Em uma manhã de julho, o jardineiro lapidava o paredão de jibóias que protege dos olhares curiosos uma casa construída no final da década de 70, no alto da Cidade Jardim, um dos bairros mais ricos de São Paulo. A estrutura de concreto aparente e as janelas de treliças dão um ar de vanguarda à construção. As telhas de barro e o desenho interno, contudo, reduzem os elementos vanguardistas à condição de adorno. Pouco antes das nove e meia da manhã, o portão abriu e saiu uma BMW preta, série 7, blindada, com alguns anos de uso. No banco de trás estava o arquiteto Julio Neves. Vestia terno preto, camisa e gravata azuis e sapatos pretos de cromo alemão. No volante, Ulisses, o motorista uniformizado.
Dois túneis, 5 quilômetros e vinte minutos depois, chegaram ao escritório do arquiteto. No caminho percorrido, três prédios se destacam pela monumentalidade e pelo traço neopassadista, com ênfase no neoclássico: o prédio da Eletropaulo, a Daslu e o complexo de luxo Parque Cidade Jardim. Os três saíram da prancheta do Escritório Técnico Julio Neves.
Além de projetar grandes empreendimentos imobiliários, Neves ocupa há quase catorze anos a presidência do Museu de Arte de São Paulo, o Masp. Uma semana antes, no dia 25 de junho, ele fora convocado à sede do Ministério Público, que investiga sua gestão do museu. Chegou lá pouco depois do almoço, acompanhado do advogado do Masp e dos advogados de outros dois conselheiros, o empreiteiro José Ermírio de Moraes Neto e o marqueteiro João Dória Jr.
Participaram da reunião a promotora Mariza Tucunduva e representantes das secretarias de Cultura das três esferas governamentais. O objetivo era apresentar o parecer jurídico-contábil da procuradoria, que esmiuça a debilidade financeira do museu. A promotora propôs que os diretores convocassem uma assembléia extraordinária com todos os associados para discutir a participação do estado na gestão do Masp. Após mais de seis horas de conversa, e vários momentos de tensão, não houve acordo. Neves pediu e obteve trinta dias para analisar a documentação.
Se concretizada a proposta da procuradora, configurará um caso raro: a estatização de uma instituição privada. O Masp é uma sociedade civil sem fins lucrativos, com regras definidas no seu estatuto. O prédio é do município, que é dono do terreno, pagou a construção do prédio e contribui com 1,2 milhão de reais por ano para a sua manutenção.
O que a instituição possui de valioso é o acervo: uma coleção avaliada em mais de 1 bilhão de dólares. A pinacoteca mais importante do hemisfério sul foi reunida graças à truculência de Assis Chateaubriand e ao oportunismo de Pietro Maria Bardi. O papel do primeiro foi arrumar dinheiro achacando fortunas brasileiras: quem não contribuísse com o museu era atacado pelos Diários Associados, a cadeia de jornais da qual era dono. O do segundo foi encontrar obras a preço de banana de europeus arruinados com a II Guerra Mundial.
Também entrou dinheiro público na formação do acervo. O governo de Juscelino Kubitschek emprestou 2 milhões de dólares para que Chateaubriand pagasse um empréstimo em Nova York. Para entregar a soma, uma das condições do governo foi a criação de sociedade independente para gerir o Masp. Essa ação deu caráter público à coleção e salvou-a da falência dos Associados.
Os diretores do museu, no entanto, insistem na condição de "entidade privada". O que faz com que o Masp funcione quase como uma sociedade secreta. Os funcionários sabem que os sócios se reúnem só quando vêem dezenas de carros estacionados no vão livre do prédio projetado por Lina Bo Bardi. Dependendo do número de presentes, a reunião pode ser no pequeno auditório ou na sala de reunião do primeiro piso. Se o assunto a ser discutido é espinhoso, há uma ronda da segurança para certificar que não há bisbilhoteiros da imprensa em volta.
Sequer os nomes dos associados são divulgados. Eles formam um clube fechado, no qual só entram convidados. Para isso, não é necessário ser especialista, milionário ou generoso: é só ter amigos entre os sócios. O estatuto diz que podem se tornar associados "pessoas físicas ou jurídicas que, pelo tempo de dedicação ao Masp, assim como por serviços prestados ou doações efetuadas, tenham alcançado essa condição especial". O clube tem hoje 62 associados. Entre eles, há poucas pessoas ligadas às artes como a escritora Lygia Fagundes Telles, e alguns milionários, caso do empresário Emílio Odebrecht. A maioria não é uma coisa nem outra. Nessa categoria estão dois dos quatro filhos de Julio Neves, Paulo e Roberto, empossados durante a gestão do pai.
Julio Neves tem 76 anos e é rico desde o nascimento. Seu pai, que passou o prenome ao filho, era dono de uma indústria de alfinetes na baixada do Glicério e de dezenas de imóveis de aluguel, a maioria junto à fábrica. A casa enorme na qual os Neves viviam ficava na avenida Brigadeiro Luiz Antônio, a uma quadra da Paulista. Julinho, como era chamado, começou os estudos no jardim-de-infância do Externato Elvira Brandão, onde conheceu o seu melhor amigo, Paulinho. Continuaram colegas no ginásio e no científico do Colégio São Luiz, o viveiro da burguesia paulistana de então. "O Julinho e eu íamos juntos de bonde até o colégio, pois morávamos a uma quadra e meia de distância", relembrou Paulinho. Até os telefones eram parecidos: o de Neves era 71-200, e o do amigo, 71-280.
Na escola dos jesuítas a dupla passou a trio com a entrada de Silvano. Ainda no colégio, os três fizeram o primeiro negócio juntos: dividiram Clotilde, o apelido que deram ao Austin 1935, azul-marinho, que compraram em sociedade. Para adquiri-lo, contaram com o auxílio providencial da mãe de Paulinho, dona Maria, que considerou o automóvel "só um brinquedinho". Reza o romance familiar dos Neves que, para comprar o Austin, Julinho se desfez da coleção de selos que herdou do avô. A trinca aprendeu a dirigir