Revista Piauí


GABRIEL RAMALHO

Revolução dos lixos

- Nunca mais! disse o corvo e instaurou-se o caos na assembléia das aves. Foi um bater de asas, algazarra misturada a vôos ágeis e baixos. Precisou o galo cocoricar, irritado, para trazer o silêncio de volta à deliberação sobre o destino dos brinquedos largados no quintal da Fazenda Modelo.

Havia algum tempo era um problema. Começou com um soldadinho de chumbo morto em batalha e esquecido por sua companhia. Depois, uma cabeça de boneca, provável vítima da violência infantil e, depois ainda, rodas e carcaças de carrinhos que encontraram seu fim em acidentes domésticos. A proliferação do lixo alarmava o plenário emplumado. A última foi um ferrorama inteirinho, largado ao léu depois que as pilhas estouraram em seu interior. Tinham, durante a noite e às escondidas, organizado todo o lixo em um canto do quintal e organizado às pressas o caloroso debate, com o galo chamando a todos com os primeiros raios de sol.

- Assim não dá mais! Puta-que..., tentou argumentar o eloqüente papagaio, sendo interrompido por um assum, que botava ordem no lugar. Como todos os papagaios, das fábulas e da vida, o louro não era conhecido por sua polidez. Como em todas as fábulas, lembro aos leitores que estranharem a presença de um corvo e um papagaio no mesmo recinto, a verossimilhança aqui não precisa ser regra. Como prova, jogo um pato, que grasnou uma idéia estupenda para o problema do trenzinho:

- Proponho um mutirão. Os beija-flores, que são menores, entram no vagão e batem as asas, levantando por dentro; os de fora empurram de volta à sede da fazenda. E, assim, faremos peça por peça. - Salva de palmas, digo, de asas e o apoio foi conseguido.

As andorinhas, sempre mais prestativas a fazer verão, se colocaram animadamente na lateral do trem. Gazeios, trinados, gorjeios e pipilos foram se sobrepondo em animada algazarra ornitológica. O barulho foi tão grande que acordou Orwell, o porco. Logo ele, que dormia o sono dos justos.

Havia um brinquedo abandonado, um mandarim que tocava um gongo quando ligado à pilha, havia a zorra, havia o sono interrompido de Orwell. Combinação perigosa. O suíno sacou o idiofone do chinesinho e atirou à turba. O gongo bateu na lateral da locomotiva e nenhum passageiro arriscou um pio. Também calaram os outros, que engoliram em seco por ter deliberado sem a anuência do porco. O fato é que a este, ainda por cima, agradava a montanha de lixo.

Houve pato e frango no jantar da fazenda naquele dia. As cabeças jogadas no lixo. Como todos os governos, das fábula e da vida, manda quem pode e obedece quem tem juízo. Ai de quem soltasse um pio para dizer que não estava satisfeito.
Moral da história: Galo que teme perder a cabeça, não inventa de ciscar em quintal alheio.


GABRIEL MAGADAN

Na linha férrea da vida

O gongo bateu na lateral da locomotiva e nenhum passageiro arriscou um piu. Silêncio absoluto, só o ecoar do estrondo. Os passageiros estão sentados em suas poltronas a caminho do destino. Ouve-se apenas o ruído do vapor e do ferro sobre os trilhos. Alguém ousa levantar e questionar o maquinista sobre o que foi aquilo afinal. Hesita, é contido pelos demais.

“Não adianta não vão te responder. Esta estrada só tem uma direção, nada vai alterar a rota rígida que foi estabelecida.” A locomotiva diminui a velocidade. Outro sinal sonoro, desta vez estridente, veio por cima e repercutiu por todo o vagão. “No próximo já teremos chegado”. Um sibilo longo, as máquinas estão frenando, perdendo velocidade. Entra um senhor de capote preto, quepe e luvas brancas impecáveis. “Bilhetes, por favor”.

Ninguém se mexe, à espera dos próximos acontecimentos. “Não temos bilhetes, senhor”. “Sem bilhete? Ora vejam... Sem bilhete o passageiro deve descer. Esta é a regra”. Enfileirados todos deixam o vagão, e da mesma forma se postam no estrado da estação, mirando o comboio que se movimenta deixando-os para trás. Na lateral de um dos vagões, uma placa de metal enferrujado, descolado de uma das basculantes, estremece junto às ferragens do colosso férreo que então se distancia fazendo um ruído de percussão. No tom certo do instrumento sonoro que anuncia o início e o fim da linha. Os passageiros permanecem atentos aos movimentos da locomotiva.

Enfim estão a salvos, e livres do gongo.


