Revista Piaui
"Resolvi subir ao tombadilho e dar uma sacada no ambiente, tentando imaginar qual é a sensação de ser um velho lobo-do-mar. Me plantei na proa do barco"
diário
Delírio da era Gonzo
RALPH STEADMAN
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Segundo definição do New York Times, o ilustrador Ralph Steadman, nascido no País de Gales, é um bravo: conseguiu sobreviver a mais de três décadas de colaboração com o repórter mais encrenqueiro de sua época - o lendário Hunter S. Thompson. Eles formaram a dupla improvável e alucinada que criou o jornalismo gonzo. O traço ácido e impiedoso de Steadman traduz à perfeição a prosa insanamente feroz de Hunter.

"Não se meta a escrever, Ralph. Se você o fizer, manchará o nome de sua família", advertiu Hunter. Steadman, de 72 anos, não só deixou o conselho de lado como usou a frase como epígrafe do seu livro de memórias, do qual foi extraído esse diário.

Hunter S. Thompson se suicidou, em 2005, com um tiro na cabeça. Suas cinzas foram disparadas de um canhão, ao som de Mr. Tambourine Man, de Bob Dylan.

SETEMBRO DE 1970_A America's Cup

Recebi uma carta de Hunter, datada de 18 de julho de 1970. "Prepare-se", escreveu, "acho que topamos com um filão incrível, cheio de possibilidades." Um de seus amigos tinha visto uma reportagem que havíamos feito juntos e sugeriu a Hunter que viajássemos pelo país afora, dando uma sacaneada em tudo. "Vocês dois podiam ir de Nova York até a Califórnia e jogar o veneno de vocês em cima de tudo o que o povo respeita!" Hunter listava possíveis pautas e lugares:

O campeonato nacional de futebol americano, o Times Square na noite de Ano-Novo, o Mardi Gras, o torneio nacional de golfe, a America's Cup, o Natal com o chefe da polícia de Chicago, o concurso de Miss América em Atlantic City, o Grande Rodeio Nacional em Denver... Vamos encher o pé e chutar o balde!

Hunter queria começar imediatamente. Estava intoxicado com a idéia e acabou me contagiando. E continuava:

A gente pode ir a praticamente qualquer lugar & mandar uma série de artigos tão anárquicos & aterradores que o mundo jornalístico jamais será o mesmo. Ficará zonzo. Já pensou nas possibilidades alucinantes de uma empreitada como essa? Pura loucura... numa escala nunca vista até hoje... a gente pode viajar com cortesãs e com carregadores de bagagem, voando de um lugar para o outro, num delírio de drogas e de bebida. Já pensou?

As possibilidades artísticas são fantásticas, mas terei uma certa dificuldade na hora de escrever - o projeto exigirá pesquisa, citações etc. Como reportagem, acho que pode render algo forte. E muito oportuno, em termos de política americana. Do jeito que as coisas vão, acho que estamos mesmo precisando de um troço assim. Ciao... Hunter.


Eu deveria ir ao encontro de Hunter em Nova York e depois seguiríamos para Newport, em Rhode Island, onde, todo ano, velejadores musculosos fazem de tudo para não deixar o seu barco virar, enquanto competem com as tripulações de outros barcos. Juntos, avançam em ziguezague por um percurso determinado, e cada grupo tenta levar a melhor, usando o vento, táticas diversas e força bruta. Cada barco custa o equivalente a uma universidade nova. Todos são observados por marmanjos com pinta de iatista e encharcados de gim - são homens e mulheres de quepe de capitão que ficam esparramados em espreguiçadeiras, dentro de uns cercadinhos cobertos de acrílico transparente, na proa de verdadeiras casas de campo flutuantes, e que são pura e simplesmente a expressão vulgar e chique da riqueza deletéria. A isso se chama de America's Cup.

No ônibus para o aeroporto, Hunter engoliu uma ou talvez duas pílulas amarelas, não muito diferentes do Diazepam. Imaginei que estivesse fazendo algum tratamento - o tipo de tratamento a respeito do qual você não pergunta nada a quem não conhece bem. Achei que ele talvez estivesse angustiado. Até então, eu ainda não tinha intimidade alguma com nenhum americano, e imaginei que talvez todos tomassem pílulas para agüentar a responsabilidade de serem os guardiões do Mundo Livre.

Chegamos ao aeroporto La Guardia, em Nova York, para embarcar num vôo para Boston, e dali seguiríamos num avião pequeno até Newport, o local da regata. Antes de todo e qualquer vôo, curto ou longo, fico nervoso e um ou dois drinques, em geral, alcançam o mais íntimo do meu ser, dando-me a coragem que não consigo extrair da religião. Logo ficou claro que Hunter também estava disposto a beber e foi assim, com os nossos corações mais leves, que embarcamos no vôo A157.

No avião, Hunter esclareceu que não ficaríamos hospedados em hotel, como sugerido inicialmente. Faríamos parte da tripulação de uma embarcação de três mastros, cujo desempenho no mar não era assunto que precisássemos discutir. "Por mim, tudo bem", balbuciei, mais preocupado, àquela altura, com o fato de que viveríamos dentro de um barco durante pelo menos uma semana.

- Você gosta de barcos? - perguntou Hunter.

- São legais - respondi -, mas só quando estão em água rasa, que dá pé, e se eu puder andar até a margem sempre que tiver vontade.

- Não esquenta a cabeça, Ralph. Se a gente se ferrar, incluímos o desastre na reportagem, certo? Ah, também vamos ter uma banda de rock a bordo para animar todo mundo.

Fiz que sim com a cabeça e olhei pela janelinha do avião. Quando se está em início de carreira, é melhor não fazer perguntas.

Em Newport, Hunter localizou sem dificuldades a nossa embarcação. Era de madeira velha bem envernizada, com tábuas gastas no convés. Seguro como uma casa, pelo que diziam. Tinha 15 metros de comprimento e cortava a água de um modo extremamente elegante. Tratei de descer até a cabine e, sentado no meu beliche, relaxei. Mas mantive todas as minhas coisas dentro da maleta. Na verdade, elas não saíram dali a semana inteira. Hunter, por sua vez, já havia caído no sono, no beliche ao lado, e roncava suavemente.

Resolvi subir ao tombadilho e

 

 
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