Ele conta o fim da era em que tudo ainda parecia possível, descreve o ingresso do mundo na ciranda da cobiça global e testemunha a resposta do intratável Thompson ao curso da história: o suicídio, três anos atrás, tendo o filho único por testemunha.
1977_NA ESTRADA PARA HOLLYWOOD
O diretor de televisão da BBC Nigel Finch me telefonou para saber como chegar a Hunter Thompson e lhe falar de um projeto. Nigel queria fazer um documentário sobre a nossa longa parceria.
- Mande um telegrama - respondi -, mas seja bem direto e insistente, senão ele não responde.
- Como assim?
- Mande algo como: "Chego amanhã PONTO com toda equipe de filmagem PONTO Ralph vai também PONTO vamos precisar de armas PONTO."
Meia hora depois, Hunter estava no meu telefone.
- Que diabo é isso?
- É legal! - falei. - A BBC quer fazer um filme sobre a gente. Faríamos uma viagem até Hollywood, com parada em Las Vegas! Parece uma boa idéia!
Era sem dúvida um grande lance e em 24 horas eu e Nigel já estávamos a caminho do Colorado. A equipe de filmagem embarcaria uns dias depois. Eu ia rever o velho sacana outra vez.
Nigel Finch era uma boa alma, riso fácil, confiante e extremamente cioso como documentarista. A viagem foi agradável e Nigel fez algumas anotações sobre a minha relação com Hunter - como é que eu agüentava os insultos dele e como tudo aquilo fazia parte do relacionamento criativo. Eu estava tão entusiasmado quanto o Nigel. Queria saber se a nossa química ainda estava intacta, ou se seríamos como dois estranhos de novo.
Aterrissamos em Denver, que na época ainda era um aeroporto caipira, pequeno, um pardieiro feito com estruturas de tábuas de compensado. O avião que nos fez sobrevoar as Montanhas Rochosas era um Dakota bimotor que parecia um remanescente da II Guerra Mundial. Adorei. A viagem foi sacolejante e às vezes francamente errática, mas sabíamos que a carcaça velha tinha voado por cima dos picos tantas vezes que devia ser capaz de voar sozinha. Ainda tenho as fotos do vôo. No último trecho da viagem, Nigel começou a ficar nervoso.
- Não se preocupe, Nigel - tranqüilizei-o. - Na primeira vez que o vi, Hunter me deu medo, mas por dentro ele é um gatinho doméstico. Do tipo perigoso, vá lá, mas é uma pessoa gentil, tímida. Ele é muito atencioso com seus convidados. Você vai ficar à vontade.
- Acho que estamos chegando - disse Nigel, quando começamos a descida abrupta e a manobra para entrar no vale onde ficava o aeroporto de Aspen. Pousamos de um jeito que me fez lembrar aquelas aterrissagens de filmes velhos em preto-e-branco, com Howard Hughes e todo o lero-lero da história da aviação. O aeroporto de Aspen era um troço familiar e acolhedor, galinhas ciscando na porta e parentes à espera de familiares. Nada de intermináveis manobras para taxiar até achar um acesso vago, e nada de vistorias com mãos apalpando as partes íntimas da gente.
Nossas malas saíram em questão de minutos, passamos para o saguão caseiro do aeroporto e daí para a porta da rua. Nigel foi dar uma mijada e eu fiquei encostado numa pilastra de tijolos, umas das poucas que sustentavam uma construção feita essencialmente de madeira. O sol brilhava e tudo estava sossegado, numa atmosfera de animação suspensa. Me fez lembrar uma cena do filme Conspiração do Silêncio, quando Spencer Tracy, maneta, desce do trem na estação e fica esperando o trem partir. Tudo é paz e tranqüilidade. Nada se mexe a não ser uma brisa delicada.
Nigel notou o Chevrolet vermelho e brilhante que veio na nossa direção, parou um momento e depois avançou direto até onde eu estava. No volante, estava a figura familiar do meu amigo, HST, dirigindo o carro direto até as minhas pernas, enquanto eu ficava ali parado, de pé, com as malas, encostado na pilastra de tijolos. Acho que eu devia ter pulado para o lado, mas tamanha era a confiança, a fé que eu depositava no meu velho amigo, que me limitei a ficar ali parado esperando, enquanto tentava enrolar um cigarro Virginia Golden. No último instante, Hunter pisou fundo no freio. O carro parou a dois centímetros das minhas canelas. Hunter abriu a porta e desceu de um pulo, dizendo:
- Vocês estão atrasados!
- Hunter, seu sacana! Isso podia ter dado a maior merda!
- Eu sei - disse ele. - Mas você sabia dos riscos quando resolveu transar comigo.
Nigel estava um pouco aturdido com aquela peculiar demonstração de cordialidade. Apresentei-o a Hunter, que foi caloroso nas boas-vindas.
- Pena que a equipe de filmagem ainda não esteja aqui, Nigel. Teria dado uma bela cena de abertura para o seu filme, hein? - comentei.
Concordamos que, de fato, teria sido uma cena forte para começar e, algumas semanas depois, quando tínhamos quase terminado a filmagem de Medo e Aversão na Estrada para Hollywood, Nigel tentou reencenar aquele momento, mas a hora tinha passado e a espontaneidade não existia mais.
Depois de nos convidar, de cara, para irmos à taberna Woody Creek, Hunter começou a falar a sério sobre armas:
- Feito esta aqui - disse ele, e de repente sacou de um coldre uma Magnum 357 e deu três tiros para o ar. - É disso que estou falando - explicou para Nigel. - A gente tem de estar preparado o tempo todo.
- Mas será que ninguém vai notar e denunciar você para a polícia? - perguntou Nigel, preocupado.
- É claro - respondeu Hunter -, mas tenho um arsenal delas guardadas num cofre. O pessoal vai ficar sabendo que tem um fodão lá em Aspen