GABRIELA MELO

Maria-fumaça

A Rainha de Copas por possuir influência comercial intercontinental foi convidada especial para o lançamento da revista Oriente-se Brasil a ser apresentada em festa na plataforma reservada da Estação da Luz de São Paulo. A revista formou-se de uma parceria entre uma grande editora brasileira e o Consulado Chinês.

Na primeira edição trouxe em destaque de capa os tradicionais vestidos das chinesas. A Rainha de Copas feliz com a oportunidade de revelar uma nova faceta do que acredita ser um magnífico gosto em vestir, imediatamente fez encomenda ao seu costureiro.

- Nada de seda pura desta vez, Henrique. Quero este vestido com corte igual ao das chinesinhas, mas quero-o com pele branca, de urso. Aproveite a atual moda oriental e faça-o com a gola bem alta.

O costureiro que de bobo não tem nada e em cada figurino leva uma bolada, entendeu na hora o desejo da Rainha de Copas, lembrando-se da sua atual preocupação em esconder por baixo dos panos as pelancas do pescoço velho.

A grande surpresa da festa preparada pelo Consulado Chinês foi a entrada esfumaçante da mais antiga e conservada maria-fumaça brasileira que ao estacionar rente a plataforma desembarcaria performáticas bailarinas da tradicional Companhia Mandarim de Pequim a exibirem impecáveis vestidos de seda. Estes por sua vez, durante o coquetel de dim sun, seriam leiloados aos convidados, em sua maioria homens do mercado financeiro.

Acontece que por alguma falha dos controladores de bordo da estação, quando o veículo rompeu pelos trilhos de ferro não fazia fumaça, estava coberto por uma sujeira preta encardida, suas engrenagens faziam um ruído estridente e os passageiros dentro dos vagões tinham a pele muito mais escura do que amarelo. Mesmo assim estacionou. O gongo bateu na lateral da locomotiva e nenhum passageiro arriscou um pio. O glamour caiu de susto, os convidados estupefatos e com cara de azia olhavam os passageiros dentro da locomotiva. Eram trabalhadores vindos de São Bernardo, seus olhos brilhavam intensamente ao encontro da cinematográfica festa da plataforma.

Houve um instante de silêncio.

A Rainha de Copas sempre tão pró-ativa em virtude das causas, subiu no salto e pôs-se a dançar cancan. Aflita buscava mudar o foco daquela situação constrangedora e não sabendo mais o que inventar, lembrou-se da chapinha que recentemente fizera nos cabelos enrolados. Levantou a saia do vestido de pele de urso. O efeito foi arrasador. Agora não só os convidados da festa faziam cara de azia, mas também os trabalhadores que começavam a bater com punhos cerrados nas portas da locomotiva para que estas abrissem.

Aí a Rainha de Copas ofendeu-se de verdade. Vermelha de raiva tocou o gongo mais uma vez com toda força e chamando seu segurança particular gritava apontando para os trabalhadores.

- Cortem a cabeça deles! Cortem a cabeça deles!

Depois de tanto barulho, o urso panda que desfilava nas mãos do adestrador envolta dos convidados, eriçou-se com medo da ameaça do urso branco e saltou no cangote da Rainha de Copas.

Era o fim da festa. Por um longo tempo também o fim também das boas relações Brasil x China.


GUILHERME BARROSO

O gongo bateu na lateral da locomotiva e nenhum passageiro arriscou um pio.

Era uma tristeza só. O que até então sempre fora um momento de alegria e congraçamento, passara a ser triste e funéreo. Vida de atleta sempre demandara muito esforço, solidão e força superior ao comum dos mortais. Mas ir disputar um Pan no Rio de Janeiro era superior a tudo isso. Correr 10 mil metros, pular, saltar, jogar, nadar, levantar, tudo isso é fichinha em ter que encarar uma cidade devastada e violenta.

Malicioso mas veraz, o Ministro das Relações Exteriores de país amigo continuava sua peroração para a equipe nacional que, ora, vinha para o Pan-2007. Ele fazia o possível para reverter o quadro. Várias mães, pais, noivas, namoradas e filhos, a lenços úmidos, choravam e carpiam os últimos consolos e derradeiras aflições para o que poderia ser la ultima vez en la vida... Uma chegou a gritar: Carlitos... Carlitos... non vá... és uma ciudad muy violenta... olvide la medaglia mas non perca tu preciosa vida... Todo país passa por seus momentos dramáticos.- garganteava S. Excia.- mas tenho um pressentimento que tudo acabará bem. A imagem do Cristo é mais forte. Deus é pai. Nosso governo preocupado com a segurança de nossos atletas e sabendo que existe uma guerra nos aeroportos do Rio de Janeiro, alugou uma locomotiva. Vocês irão nela. O Brasil é uma República onde acontece tudo que se tinha como inimaginável e, diariamente, somam-se mais inéditos. Chegaremos como clandestinos. Ninguém usará uniforme. Usaremos etanol como combustível. Vocês só abrirão a boca para comer, escovar os dentes e agradecer a Criador. Concordem com tudo. É chegar, competir e voltar. Agradeçam, obedeçam, reverenciem, cumprimentem, entreguem tudo, o importante – como outrora dizia M. Coubertin – é competir... e voltar, gritou una madre.

