
![]() ![]() VANESSA BARBARA
Fagner vendia planos de saúde pela lista telefônica. Boné na cabeça, mascando chiclete, ele abria a letra A e começava a discar. “Bom-dia, meu nome é Fagner, com quem eu falo, por gentileza?” Às vezes preferia trabalhar com prefixos. Butantã é 3735 e Mandaqui é 6979. Começava discando o 0001, 0002, 0003. Ou tentava qualquer combinação a esmo. Fagner vendeu dezenas de planos usando a Lista de Assinantes Residenciais de São Paulo, capital, e distribuindo panfletos com seu nome e telefone. “Bom-dia, meus guerreiros!”, ataca o professor Isaac Martins. Ele não admite alunos sonolentos. “Para ser grande profissionalmente, você precisa estar na tomada. Toda vez que eu disser ‘todo mundo ligado’, é pra bater uma palma e dizer: Hai! Como os samurais”. A turma inteira responde: Hai! É o primeiro dia do curso Operação de Telemarketing. Pela participação, Fagner já ganhou quatro bombons. “Vou sair daqui e vender”, diz. “Pelo telefone”, completa um colega. O primeiro exercício de um curso de telemarketing é praticar o bom-dia. Há pelo menos quatro tipos de bom-dia: o tradicional, o belicoso, o sorridente e o de quem ganhou na loteria. Operadores de SAC — Serviço de Atendimento ao Cliente — costumam adotar uma saudação mais sóbria, a fim de evitar um bom-dia belicoso do outro lado da linha. Já os operadores de vendas devem usar a versão sorridente do cumprimento. Para esses, o entusiasmo é obrigatório em todas as etapas da abordagem, embora alguns especialistas argumentem que o sorriso exigido do profissional é, na verdade, um sorriso interior, e não físico. “Manter as comissuras labiais eternamente esticadas, em forma de sorriso, com certeza seria de grande prejuízo para o teleoperador e para a emissão da palavra”, sustenta a fonoaudióloga Eudosia Acuña Quinteiro, autora de O poder da voz e da fala no telemarketing. Segundo ela, a necessidade de sorrir no telefone é uma importação equivocada de teorias de telemarketing dos Estados Unidos, país onde o smile (cheese!) e o yes são muito diferentes do nosso “sim”. A articulação da palavra no Brasil corresponde a uma forma ligeiramente “bicuda” de falar, fruto da influência francesa. “É só pensar na atriz Marieta Severo”, recomenda a fonoaudióloga. “Ela não tem um baita bico? E você não perde nada do que ela diz, tamanha a articulação das palavras.” Ignorando as advertências de Eudosia Quinteiro, que prevê danos irreparáveis nas comissuras labiais, os cursos de preparação para teleoperadores ensinam a potencializar o tom de voz conversante e a manter a entonação de quem está empolgado. “Escolha o bom humor e não o mau humor”, ensina a professora Tamires Siqueira, assistente d0 mestre Isaac Martins, dirigindo-se a uma platéia de dezoito alunos. Fagner é o primeiro a bater palmas e o único a se oferecer como voluntário para fazer uma simulação de venda de canetas. Também tira o boné prontamente e se livra do chiclete assim que o professor lhe chama a atenção. Fagner, cujo sobrenome é Queiroz Rocha, tem 21 anos. Ele fez cursos de datilógrafo e padeiro antes de se inscrever nas aulas de telemarketing. “Tenho que ganhar dinheiro”, explica. Foi feirante, frentista, forneiro, garçom e recepcionista. Conhece o ambiente profissional dos frigoríficos, já fechou caixa, trabalhou em padaria e efetuou, como diz, “auxílio e apoio a força de vendas”. Tradução: panfletagem em cruzamentos. Sua mais recente experiência no mundo do trabalho foi como lavador de carros num centro automotivo, onde conseguiu ser promovido a frentista depois de três dias de trabalho. Fagner, que pretende terminar o supletivo em meados do próximo ano, inscreveu-se no curso do professor Isaac Martins porque sentia dificuldade em vender pelo telefone. Realista, também sabe que a escola indica alunos para empresas. Fagner está numa situação parecida com a de Gabriela, de 21 anos. Ela passou três meses no telemarketing de uma escola de informática, oferecendo prêmios e descontos ilusórios. “Eu ligava e dizia: ‘Parabéns, você foi sorteado para ganhar um curso de informática’, e precisava inventar quem é que promovia o concurso”, conta. “Aí a pessoa respondia: ‘Mas eu não escuto essa rádio’, e eu ficava sem ter o que dizer.” É uma situação semelhante à de Roseli, de 23 anos, que chora até em inauguração de supermercado e se inscreveu no curso por iniciativa de um amigo. Ou de Elizabeth, de 28, que é balconista de uma cafeteria e tem como objetivo de vida fazer faculdade. Ou de Aretuza, 29 anos, ex-técnica de raio-x, e Daniele, de 22, que compartilham o mesmo sonho (e até a mesma frase para resumi-lo): “Progredir junto com a empresa”. |
1ª Edição Olá, Uau! Enfim, uma revista boa de ler - e de ver. E como tem para se ler e para se ver! Chantecler? Desculpem-me o uso deste endereço de email para responder à pergunta proposta pelos senhores sobre quem é o autor que se esconde por trás do pseudônimo Chantecler, mas acontece que eu não encontrei na revista o endereço da redaçào que vocês pedem para ser usado nesse caso. Zérramos |
O registro das aventuras e desventuras de uma jovem brasileira
que mora em Nova York sem documentos.
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