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Uma seleção dos melhores textos da edição zero da revista. Material inédito só para quem visita o site.
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CASSIANO ELEK MACHADO
Em 2001, quando Vilma, Tess e a editora
Nova Fronteira se interessaram em
publicar os escritos de Hamburgo, Agnes
usou um expediente infalível para
barrar o processo. “Insistiram tanto que
eu pedi um preço absurdo. Quando
você não quer uma coisa e diz que não
quer, as pessoas não compreendem, e
então resolvi pedir um valor que nem
me lembro — uma loucura.” Ela conta
que, desde então, repetiu o expediente.
Vilma chegou a conviver com Aracy no final dos anos 40, quando foi morar com ela e o pai em Paris. “Ela foi muito boa para o meu pai”, atesta. “Ela se apagou para que meu pai brilhasse.” A irmã caçula conta que esteve poucas vezes com a madrasta: “Papai gostava muito de nos levar para um passeio à Ilha de Paquetá, aos domingos. Ele ia fazendo um joguinho com a gente, de sinônimos. Aracy ia junto. Ela tinha uma pontinha de ciúme, uma bobagem. Filha é filha, não tem como lutar.” Se alguns aprendem francês só para ler Proust, a austríaca Kathrin Rosenfield pode dizer que estudou português por conta de Rosa. “Quando comecei a ler Grande Sertão pela primeira vez, em 1984, um pouco antes de chegar ao Brasil, não conhecia o português. Entrei no sertão rosiano (e no meu, lingüístico) me orientando com meus conhecimentos de outras línguas latinas (o francês, o espanhol e o italiano)”, explica ela no prefácio do seu livro Desenveredando Rosa (editora Topbooks). Professora de literatura da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, ela estuda a obra do escritor desde aquela época e nunca conseguiu ver os diários de Hamburgo “Acho lamentável que seja tão difícil conhecer os documentos de um autor da importância de Rosa”, diz a professora. “Duplamente lamentável, aliás, porque esse desconhecimento cria também mitos como aquele que um colega me expôs um dia. Ele disse que, no serviço consular em Hamburgo, Rosa era mulherengo. Segundo esse relato, Rosa não teria dado o passaporte a uma bela judia por ela não ter respondido à cantada dele. Quando eu quis saber de onde vinha essa história, encontrei um cipoal inextricável de rumores.” Da mesma forma, o veto à publicação do diário por conta de menções a Aracy, que Rosa chamava de Ara, pode dar a entender que os escritos de Hamburgo contenham passagens picantes. Não é assim. “Ele sempre fala da Aracy, mas de forma muito tímida, quase não dá informações sobre ela”, diz Reinaldo Marques. O máximo que se pode encontrar nos diários são registros como “Dormi em casa de Ara, que partiu hoje cedo para München”. Ela é presença constante, mas discreta: “Comi a macarronada da Ara (!)”; “Lohengrin com Ara”; “Diz Ara que o jornal da tarde ataca furiosamente Roosevelt, chamandoo de ‘inimigo no 1 da paz do mundo’, e dizendo que ele deveria ser fuzilado”. Segundo a pesquisadora carioca Ana Luiza Martins Costa, além do diário de Hamburgo, pelo menos três outros conjuntos de anotações de Guimarães Rosa continuam no fundo das gavetas. Um deles é o diário que o escritor manteve em Paris, na passagem dos anos 40 para os 50, quando serviu na embaixada brasileira. “Nos escritos de Paris, ele fala sobre a ansiedade de escrever, sobre a questão da onisciência, sobre a necessidade de fixar coisas no papel”, conta a pesquisadora. “Dizem que a família não gosta de publicar revelações pessoais, mas não há nada disso nos escritos parisienses.” Existem, também, anotações das viagens de Rosa pela Europa, arquivadas nos quatro armários do Arquivo Guimarães Rosa do ieb. A filha Vilma diz que Florença era uma das cidades prediletas do escritor. Ana Luiza acredita que a difusão das anotações que Rosa fez lá, na Toscana, seria fundamental para “explodir o estigma do sertão” que marcaria a obra do autor. Ela chama a atenção, por fim, para a troca de cartas do escritor com o pai, Florduardo Pinto Rosa. Dono de um armazém em Cordisburgo, ele recebia cartas constantes do filho, que lhe indagava sobre histórias reais do sertão. Parte da correspondência entre o pai e o filho foi publicada nas memórias de Vilma, Relembramentos. O acesso às cartas trocadas por Rosa com seus tradutores para o francês, o inglês e o espanhol é igualmente difícil. Em alguns casos, o material está até preparado para publicação, como a correspondência com Harriet de Onis, uma das tradutoras da primeira edição de Grande Sertão em inglês. Para seu trabalho de mestrado, apresentado na Universidade Estadual Paulista em 1994, a pesquisadora Iná Rodrigues Verlangieri, hoje afastada da vida acadêmica, organizou toda a correspondência de Rosa com a tradutora americana, que também assinaria a versão de Sagarana. A professora tentou publicála durante algum tempo, mas não obteve nem resposta dos detentores dos direitos. Acabou desistindo. Organizadora da correspondência de Guimarães Rosa com o tradutor alemão, Curt Meyer-Clason, outra pesquisadora, Maria Apparecida Faria Marcondes Bussolotti, também demonstra desânimo. Mesmo com a ajuda de Meyer-Clason, Cida, como costumam chamá-la, teve enormes dificuldades de conseguir a liberação das cartas. Ela iniciou o trabalho de organização em 1994, como tese de mestrado na usp. A dissertação foi apresentada em 1997, e ela teve de esperar seis anos até ver o material publicado. “Quando procurei Eduardo Tess para obter a autorização, ele pediu que eu contasse quantas vezes apareceria o título do livro Grande Sertão. Seria cobrada uma taxa correspondente a cada vez que ele fosse mencionado”, relembra. “É uma dificuldade real, eu mesma acabei desistindo”, afirma a curadora do Arquivo Guimarães Rosa no Instituto de Estudos Brasileiros, Sandra Guardini Teixeira Vasconcelos, professora de literatura da usp. “Quando fui publicar em livro a minha tese de doutorado, resultado de anos de pesquisa no arquivo, tentei conseguir autorização da família para fazer um fac-símile de alguns documentos da obra de Guimarães Rosa. Só consegui de uma parte da família, não do restante. No final, o livro saiu sem isso”, conta a professora. “Não há a menor dúvida de que a postura da família atrapalha.” |
“O sertão alemão de Rosa”, mais um texto do repórter Cassiano Elek Machado sobre o escritor Guimarães Rosa. “O ‘Diário Alemão’ de João Guimarães Rosa – Relato de um projeto de pesquisa em andamento”, do professor Georg Otte, da UFMG, sobre os diários escritos por Rosa entre 1938 e 1942. “Rosa entre duas margens”, artigo publicado na revista Margens pela professora Eneida Maria de Souza, da UFMG. Acervo de Escritores mineiros |
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