilar como ramagens finas na brisa de uma aurora longamente antecipada. O mundo encolheu, concentrou-se numa área de poucos metros de raio
a partir da cama.


No alto da Tijuca, o ninho de noivos. Já ao entrar ela sentiu um formigamento nas faces, uma lassidão nas pernas, que atribuiu ao efeito de passar bruscamente da friagem da noite para aquele ambiente almofadado, com seu cheiro de alfazema e seu excesso de debruns, lençóis bordados, travesseiros, dossel, redes, palhinha no chão. E de cada lado da cama alta, ao pé dela, um pequeno tapete lanoso e quente, como o pêlo de um animalzinho vivo. Neste cenário, ela pensou, a flor finalmente se abre, e a imagem lhe pareceu tão convencional e canhestra que até achou graça. Como poderia ser desenvolta com as palavras nessa hora, ela que lera Manon Lescaut escondida dos pais e, naturalmente, do próprio noivo, sem no entanto compreender a metade? Fosse como fosse, intuía ter chegado o momento do drama em que as palavras recuavam para o fundo do palco, deixando o proscênio para... o quê? Sem tirar o vestido branco de renda de Malines, jogou-se de costas na cama com um suspiro que era meio riso, meio gemido de exaustão. Do lado de dentro de suas pálpebras girava um carrossel de gravuras da cerimônia na Glória, cavalos brancos com cocheiros de libré fazendo fila diante da igreja, dona Fortunata derretida em lágrimas no vestido verde-musgo afogado, o ministro de Estado curvando-se tão impossivelmente para cumprimentá-la que parecia querer beijar o chão, o que a fez se dobrar de rir com aquela felicidade descomposta que só às noivas se desculpa, e, no fim de tudo, a chuva de folhas de rosas com que as escravas a tocaiaram em casa, num efeito de arredondamento estético impecável, como um pano a cair sobre a cena no Municipal. Só aos poucos foi percebendo que dentro daquele turbilhão de imagens fundidas com odores, sensações táteis, calor, lá no íntimo do redemoinho, como no olho de um furacão, a perfeita imobilidade de sua espera tinha começado a tamborilar no chão com pezinhos indóceis.

Por que ele não vinha? Estava ali perto na cama, ela sabia, também ele atirado sobre os lençóis de qualquer jeito, pés calçados para fora. Era provável que contemplasse sua própria ciranda de cenas das bodas perfeitas, quem sabe já separando, como ela fazia quase sem perceber, as imagens que valeria a pena entesourar a fim de revê-las pela vida afora, até gastar-lhes o lustre, por desfastio ou como bálsamo para os momentos menos felizes que o futuro lhes reservasse. Passado o momento de recapitulação, porém, era claro que viria. Já estava vindo... Mas não vinha, não vinha. Não veio e, uma porção de minutos depois, ainda não viera. Viria mesmo? De repente a ansiedade venceu o que ela supunha ser a etiqueta da boa noiva e lhe abriu os olhos. Virando-se de lado, descobriu então algo que fez seu queixo desabar: o viril mancebo que acabara de desposar estava ressonando. O carrossel da Glória, se carrossel houvesse, girava apenas no mundo inacessível de seus sonhos. Não havia uma única linha em Manon Lescaut que pudesse tê-la preparado para tanta indiferença. As palavras vieram correndo lá do fundo da cena, trocando cotoveladas, e com tal ímpeto que se atiraram sobre a platéia. Era o que faltava! Quando se deu conta de que o pensamento ganhara-lhe a voz, aos atropelos, era tarde: o protesto já ecoava no quarto, despertando o homem adormecido. Era o que faltava, sim, senhor! Ele ergueu-se num sobressalto e com tal expressão de aturdimento que ela até sentiu pena. Meio arrependida do acesso de fúria, mas ao mesmo tempo vingada da desfeita, sorriu para tranqüilizá-lo. Soergueu-se na cama, montou uma pilha mais alta de travesseiros, acomodou-se de costas nela, soltou os cabelos, abriu os braços. Ele piscou repetidamente, olhando em volta como se não atinasse bem com o que fazia ali, e se levantou para apagar as lâmpadas.

Então veio. E veio determinado. Enquanto era descascada por mãos inábeis, que ajudava com seus próprios dedos velozes a superar impasses em série, espartilho, anáguas, laços, fivelinhas, botões, colchetes, ela observou que as palavras tinham se recolhido de novo, desta vez para o mais recôndito desvão dos bastidores. Seus sentidos começaram a variar, a oscilar como ramagens finas na brisa de uma aurora longamente antecipada. O mundo encolheu, concentrou-se numa área de poucos metros de raio a partir da cama, dentro da qual tudo reluzia em dobro, como se fosse à custa do apagamento geral de quanto lhe estivesse fora. Notou também que esse efeito ainda se intensificava mais, até que os poucos metros visíveis minguavam a dois palmos, nem isso, um palmo e meio de donzela medido em redor de seus corpos enroscados sobre os lençóis, à luz do luar coada pelo cortinado fino. Teve certeza de que se esticasse o braço tocaria o Nada, que vinha a ser tudo o que não participava daquele transe de ruídos abafados, farfalhar de lençóis, odores indecentes, espreguiçamentos mais retorcidos que uma árvore enfeitiçada numa gravura de Gustave Doré... Sem mencionar a vergonha infinita, a falta de vergonha maior ainda, risinhos que viravam gargalhadas sem freio e uma dor que de doer tão fundo já nem doía, deleitava, dava vontade de pegar, de morder, de gritar, de morrer - de não morrer nunca mais.

Quando as palavras voltaram finalmente ao palco, vieram tateantes, como se perguntassem ao diretor do espetáculo: "Podemos?" E ela, antecipando-se ao diretor, respondeu que ficassem à vontade. Aí veio o jorro de metáforas. Era como chegar ao avesso do mundo e espiar as engrenagens que o punham em movimento, como abrir a tampa de um relógio de pêndulo ou inspecionar o interior de uma fruta esborrachada no quintal, aquelas sementes todas embutidas em seus ninhozinhos perfeitos. A curiosidade dela sempre fora maior que tudo, mas faltava isto, faltava isto, faltava isto! Como

 
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