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FERNANDA TORRES
Nos idos de 1999, um microônibus carregado de jovens escritores brasileiros, acompanhados de experientes roteiristas nacionais e estrangeiros, descia a Serra do Mar para mais um Laboratório de Roteiros Cinematográficos, promovido pelo Sundance Institute. Uns 30 quilômetros depois de Cubatão, para tristeza geral, o motorista virou à direita, abandonando a estrada rumo às belas praias do litoral norte paulista e se encaminhou para a inóspita praia de Bertioga onde, séculos atrás, o alemão Hans Staden quase foi devorado pelos temíveis canibais tupinambás. Fernando Henrique Cardoso era o presidente no fim dos anos 90. A moeda havia sofrido a primeira grande desvalorização do mandarinato tucano. Com isso, o capitalismo selvagem comeu mais um naco do nosso dinheiro e o Laboratório de Roteiros teve que ser transferido da pitoresca Parati para o Centro de Convivência da Terceira Idade, gentilmente cedido pelo Sesc de Bertioga. O lugar lembrava o asilo do filme Cocoon, com toques brasileiros. Alguém do grupo profetizou a morte de um velhinho – o que de fato acabou ocorrendo durante a nossa estada. Fora a retirada do caixão, a rotina seguiu tranqüila: café da manhã, almoço, jantar, cama, e todo o resto do tempo dedicado à discussão de roteiros. Eu, que fui parar ali com o meu irmão Cláudio por conta do roteiro de Redentor, ia dormir pensando no quanto aquela iniciativa do herói americano Robert Redford, o criador do Sundance, lembrava a dos jesuítas portugueses, que, na época de Hans Staden, subiram a mesma serra que acabáramos de descer, na esperança de catequizar os carijós. Ao contrário da maioria das nações indígenas de então, os carijós eram altamente domesticáveis, praticavam o plantio e não traçavam carne de gente. Ocupavam uma área que ia de São Paulo a Santa Catarina, onde eram constantemente caçados e capturados por mercadores de escravos. Como o mercado de bugres sensíveis à catequização era bem reduzido, eles se tornaram o sonho de consumo dos missionários portugueses. Do nosso grupo de carijós, um talento se destacava: Bráulio Mantovani. Ele era tão discreto que parecia invisível. Estava em Bertioga com o roteiro de um filme chamado Cidade de Deus, adaptação do livro homônimo de Paulo Lins que seria dirigido por Fernando Meirelles. Ficara surpreso de ter sido convidado para o Laboratório. Fizera um rascunho de roteiro às pressas, em dois meses. Tinha certeza de que seria recusado. Tanta certeza que não quis nem preencher a ficha de inscrição; Meirelles fizera isso por ele. Foi com a mesma relutância e incredulidade que acabou inscrevendo o roteiro num concurso do Canal Brasil, em parceria com o Writers Guild Association, o sindicato dos roteiristas dos Estados Unidos, e a seção latino-americana da poderosa Motion Picture Association. O concurso lhe rendeu 6 mil reais de prêmio pelo primeiro lugar entre os 200 roteiros inscritos. Com o dinheiro, Bráulio Mantovani pagou a operação para corrigir seus 4,5 graus de miopia e conquistou a alegria suprema de, durante o banho, ver os pés em foco pela primeira vez. O que veio depois todo mundo conhece: Cidade de Deus arrebatou prêmios e platéias por onde passou, virou uma referência de cinema no Brasil e acabou indicado às principais categorias do Oscar, inclusive a de roteiro adaptado. Três anos depois de Bertioga, lá estava Bráulio sentado na cobiçada fila D do Dorothy Chandler Pavillion, em Los Angeles, certo de que não ia levar e, por isso mesmo, relaxado e contente de estar ali, um plebeu aborígine entre os nobres reis e rainhas de Hollywood. Bráulio se surpreende até hoje quando lembra do quanto a