Revista Piaui
"Em qualquer lugar que eu vá sempre vai aparecer um para me xingar, mas eu já nem escuto. Mas  tenho minha consciência absolutamente tranqüila"
política
O consultor
A nova vida de José Dirceu, repleta de viagens, negócios, conversas, internet, nostalgia da política e xingamentos em restaurantes e aeroportos
DANIELA PINHEIRO
A- A+Tamanho da letra
 

Clique aqui para baixar a versão do texto em áudio.

José Dirceu de Oliveira e Silva escolheu uma mesa no fundo do restaurante de um hotel caro e discreto, localizado entre os bairros do Ibirapuera e da Vila Mariana, onde se hospeda quando está em São Paulo. Era o começo da tarde de um sábado de novembro e ele vestia uma calça escura, camisa pólo com o decote forrado por um estampado Burberry e mocassins sem as meias. Chegou atrasado, se desculpou e disse que desembarcou de viagem na madrugada, acordou quase em cima da hora e, quando ia sair do quarto, recebeu telefonemas urgentes. Atravessou o salão vazio encarando o visor do celular por cima dos óculos. As sobrancelhas arqueadas lhe davam um ar de espanto. Deu uma rápida olhada no bufê de saladas antes de se acomodar em uma cadeira estofada com tecido florido, de costas para a entrada. Explicou que um problema na coluna - produto das horas seguidas que passa na frente do computador - o obriga a optar pelas de espaldar alto. O garçom, que o tratou pelo nome, lhe ofereceu uma garrafa de vinho. "Nem pensar", respondeu. "Não bebo mais no almoço. Tomo vinho no máximo duas vezes por semana. Tenho que perder essa barriga."

Ele havia ido a um casamento na véspera, encontrado amigos e tomado espumante. Depois de descrever a festa, falou de seus negócios. Contou que tem uma carteira de quinze bons clientes, a maioria deles estrangeiros, aos quais presta consultoria. Os brasileiros lhe pagam entre 20 e 30 mil reais. Deu como exemplo de cliente de peso o banco Azteca, do empresário mexicano Ricardo Salinas, que quer se estabelecer no Brasil e, como faz em outros países, cobrar tarifa zero dos correntistas. Outro cliente é o também mexicano Carlos Slim, o homem mais rico do mundo, que planeja implantar no Brasil a televisão a cabo com mensalidade de 40 reais. "Mas não sou consultor dele no Brasil", disse. "Como defendo coisas contrárias ao interesse dele aqui, temos um acerto informal de buscar negócios em outros países da América Latina. Eu disse a ele: 'Don Carlos, aqui não'. Podemos até trabalhar juntos, mas fora do Brasil", afirmou. "Ele me chamou para ir à casa de praia dele, eu nem fui para não haver mal-entendido."

Em março passado, uma reportagem de Veja lhe atribuiu rendimentos mensais na casa dos 150 mil reais. Dirceu negou: "Eu disse a eles que faturamento não é lucro, mas botaram assim mesmo. Quem fatura isso embolsa menos do que a metade. Mas, na verdade, o Roberto Civita [dono da revista] me fez foi um grande favor publicando isso: aumentou o meu passe".

Perguntado sobre os serviços que presta ao empresário Nelson Tanure, respondeu que foi contratado para ajudar na reestruturação da Gazeta Mercantil e para escrever uma coluna no Jornal do Brasil. Não haveria, no entanto, a expectativa de que, com os seus contatos em Brasília, ele conseguisse propaganda de estatais e do governo para a TV JB e os jornais de Tanure? Dirceu replicou com outra pergunta: "Você acha que se eu ligar para um ministro, pedindo alguma coisa, isso não vaza em dois minutos? Eu não sou qualquer um. Outra coisa, bem diferente, é que eu acho que se deveria ter posto propaganda na televisão do Tanure". (A TV JB fracassou e saiu do ar poucas semanas depois de estrear.)

Quando chegaram os pãezinhos, passou a discorrer sobre o que acredita ser o motivo da cassação de seu mandato de deputado federal. "Tudo tem uma explicação", disse, usando uma frase que, ao longo dos dias, repetiria em ocasiões distintas. "Um amigo me disse e eu percebi: se eu não tivesse sido cassado pela Câmara, voltaria aclamado, aplaudido, ovacionado. Seria facilmente eleito presidente do PT", falou. "Estando fora do governo, o Lula teria que me oferecer alguma coisa, uma embaixada, a presidência de uma estatal... Se eu ainda tivesse a petulância de me candidatar à presidência da República, era capaz até de ser eleito." E concluiu: "Como a minha absolvição, além de ser ruim para a oposição e a imprensa, traria dificuldades para o governo, não havia outro resultado possível".

O ex-ministro chefe da Casa Civil, que junto com o ministro Antonio Palocci, da Fazenda, era o pilar do governo Lula, foi cassado em dezembro de 2005, pelo voto de 293 deputados. Meses depois, foi apontado como o "chefe da quadrilha" do mensalão pelo procurador-geral da República, Antonio Fernando de Souza. Está inelegível até 2015, quando terá 69 anos. José Dirceu responderá pelos crimes de corrupção ativa e formação de quadrilha. Acredita que seu julgamento no Supremo Tribunal Federal deva ocorrer em 2009 ou 2011. "Em 2010, seria politizar ainda mais um processo que não é jurídico, é político", disse. "Não sinto falta do governo, sinto falta das amizades que fiz. Foi um jogo que joguei. A conta caiu no meu colo, eu sei. Eu era o mais conhecido, o mais visado."


Na semana seguinte, em uma manhã de calor abafado, José Dirceu foi votar na eleição dos novos dirigentes do Partido dos Trabalhadores. Chegou ao diretório da Vila Mariana numa caminhonete Chrysler preta dirigida por um amigo, Bob Marques, assessor do PT na Assembléia Legislativa de São Paulo. Repórteres o aguardavam para saber sua opinião sobre a possibilidade de um terceiro mandato para o presidente Lula. Sua namorada, Evanise Santos, uma brasiliense simpática e extrovertida, mas discreta, se protegeu do sol embaixo de uma marquise por quase vinte minutos, enquanto ele falava aos jornalistas. Ao entrar, Dirceu foi cercado por petistas. Alguns pediram para tirar fotos ao seu lado, e ele sempre se postou entre dois fãs, de modo a poder abraçar a ambos.

Evanise se sentou sozinha numa sala, enquanto o ex-ministro continua-va a maratona de fotos e conversas com militantes. "Tá com botox é, Zé Dirceu?", perguntou uma mulher de cabelos curtos grisalhos. "Não, não", ele

 

 
Achados & Imperdíveis Só no site

Download

Seu computador precisa dos papéis de parede e dos descansos de tela da piauí. Baixe aqui o seu!





Complete sua coleção



O uso não autorizado de qualquer material incluído neste site pode constituir uma violação das leis de direitos autorais,
das leis de marcas comerciais, das leis de privacidade e publicidade e das leise regras de comunicações.