Agora, antes da partida, faremos um teste. Todos em seus lugares. Rezaremos à Virgem de Guadalupe por vocês.

De repente, ouve-se um estrondo descomunal... e a poderosa e pesada máquina deu a partida. Já sumindo na curva, o Ministro vira-se para os parentes chorosos e os anima:

- Viram! Eles estão prontos pois o gongo bateu na lateral da locomotiva e nenhum passageiro deu um pio. Que Deus os acompanhe e não nos desampare! O silêncio é ouro.


GABRIEL RAMALHO

Começou quando o recém-chegado ajudante do alfaiate compareceu, impecável em sua túnica azul, a um jantar com o prefeito levando o instrumento com intenção de apresentar um pouco de seu virtuosismo musical. O alcaide, ao ver o chinês rufando o gongo enquanto o garçom trazia o prato principal, achou a cena tão cenoplasticamente interessante que resolveu convidá-lo para apresentar-se nos eventos municipais.

A partir daí, rufava nos cortes de fitas inaugurais ou batia pesadamente quando precisava anunciar algum ilustre chegado ao paço. A cidade se acostumara. Empolgado com o endosso e desejoso de levar sua música aos moradores, carregava o idiofone para a entrada da cidade e batia neste para anunciar quem cruzasse a placa de boas-vindas.

Em poucas semanas, o som do gongo já era tão habitual que as pessoas o ouviam mentalmente o tempo todo. Houve quem achasse que tinha enlouquecido. Mercadores desviavam a rota para não passar pelo chinês maluco que os anunciava; a praça começou a esvaziar por medo das apresentações do chinês, que consistiam apenas em fazer vibrar o idiofone, ora batendo, ora rufando e até a escolinha interrompia as aulas várias vezes, por confundir a sineta. A impaciência foi tomando conta da população, mas ninguém arriscava reclamar: havia recente o boato de que o chinês era exímio espadachim.

Por esta época, chegou a notícia de que a estação estava pronta e, enfim, o trem ia passar por ali. Apesar de há muito esperado o dia, o desânimo popular era visível. Pouca gente queria se arriscar a sair de casa por temer a apresentação do chinês e, mais ainda, sua possível fúria espadachínica caso percebesse o enfado alheio. Foi saber que o chinês não dava as caras há três dias que incentivou parte da população, receosa ainda, a seguir até a inauguração.

Na estação, nada do chinês; na chegada do prefeito, nada do chinês; no corte da fita, nada do chinês; na ocupação dos assentos, todos tranqüilos, aí, sim, o chinês. Chegou e postou-se no umbral da balduína, trajando uma túnica vermelha, o bigode fino lustroso à Salvador Dali. "Ensaiei por três dias", disse aos passageiros atônitos. Um desespero mudo foi tomando conta do vagão, mas ninguém ousava interromper. Mesmo que ainda não se o tivesse visto empunhar uma espada, o boato de que ele já tinha matado dez em Pequim era o suficiente para impor o respeito temeroso.

Após elogiar a educação da audiência silenciosa, sacou o idiófono e gongou com vontade. O maquinista, que nunca tinha estado por ali, imaginou ser este o sinal de partida e arrancou. O chino, na porta, desequilibrou-se e ficou num pé, baqueta e gongo nas mãos, enquanto o trem ganhava velocidade. Foi uma curva próxima. Os ocupantes do vagão, em choque silencioso, viram a dança desajeitada do chinês tentando se equilibrar e sendo sacado para fora do trem num átimo. O gongo bateu na lateral da locomotiva e nenhum passageiro arriscou um pio. Foi o bêbado da cidade o primeiro a romper o silêncio, "caiu."

A cidade experimentou um período de relativa calma e todas as atividades voltaram ao normal. Até o dia em que chegou um padeiro português que tocava um triângulo de metal. Felizmente, para todos, este não era bom espadachim.

   
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Frase do mês:

"O gongo bateu na lateral da locomotiva e nenhum passageiro arriscou um pio."