versão final do roteiro de Cidade de Deus guarda daquela primeira, cuspida em dois meses. A perseguição da galinha, por exemplo, nunca saiu do lugar onde esteve. A idéia lhe veio por conta de um capítulo do livro, narrado através do ponto de vista de um galo. Bráulio se lembrou de um filme dos primórdios do cinema, onde o rosto de um homem com expressão nula era entrecortado com imagens de um prato de comida, uma briga e um caixão. Os cortes provocam uma associação entre as imagens e o rosto sem expressão, de forma que os espectadores conferiam ao ator sentimentos que, a princípio, nunca estiveram ali, como o de fome, raiva e dor. Esse efeito de montagem foi batizado com o nome do diretor que o inventou, Kulechov. Bráulio sugeriu que se fizesse o mesmo com a cara da galinha e abriu o roteiro com a perseguição do bicho. Depois do furacão Cidade de Deus, dizia-se que Bráulio havia entrado para o inatingível mercado americano de cinema. “O Bráulio?! Esse foi!”. Boatos corriam de que ele estaria escrevendo roteiros para o Brad Pitt e teria até comprado uma casa em Malibu. Em outras palavras, o Bráulio havia vencido essa barreira misteriosa que separa o Brasil do mundo. Eu me indagava se Bráulio era um carijó autêntico, educado nas escolas brazucas como todos nós, ou se era mestiço, meio índio, meio inglês, cidadão do mundo desde nascença. Será que o Bráulio era bilíngüe? Estaria aí a explicação para o seu êxito mundial? Me contaram que ele havia estudado fora e me veio uma certa decepção. Nas minhas andanças, sempre me chamou a atenção a quantidade de argentinos, peruanos e mexicanos – falantes de uma língua global – que ocupam cargos de chefia de companhias de ópera a produtoras importantes de cinema. Nunca encontrei um só brasileiro. Seria Bráulio a confirmação de que nossos patrícios só conseguem romper a barreira da língua se já tiverem nascido com um pé lá e outro cá? Seria possível existir um cidadão do mundo made in Brazil? Nos encontramos em São Paulo. Não havia nenhuma aura de Hollywood em Bráulio. Falamos dos filhos, dos filhos e dos filhos: ele tem um menininho de dois anos e meio, e eu, um outro de sete. Depois de duas horas de conversa, descobri que a Patricinha de Beverly Hills da mesa era eu. Bráulio não só foi educado 100% em português, como cursou a Escola Estadual Professora Celeste Sonnweend. “Olha o nome que eu tive que aprender aos sete anos”, conta. Escola pública, pois. Seu pai, Carlos Mantovani, foi torneiro mecânico e só completou o primário. A mãe, Dirce, largou a fábrica pra cuidar dos filhos, que são dois: ele e a irmã Élida, hoje professora de filosofia. A família morava numa casa pequena, de quarto, sala e cozinha, na rua Drava, no Ipiranga. O casal resolveu que os filhos teriam a educação que eles não tiveram. Não pensavam em faculdade, e sim num curso técnico, para garantir logo uma profissão. Bráulio passou na dificílima seleção para a cobiçada Escola Técnica de São Bernardo, da qual, “apesar do medíocre talento para a matemática”, saiu formado em eletrotécnica. Seu luxo, garantido pelo esforço dos pais, foi não ter sido obrigado a trabalhar como office boy durante o dia, sina da maioria de seus colegas. Mais tarde, a especialização lhe garantiu o emprego de professor num curso de eletricidade promovido pelo sindicato dos metalúrgicos de São Bernardo, cidade para onde a família se mudou quando Bráulio fez quinze anos. Seu Carlos trabalhou na Mercedes-Benz e mora na cidade até hoje. Bráulio é filho legítimo das tabas do ABC. No livro Freakonomics, Steven Levitt e Stephen Dubner citam uma pesquisa feita nos Estados Unidos para descobrir as razões que levam ao bom desempenho, ou não, dos