Revista Piauí
 
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CASSIANO ELEK MACHADO

 
Pesquisadora de Rosa desde os anos 70, Sandra Vasconcelos diz que só tomou conhecimento recentemente do diário de Hamburgo. Ela acredita que os embaraços provocados pelos herdeiros explicam a inexistência de uma boa biografia de Guimarães Rosa. “Pensei em fazer uma e desisti”, diz. “É tanta confusão para conseguir autorizações que as pessoas acabam mudando de idéia.” Vilma Guimarães Rosa reconhece que a idéia é exatamente esta: dificultar a vida dos pesquisadores. “Não existem biografias dele e não damos licença para ninguém”, diz ela. “Muita gente quer fazer sensacionalismo, quer ganhar dinheiro à custa de gente famosa”, afirma a primogênita do escritor. “Quem quiser saber de meu pai que leia o meu livro e está muito bom.”

Dono do maior acervo privado de literatura brasileira, o empresário e bibliófilo José Mindlin, de 92 anos, passou a vida se digladiando com herdeiros. “Muitos deveriam colocar no cartão de visitas, onde consta profissão, a palavra herdeiro. Sem ter trabalho nenhum, se beneficiam do trabalho do antepassado”, afirma. Uma das principais estudiosas de Rosa, a professora Walnice Nogueira Galvão, da usp, tem a mesma opinião: “Para o artista, é uma obra de arte; para o herdeiro, é mercadoria”. Mindlin acredita que a única saída para “os abusos de herdeiros” é a diminuição do período de validade da lei de direitos autorais. Atualmente, a propriedade intelectual vale até o 1o de janeiro seguinte ao dos 70 anos da morte do autor.

Lucia Riff, agente literária que administra direitos autorais de escritores de renome, tanto no time dos vivos (Luis Fernando Veríssimo) como no dos mortos (Carlos Drummond de Andrade), acha que é excessiva a irritação de pesquisadores e editores com os herdeiros. “Existe a noção de que ser herdeiro é algo quase ilícito, mas isso não acontece com quem herda apartamentos ou fazendas.” Lucia Riff reconhece que não é fácil lidar com o espólio de um grande escritor. O herdeiro, diz ela, tem de estar disposto a considerar uma infinidade de pedidos de todo tipo, e muitas vezes completamente esdrúxulos. Ela conta que, recentemente, um dos maiores bancos brasileiros procurou- a para comprar os direitos de reprodução de uma frase de Drummond em talões de cheque no país todo. “Sabe quanto eles ofereceram por isso?” Ela responde: “Mil reais. Alegaram que já estava escrito mesmo, que era uma homenagem”.

Ainda que defenda a posição dos herdeiros, Lucia Riff conta uma história exemplar. No final dos anos 90, foi contratada para cuidar dos direitos autorais de um projeto da editora Objetiva, o volume Os Cem Melhores Contos Brasileiros do Século, organizado por Ítalo Moriconi, crítico e professor de literatura. Ele selecionou três histórias de Guimarães Rosa, Às Margens da Alegria, A Terceira Margem do Rio e Desenredo. Para liberar os três textos, no entanto, os herdeiros pediram um valor equivalente ao que havia sido gasto com outros noventa escritores. Moriconi não teve como publicar os três contos e explicou os motivos na abertura do volume.

O diário de Hamburgo termina de forma abrupta. Em 28 de janeiro de 1942, o Brasil anuncia o rompimento de relações diplomáticas com os países do Eixo. Dois dias depois, Guimarães Rosa termina suas anotações. Com a mesma caligrafia que permitia um bom espaçamento entre cada uma das palavras anota apenas: “Viemos para Berlin”. A jornada do jovem diplomata na Alemanha não terminaria ainda. Logo em seguida, ele seria confinado pelo governo alemão num hotel na cidade turística de Baden- Baden, ao sul do país, em companhia de colegas como Cyro de Freitas Vale, do artista Cícero Dias e de outros diplomatas sul-americanos. Foi liberado somente cem dias depois, em troca de diplomatas (acusados de espionagem) alemães que estavam presos no Brasil. No verão de 1943, quando Hamburgo sofreu um dos maiores bombardeios da Guerra, a chamada Operação Gomorra, Guimarães Rosa estava bem longe, em Bogotá, servindo como primeiro-secretário na embaixada brasileira.

A Alemanha ficara para trás, e Rosa pouco falaria desse período. Uma faceta bem pouco conhecida da temporada de Hamburgo, não registrada nos diários, viria à tona depois. O casal Rosa e Aracy, mais ela do que ele, agiu para salvar judeus da perseguição nazista durante a estadia em Hamburgo. Aracy, funcionária da área dos passaportes, teria ajudado dezenas de judeus a escaparem para o Brasil. O feito foi reconhecido pelo governo israelense, e Aracy foi homenageada pela fundação Yad Vashen. O sobrenome Guimarães Rosa está afixado no memorial do holocausto da instituição, em Jerusalém.