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Culinária
Uma carta de amor em forma de receita de uma autêntica goiabada.
Viagem
As pamonhas, os devotos, os motoqueiros e as cobradoras de pedágio da estrada que liga as duas maiores cidades do Brasil.
Vidas Literárias
Carl Jung, o herdeiro de Freud que rompeu com o mestre, foi simpatizante do nazismo e freqüentava rituais ocultistas.
Poesia
Oito poemas de Hans Magnus Enzensberger traduzidos por Vinicius Dantas.
Ecologia
Ficção
Os últimos gestos, lembranças e pensamentos de Muhammad Atta, cabeça do atentado de 11 de setembro de 2001, em Nova York.
Notas de um Expatriado
Um veterano conta como 5oo mil patrícios batucam, desfraldam o lábaro estrelado e se digitalizam no Reino Unido.
Estética
O impacto e os efeitos duradouros do meu primeiro encontro com o mais célebre riff dos Rolling Stones.
Portfólio
O compositor parou de fumar, mas defende que o cigarro fez muito bem à música popular. | |||||
MARCOS SÁ CORRÊA
Quem faz a cabeça do brasileiro é o Toxoplasma
gondii. Não adianta dizer
que nunca o viu mais gordo. O Toxoplasma
gondii é assim mesmo, “incrivelmente
comum e incrivelmente obscuro”,
segundo o jornalista Carl Zimmer,
que outro dia o apresentou aos leitores
do New York Times numa página cheia
de superlativos. Zimmer tratou-o como
uma “criatura extraordinária” e “espantosamente
bem-sucedida”. E lançou no
caminho da fama esse personagem onipresente
mas discreto, ainda que prive da
intimidade de pelo menos um terço da
humanidade. Sem conhecê-lo, no mínimo
2,2 bilhões de pessoas convivem diariamente
com o Toxoplasma gondii. No Brasil, ele se supera. Está envolvido com praticamente 67% da população. Alojado em 126 milhões de brasileiros, tem fôlego de sobra para tornar as mulheres mais afetivas, os homens mais conformistas e ambos os sexos mais propensos a levar a vida sob o influxo de vagos sentimentos de culpa e desconforto social que nem imaginam de onde vêm. Depois de desprezá-lo por mais de setenta anos como um parasita vulgar, desses que só em casos especiais — grávidas e portadores de hiv, por exemplo — merecem exame de laboratório, os médicos deram agora para desconfiar que, sob a influência do Toxoplasma gondii, os infectados têm reações estranhas. Seu comportamento pode pender para lados opostos. A pessoa manifesta uma atração insensata pelo perigo e, ao mesmo tempo, uma paradoxal aversão a mudanças. Isso lembra alguém que você conhece? Pois é. Pode ser obra dele. Toxoplasma gondii, o protozoário, age clandestinamente. Carl Zimmer farejou a notícia num documento publicado este ano pela Royal Society, de Londres, a respeitabilíssima academia de ciências do Reino Unido. Tratava-se de um relatório sobre possíveis reflexos do Toxoplasma gondii nas sociedades humanas, com seis páginas e meia de texto e duas só para a bibliografia, que arrolava 35 trabalhos científicos. O título era instigante: “Pode o Toxoplasma gondii, parasita comum do cérebro, influenciar a cultura humana?”. Além de publicar o achado no New York Times, Zimmer discutiu-o no site The Loom, sua tribuna cativa na internet, e dali o parasita se espalhou, como se nadasse livremente num caldo de cultura virtual. O Toxoplasma gondii animou debates entre sanitaristas e criadores de gatos domésticos. Contagiou até o Stereophile, um blog para iniciados em aparelhos de som que entrou na conversa tachando Zimmer de “guru do Toxoplasma”. Zimmer é fã confesso de parasitas, esses monstros microscópicos que povoam as profundezas intracelulares de homens e bichos, “transformando qualquer órgão do corpo — a trompa de Eustáquio, a garganta, o cérebro, os rins, o tendão de Aquiles — em seu lar”. Ele já foi ao Sudão