alunos na escola. A pesquisa demonstra que os estudantes mais bem-sucedidos tinham livros em casa. A simples presença do livro ajudava no bom desenvolvimento intelectual do aluno. Muito antes do Freakonomics, os pais do Bráulio já enchiam a casa de livros e enciclopédias. Era parte do projeto educacional deles. A enciclopédia em fascículos Conhecer virou a paixão de Bráulio, com suas ilustrações coloridas que repetiam as funções fisiológicas do corpo humano ao empregar metáforas do cotidiano. O cérebro, por exemplo, era uma junta de cientistas. Os livros eram para os filhos, os pais não liam. A estratégia funcionou. No terceiro ano primário a professora chamou Bráulio num canto para que ele confessasse quem havia escrito a redação do dever de casa: o pai ou a mãe? Nenhum dos dois. Bráulio era um fenômeno em português. Aprendeu análise sintática – aquele horror – sozinho. Aos treze anos ameaçou os pais: viraria escritor. Preocupado, e quem sabe até arrependido, seu Carlos olhou em volta e se perguntou se aquele projeto de encher a casa de livros tinha sido, afinal das contas, uma boa idéia. Bráulio devorou quadrinhos até os 26 anos. Na oitava série, tornou-se popular entre os colegas por conta de suas redações, sempre inspiradas. A língua portuguesa salvou Bráulio de sua timidez atávica, da constituição franzina e do vexame no futebol. Para grande decepção do pai, craque de carteirinha, Bráulio sempre foi um perna-de-pau irrecuperável, assunto abertamente discutido em rodas familiares. Acabou goleiro, míope e astigmático. Foi um adolescente travado, que perpetrava poesias. Só não apanhou porque era primo de um rapaz, cuja lembrança, diga-se, o ajudou bastante na hora de escrever o roteiro de Cidade de Deus. “O nome dele era Abraão, filho de uma prima da minha mãe”, lembra. “Não era nenhum Zé Pequeno, mas metia medo, andava armado. Não sei se roubava ou traficava. A mãe aparecia lá em casa, chorando, toda vez que ele era preso. Morreu jovem, de Aids.” A molecada refreava a vontade irresistível de cobrir de porrada o menino fracote que escrevia poesias toda vez que alguém gritava: “Pára! Pára que ele é primo do Abraão!” Um dia foi com um amigo assistir à apresentação de um grupo de teatro de rua. “Não sei que demônio me empurrou”, diz. A peça contava com a colaboração do público e, quando Bráulio se deu conta, já havia aceito o papel de trocador e vendia bilhetes imaginários, em altos brados, no meio da praça pública. Foi uma epifania. Bráulio descobriu o despudor do teatro, ou, como diz: “quebrei o cabaço”. Entrou para o grupo. |
Página de Bráulio Mantovani no Internet Movie Database (IMDb) Veja o trailer de Cidade de Deus A famosa seqüência da galinha No site do filme Cidade de Deus, você encontra informações gerais do indicado a quatro Oscar. Aqui, você lê o roteiro de Cidade de Deus na íntegra. Bráulio Mantovani conta como recebeu a notícia da indicação de melhor roteiro adaptado no Oscar 2004. No site Roteiro de Cinema, você encontra informações sobre cursos de roteiros de cinema. Leia a crítica de Mário Sérgio Conti sobre o filme Cidade de Deus à época do lançamento do longa de Fernando Meirelles, em 2002. Conheça o Sundance Institute, criado em 1981 por Robert Redford. Conheça o SESC de Bertioga. Visite o Teatro Oficina A Central Única das Favelas (CUFA) mantém projetos na Cidade de Deus. O Centro de Estudos e Ações Culturais e de Cidadania é uma ONG que trabalha em parceria com a comunidade de Cidade de Deus. Conheça as aventuras de Hans Staden pelo litoral paulista Blog do Freakonomics Site oficial de Gerald Thomas Site da O2 Filmes Conheça Zbig Rybczynski |
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