Revista Piaui
"Eles treinam à noite, por duas horas, nas terças e quintas-feiras. Recebem apenas uma ajuda de custo, girando em torno de 100 libras (400 reais) por semana"
carta da Inglaterra
O esporte que vendeu a sua alma
Como o rude desporto bretão se tornou um ramo privilegiado da indústria do entretenimento
MARCOS ALVITO
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"Não quer que o chutem também, vagabundo jogador de futebol?" É com essas palavras, seguidas de um pontapé, que o leal conde de Kent agride um mordomo que ousara desrespeitar o rei. É uma cena da tragédia Rei Lear, escrita há 400 anos por Shakespeare. Naquele tempo, o futebol era considerado um jogo da ralé, e ser chamado de jogador era um xingamento. Não era para menos, porque consistia em um enfrentamento generalizado entre duas aldeias, muitas vezes com vítimas fatais. A turma tentava carregar uma esfera de couro - geralmente a bexiga de um animal - até a aldeia adversária. Lá chegando, a comemoração era quebrar tudo. Não havia nenhuma regra, e a balbúrdia era tanta que reis e autoridades tentaram proibir o jogo durante séculos. 

Em Islington, ao norte de Londres, fica o estádio do Arsenal. O clube foi fundado por operários de uma fábrica de munições e até hoje o bairro onde fica o Emirates Stadium é relativamente pobre. Para chegar ao estádio, seguindo as placas colocadas desde a estação de metrô, passa-se por um restaurante boliviano, lojas por alugar, um pub que ostenta várias bandeiras do clube e um escritório onde imigrantes africanos podem enviar dinheiro para seus parentes. Contrastando com a vizinhança, o Arsenal é um dos clubes mais ricos do mundo e o canhão, símbolo que remete às suas origens, agora jaz numa parede revestida de mármore. 

O Emirates Stadium, um colosso de concreto que mais parece um aeroporto ou um shopping center, custou 400 milhões de libras (1,6 bilhão de reais). Embora comporte mais de 60 mil torcedores, comprar ingresso para um jogo do Arsenal é missão quase impossível. Ingresso garantido, só para os que têm um cartão permanente (o season ticket) que dá direito a assistir a todos os jogos. Custa a bagatela de 990 libras (cerca de 4 mil reais), mas a lista de espera pode demorar até quinze anos. Para ficar na lista, é preciso pagar 45 libras (180 reais). Descendo um degrau na hierarquia pecuniária dos torcedores (ou consumidores?), há os sócios-torcedores. Pagando cerca de 30 libras (120 reais) por ano, eles podem comprar ingressos para todos os jogos - mas só depois de descontados os reservados aos que têm o cartão permanente. Nesse caso, os ingressos custam 40 libras (160 reais), no mínimo. E existe, finalmente, a categoria dos reles mortais, que poderão comprar ingressos só se sobrar algum. Os quatro grandes times (Arsenal, Chelsea, Liverpool e Manchester United) praticamente não vendem ingressos assim, pois os donos do cartão permanente e os sócios-torcedores fazem valer seus privilégios. Para os outros times, ainda é possível comprar um ingresso ou outro para jogos menos importantes.

Depois de dias de tentativas, consegui finalmente comprar um ingresso para o jogo do Fulham contra o Bolton Wanderers, talvez por acontecer numa quarta-feira à noite: pontapé inicial às 19h45. E sem dúvida porque a partida equivalia a um Náutico x América-RN. Paguei a módica quantia de 32 libras (128 reais) para sentar em um buraco na primeira fila, um ótimo lugar para ver a marca das chuteiras dos jogadores. Com o mar de chuva e o frio - o verão inglês ainda não foi informado do aquecimento global -, eu teria direito a ficar encharcado e batendo queixo por noventa minutos. Depois de uns quinze minutos, fui para um assento na parte coberta, bem sequinho. Pena que era em frente a uma das colunas de sustentação da arquibancada. 

Os clubes da primeira divisão não teriam necessidade, aparentemente, de cobrar tão caro pelos ingressos. Somente com direitos de transmissão das próximas três temporadas, os vinte clubes da divisão de futebol mais rica do planeta ganharão 2,7 bilhões de libras (cerca de 11 bilhões de reais). A isso se soma a venda de inúmeros produtos. Se não se consegue comprar ingresso para um jogo do Arsenal, é possível freqüentar uma das duas gigantescas lojas do clube. Na ausência de dribles, passes milimétricos e cabeçadas certeiras, há quem se contente com uma caneca vermelha, bolas de golfe com o símbolo do canhão, meias, chaveiros, almofadas, pijamas, canetas, balas, cadernos, chocolates, relógios e até camisas do Arsenal com o nome do torcedor gravado, a quase 200 reais cada uma. 

Além das quinquilharias, o fiel torcedor poderá gastar o seu dinheiro com o Arsenal de diversas maneiras: fazendo a assinatura da tevê a cabo para ver os jogos, pagando para receber mensagens no seu celular com as últimas notícias do clube, comprando um passe eletrônico para ver os gols pela internet, adquirindo o DVD da última temporada ou as dezenas de enciclopédias, biografias e autobiografias que são publicadas todos os anos. Caso não seja suficiente, pode-se apostar em dezenas de lojas diferentes, e pela internet também. Apostar em tudo: se o Arsenal será campeão, se vai ser rebaixado, se irá se classificar para as copas européias, quanto vai ser o placar do jogo, quem vai marcar o primeiro gol, em que minuto da partida... Sem falar no pão-nosso-de-cada-dia: as páginas esportivas dos jornais, as revistas especializadas e, é claro, a cervejada no pub com os amigos, vendo e comentando os jogos da rodada. 

Como o jogo da ralé virou uma máquina de fazer dinheiro? O processo se confunde com a transformação de um jogo rural violento e selvagem num esporte praticado nas escolas mais aristocráticas da Inglaterra. Os professores tinham enorme dificuldade em conter pupilos originários de uma camada social superior. Os filhos da aristocracia desrespeitavam e, às vezes, agrediam seus mestres. Eram o terror da região em torno das escolas: estupravam camponesas, destruíam pubs, batiam nos aldeões. Entre eles mesmos havia violência. Os calouros eram tratados pelos veteranos como servos, inclusive no abuso sexual. Os diretores tiveram a idéia de canalizar a energia destruidora para uma atividade física.

Foi assim que, usando o pátio do colégio como campo, aos poucos o futebol virou um esporte, embora de início as regras fossem transmitidas oralmente e variassem de escola para escola.

 

 
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