para ver de perto, num hospital de campanha em Tambura, a máscara mortuária do Trypanosoma que provoca a doença do sono. Viajou à África “como certas pessoas vão à Tanzânia atraídas por seus leões ou a Komodo por seus dragões”, ele conta em Parasite Rex, livro que é um modelo de rigor jornalístico em ritmo de ficção científica. “Passe algum tempo em Tambura”, relata o jornalista, “e as pessoas à sua volta ficarão transparentes, como constelações cintilantes de parasitas”. O livro lida com micróbios, vermes, protozoários, ácaros e tênias, tudo, enfim, que viva à custa dos outros. Assunto não falta, pois os parasitas dominam a Terra, batendo de quatro a um a soma de todas as criaturas capazes de existência autônoma. “A história da vida é, na maior parte, parasitologia”, resume. Os parasitas são vítimas de uma longa história de incompreensão. A começar pelo nome. “Parasita” vem da palavra grega para designar o criado que servia comi- da em banquete. Eles fazem o contrário: servem-se num banquete de vida alheia. Os cientistas hesitaram muito em levar os parasitas a sério. Charles Darwin baniuos do esquema geral da seleção natural, supondo que essas criaturas “rastejantes” eram desvios regressivos no curso natural da evolução. Logo eles, que parecem estar na vanguarda dos processos evolutivos, mudando tantas vezes de forma quantos forem os desafios ao seu talento adaptativo e habilitando-se a viver nos ambientes mais impróprios. Nós, por exemplo. Bilhões de seres humanos são ninhos inconscientes de Toxoplasma gondii. Esse parasita oblíquo e dissimulado pode varar a membrana das células de autodefesa e penetrar seu núcleo como clandestino, iludindo as barreiras imunológicas do cérebro, tido como o último bastião do organismo contra micróbios patogênicos. Ele fura as muralhas orgânicas como “cavalos de Tróia”, diz Zimmer. Uma vez no cérebro, dali ninguém o tira, entre outros motivos porque o Toxoplasma gondii se esmera em perturbar o mínimo possível a vida de seu anfitrião. “Ele simplesmente vai ficando por lá, e o hospedeiro não o reconhece como um invasor que deveria ser destruído”, afirma David Sibley, professor de microbiologia molecular. O Toxoplasma gondii chamou a atenção dos cientistas no Instituto Karolinska, de Estocolmo, pelo refinamento dos métodos que emprega na conquista de território. “Quando procuramos parasitas no sangue, encontramos muito poucos, e eles pareciam estar apenas nadando em círculos”, conta o pesquisador Antonio Barragan. Engano. A essa altura, como a equipe constataria depois, o Toxoplasma gondii já embarcara em células dendríticas, que normalmente disparam os alarmes do sistema imunológico. Estava, portanto, camuflado, em uniforme de combate, pronto para se imiscuir cérebro adentro. Havia feito tudo isso poucas horas depois de apear no organismo. “E se acaso ele estiver dirigindo essas células para se mover e se disseminar pelo corpo?”, indagou-se Barragan. O grupo testou a hipótese, injetando Toxoplasma em células dendríticas descontaminadas. Elas se tornaram instantaneamente hiperativas, agitando-se sem parar na lâmina do microscópico pelo resto do dia. |
Toxoplasma gondii: um parasita capaz de mudar a personalidade (em inglês) Modelando a sociedade (em inglês) A Fiocruz explica a toxoplasmose, infecção causada pelo toxoplasma gondii Quer ver o ‘gondii’ bem de pertinho? Carl Zimmer escreve sobre como a evolução explica até mesmo a formação de órgãos especializados como o da visão (em inglês) Sinopses, críticas, artigos e muitas outras informações sobre o trabalho de Carl Zimmer (em inglês) The Loom, um blog para quem gosta de ciência (em inglês) |
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