Revista Piaui
"A presença de Eurico Ângelo de Oliveira Miranda se faz sentir pelo odor. Aos 63 anos, ele é um homem corpulento, que chega a acender dez charutos por dia"
vultos do futebol
Eurico, #@*!
Conhecedor de Dostoievski e Victor Hugo, mas influenciado pelo O Pequeno Príncipe, o cartola deixou de ler para se dedicar totalmente ao Vasco
ROBERTO KAZ
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Eurico Miranda acendia um charuto quando o celular tocou. "Pelo portão dezoito, entra pelo portão dezoito", repetiu ele pelo telefone. Em seguida, ligou para o chefe da segurança do Estádio de São Januário, sede do Vasco da Gama, o clube do qual ele é presidente há sete anos, e ordenou: "Tubarão, quando o secretário chegar traz ele aqui na minha sala, entendeu?" Taciturno, murmurou: "Com um horário desses, não vai ter ninguém nessa #*@! de jogo." Eram nove da noite de uma quarta-feira e a partida entre Vasco e Resende estava prestes a começar. Acomodado em seu gabinete, que tem vista para o campo, Eurico Miranda conversava com torcedores. Um deles era padre Carlinhos, que viajara desde Formiga, no interior de Minas Gerais, trazendo-lhe um queijo de presente. Ao saber da condição eclesiástica do visitante, Miranda se entusiasmou. "Então absolve tudo, absolve aí, ô meu filho!", bradou, mexendo largamente os braços. Mas logo avisou ao padre: "Tu pode ficar mais um pouco aqui, mas assistir ao jogo, nem pensar."

Miranda soube pela televisão que o Botafogo ganhava por 5 a 2 do Mesquita. Mudou de canal e descobriu que o Flamengo também ganhava, por 1 a 0, do Macaé. "Já vi demais", disse com irritação, e sintonizou numa partida do campeonato paulista. Foi interrompido pela chegada de Eduardo Paes, secretário estadual de Esportes, que pretende se candidatar à prefeitura do Rio. Da entrada do gabinete, Paes saudou: "Euricão!" O dirigente respondeu, enquanto se levantava para abraçá-lo: "Boa noite, secretário e futuro prefeito!" Paes apertou a mão do assessor e faz-tudo de Miranda, Ricardo Vasconcellos, e o elogiou: "Santo homem."

Os três se sentaram diante da janela, tendo à vista, do outro lado do campo, uma faixa com a frase "Sempre Eurico". O dirigente bebia um suco de pêssego em lata. Paes pediu um café sem açúcar e comentou com alguém que estava por perto: "Você tinha que ter ido à festa do Romário, para ver aquela fauna, que vai do Eurico Miranda à Suzana Vieira. E o mais popular, claro, é o Eurico." Quis saber por que a empresa de engenharia MRV acabara de se vincular ao Vasco, depois de sete anos sem patrocinar o clube. "É para vender apartamento para a portuguesada, Eurico?", indagou. Miranda lhe deu uma resposta incompreensível, de tão evasiva. Intrigado com a presença de um repórter na sala, perguntou ao presidente do Vasco se tudo o que estava sendo dito seria publicado.

- Claro, não tenho nada a esconder - respondeu-lhe Miranda. - Em caso de encontro sigiloso, o repórter não participa. É simples assim.

- Então, Eurico, ao menos deixa o cara sentar - pediu Eduardo Paes. Você fica tratando mal os jornalistas e depois eles falam mal de você.

- Estou pouco me lixando - disse o dirigente.

- Já estão te xingando? - perguntou Paes, notando os gritos da torcida.

- Ainda não, mas daqui a pouco começa.

- Os insultos começaram desde que Eurico deixou de dar ingressos para a torcida organizada - disse Paes, para ninguém em particular.

No meio do minuto de silêncio em respeito à morte de uma torcedora benemérita, começou o brado de guerra vascaíno: "Ô, ô ô, ô ô ô. Fora, Euri-cô!"

O jogo começou assim que terminou a novela Duas Caras, da Rede Globo. Numa enfiada de bola, Miranda se entusiasmou: "Bem metida, bem metida. Esse garoto, Alex Teixeira, é craque." Diante de uma lateral mal cobrada, disse: "O que não perdôo no jogador profissional é o seguinte, você vai jogar a bola com a mão, não pode jogar para o adversário." Depois de um cruzamento errado, afirmou: "Eu tenho uma teoria: a bola só entra se chutada para o gol."

O primeiro gol vascaíno saiu aos trinta minutos, de pênalti. Em comemoração, ele deu uma baforada no charuto e jogou a ponta pela janela, sobre a passagem que leva às cadeiras especiais. Três minutos depois, vibrou com o segundo gol. "Viu o drible do garoto, o Alex?" A torcida entoou um novo grito: "Ei, Eurico, um-sete-um!" [Referência ao artigo 171 do Código Penal, que versa sobre o crime de estelionato.]

Terminado o primeiro tempo, Miranda se levantou, faminto. "O que está faltando aqui é o meu serviço Habib's", disse, falando do lanche que lhe é oferecido pela cadeia de lanchonetes que patrocina o Vasco desde dezembro. Informado de que a comida já chegara, ele retrucou com euforia: "#*@!, ninguém avisou." Com uma esfiha na mão, exaltou a qualidade do produto: "Está vendo como está quentinho? Coisa de Primeiro Mundo."

No segundo tempo, com o placar em 3 a 1, Eduardo Paes se levantou. "Euricão, vou nessa, que amanhã meu dia é longo", disse. "Alguém tem que trabalhar nesta cidade." Sem tirar o olho do campo, Miranda se despediu: "Eduardo, aqui você é sempre bem-vindo." E voltou a reclamar, quando o time errou, mesmo com um jogador a mais em campo: "Tem coisas absolutamente elementares no futebol. Quando você joga onze contra dez, tem que tocar a bola. Toca a bola, #*@! "

Findo o jogo, com uma goleada do Vasco por 5 a 2, ele sentou-se à mesa e passou a apalpar charutos. Colocou três na cartela que leva para casa. Viu uma notícia no computador e, surpreso, comentou: "Ih, o Giuliani saiu", em referência ao republicano Rudolph Giuliani, que acabara de desistir da candidatura às prévias da presidência americana. Diante do silêncio, pensou, em voz alta: "São os jovens que vão decidir essa eleição."

A presença de Eurico Ângelo de Oliveira Miranda se faz sentir pelo odor. Aos 63 anos, ele é um homem corpulento, que chega a acender dez charutos por dia, embora jogue fora metade deles. "A maioria, já descarto só de encostar", contou. "Toda vez que dizem que eu estou #*@!, acendo um charuto. E às vezes acendo só para

 

 
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