Revista Piauí
 
Uma seleção dos melhores textos da edição zero da revista. Material inédito só para quem visita o site.






CASSIANO ELEK MACHADO

 
Uma dessas cópias ficou com a mulher do empresário, Ana Elisa Gregori, que por sua vez a cedeu para uma tia, a poeta Henriqueta Lisboa. Com a morte de Henriqueta, sua biblioteca foi doada à ufmg. No dia 18 de dezembro de 1989 o volume com os escritos alemães de Rosa ganhou um carimbo azulado: “Biblioteca Universitária — 3354989-03 — ml-00007762-9”. Nenhum arquivo público tinha até então as anotações do cônsul-adjunto Guimarães Rosa. Nem mesmo o do Instituto de Estudos Brasileiros da Universidade de São Paulo, maior depositário de informações sobre o escritor desde 1973, quando comprou 20 mil documentos deixados por Rosa.

Mesmo com a chegada a uma biblioteca pública, o diário de Hamburgo seguiria pela sombra. No início de 2001, a professora Eneida de Souza e seus parceiros foram procurados pela editora Nova Fronteira, que desde 1984 publica a obra do escritor. A idéia era que Eneida e Reinaldo Marques, associados ao alemão Georg Otte, que poderia servir como tradutor dos recortes de jornais, preparassem o texto para publicação. Reinaldo Marques conta que a edição começou a desandar no final daquele ano, quando se noticiou que o diário alemão de Rosa viria à tona. “A família ficou preocupada e mandou recado, dizendo que deveríamos parar com o trabalho”, recorda Marques. O diário voltou ao seu envelope pardo, que foi posto no fundo da gaveta de um arquivo.

Guimarães Rosa casou-se pela primeira vez em 27 de junho de 1930, dia em que completou 22 anos. Lygia Cabral Penna, sua noiva, era uma moça morena, vizinha desde tempos de infância. Tinha o apelido de Lili. Estava com 16 anos, era magra e usava cabelos lisos e curtos. No final do ano, Joãozito, como ela o chamava, formou-se em medicina. Orador da turma, fez um discurso repleto de citações, que terminava com um provérbio eslovaco: “Kdyz je nouze nejvissi, pomoc byva nejblissi!” (Quando mais terrível é o desespero, aí é que o socorro já vem perto!).

Pouco depois de casado, Rosa perambulou com a mulher pelo interior de Minas Gerais, trabalhando como médico. Lygia lhe deu duas filhas, ambas nascidas nessas itinerâncias, em partos feitos pelo próprio escritor. Vilma nasceu em Itaguara, em 1931, e Agnes em Barbacena, dois anos depois.

Em 1934, ele estava desiludido com a profissão. “Não nasci para isso”, escreveu numa carta a um amigo. Prestou então concurso para o Itamaraty e foi aprovado em segundo lugar. A família Rosa se mudou para o Rio de Janeiro. Pouco depois de formado, Rosa foi designado para o posto de cônsul-adjunto do Brasil em Hamburgo. Em maio de 1938 o jovem diplomata toma um navio para a Alemanha. Viajou sem a mulher e as filhas.

Em Hamburgo, Guimarães Rosa conheceu sua segunda mulher, Aracy. Bonita, morena, de feições à la Vivien Leigh em E o vento levou, ela trabalhava na seção de passaportes do consulado brasileiro. Também havia se casado uma vez e tinha um filho, o pequeno Eduardo. Rosa e Aracy ficariam juntos até a morte do escritor, em 1967.

O espólio de Guimarães Rosa está dividido em três ramos: as duas filhas e a viúva. Vilma e Agnes moram no Rio de Janeiro. Aos 98 anos, Aracy vive em São Paulo, mas por conta de problemas de saúde tem seus direitos administrados por um neto, Eduardo Carvalho Tess Filho, de 50 anos.

Tess, especializado em direito internacional, mora em São Paulo. Seu escritório fica num casarão creme, numa zona valorizada, a Avenida Brasil. Quase sem se mexer na cadeira, com os cabelos imobilizados por gel, os olhos grandes e claros estacionados na parede oposta, ele enumera friamente problemas com as irmãs Vilma e Agnes. As desavenças começaram já na época do inventário. O testamento estabelecia, segundo Tess, que a avó teria direito à metade dos direitos autorais da obra do marido. Ele diz que, devido ao “comportamento das filhas”, a feitura do inventário estendeu-se por um período “longo e desagradável”. Como resultado, Aracy teria feito uma composição e dividido tudo por três. Naquele momento, definiu-se que qualquer publicação ou comercialização, qualquer licença ou autorização que envolvesse a obra de Rosa teria de receber a permissão do trio. Com uma única exceção: por terem sido doados em vida a Aracy, os direitos de Grande Sertão não entrariam no bolo.

Na interpretação de Vilma Guimarães Rosa, a primogênita, a situação é diferente. “Para publicar algo de papai, é preciso pedir autorização à minha irmã e a mim”, ela diz, num tom de voz suave. Com 75 anos, Vilma publicou oito volumes de contos, além de um livro de memórias, Relembramentos: João Guimarães Rosa, meu pai.

Ao menos num assunto, Tess e as irmãs Guimarães Rosa concordam: o diário de Hamburgo não sai da gaveta porque Agnes não deixa. “Agnes faz de conta que a separação do Joãozinho da mãe delas nunca houve”, diz Tess, “e o diário de Hamburgo é justamente da fase em que ele conheceu minha avó”.

O advogado sustenta que Rosa já embarcou para a Alemanha desquitado de Lygia e, portanto, a história de amor com Aracy não seria adultério. Já Vilma diz que o pai ainda era casado quando se envolveu com Aracy, que é citada constantemente no diário. “Por isso é que minha irmã fica danada; ela achou uma falta de respeito com minha mãe,” afirma.

Agnes não entra em detalhes sobre seus motivos. “Católica apostólica romana”, diz recear “sensacionalismos” em torno de seu pai. Formada em geografia, ela não escreve, mas se considera ótima leitora. No ano passado ela releu o diário de Hamburgo. “Não tenho interesse em que seja publicado, não tem nada ali que acrescente”, diz. Mais adiante, confessa que acha algumas passagens interessantes. “Se eu pudesse fazer um expurgo e publicar só as coisas que interessam do diário, aí publicaria. Mas as picuinhas, os diz-que-me-diz, não.”