Revista Piauí
 
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CASSIANO ELEK MACHADO

 
No fundo da quinta e última gaveta de um arquivo de metal branco, numa sala do terceiro andar da Biblioteca Central da Universidade Federal de Minas Gerais, em Belo Horizonte, está guardado um envelope pardo. Dentro dele, enrolado num papel protetor contra acidez e umidade, há um volume em formato de livro, com 20 centímetros de comprimento, 13 de largura e dois de lombada. A capa é feita de um papel mais grosso do que o miolo, com motivos gráficos que imitam mármore, numa cor indecisa entre o bege e o rosa-claro. Uma caligrafia miúda, com letras ligeiramente inclinadas para a direita, preenche boa parte do livreto. Entremeando as anotações, há pequenos desenhos toscos e, colados nas páginas, dezenas de recortes de jornais alemães. O conteúdo das anotações e das reportagens fornece indícios sobre a forma, a autoria, o período e o lugar em que o caderno foi feito. É um diário, escrito por um brasileiro que acompanha, na Alemanha, o começo da ii Guerra Mundial.

Ao longo das 208 páginas, o autor narra bombardeios, descreve o barulho das sirenes e diz como o silêncio das noites era recortado por tiros. Conta a primeira vez que viu um judeu com uma estrela amarela costurada na roupa. Relata como uma bomba no Jardim Zoológico de Hamburgo dizimou camelos. Registra o que anunciava uma pequena tabuleta num parque: “Lugar de brinquedo para crianças arianas”. O autor do diário era um jovem diplomata que servia pela primeira vez fora do Brasil, no posto de cônsul-adjunto de Hamburgo. Aos 31 anos, tinha aspirações literárias, mas ainda não havia publicado nada. Chamavase João Guimarães Rosa.

Em agosto de 1939, data das primeiras anotações, ele não faz literatura. Sua escrita é prosaica, sem artifícios. Ainda assim, espalha pelo diário figuras de linguagem, observações e poemetos que, lidos hoje, são claramente “rosianos”. Seus flertes com a poesia são constantemente relacionados à exaltação da natureza. “A noite começa debaixo das árvores”, anota num canto, ao lado dos registros de um bombardeio e de recortes de anúncios de escritórios de advogados e de um hotel em Hamburgo.

Em outro ponto, põe no papel um poema que começa com a estrofe “As lagoas são armadilhas armadas para pegar a lua/ porque a lua não se reflete (não desce a) na mata, nem no chão (terra dura)”. Ao lado dos escritos mais pessoais, de invencionices subjetivas, ele acrescenta o sinal M%, que significaria, segundo especialistas na obra de Guimarães Rosa, “meu 100%”. O símbolo aparece, por exemplo, ao lado de um escrito intitulado A Ladeira: “A ladeira da vida inteira... Tudo é vaidade, tudo é besteira, só uma coisa é que é verdadeira: subindo a ladeira, sobe-se a ladeira da vida inteira...”.

Mais próximas da linguagem que apresentaria em obras como Grande Sertão: Veredas são as listas de palavras. Numa delas, Rosa enumera vinte temperos usados para fazer uma sopa típica de Hamburgo. Noutra, arrola diferentes gestos — “de sensação”, como “cabecear sonolento” ou “tremer de frio”, “de sentimento”, “de ação” e “de irritação”, como o certeiro “tremer a cabeça como sexagenário”.

Num dos comentários mais surpreendentes do diário, paradoxalmente, o jovem diplomata critica o maior escritor brasileiro pelo hábito de se valer de anotações na criação de suas obras: “Adquiri certeza, quase absoluta, de que ele, antes mesmo de compor os seus livros, ia anotando: pensamentos, frases etc., em livro ou em cadernos especiais, espécie de surrão ou alforje, de onde sacava, aos punhados, ou pinçava, um a um, os elementos de reserva que houvessem resistido ao tempo conservandose bem (processo aliás muito louvável. Tanto quanto o hábito de ‘compulsar’ dicionários, visível em M. de. A.)”.

“M. de. A.” era ele, Machado de Assis. Na anotação que se presume a mais antiga do diário, pois seus escritos nem sempre são datados e ordenados, o jovem Rosa faz outras três observações sobre o autor de Memórias Póstumas de Brás Cubas, a partir da leitura, como admite, “apressada” do romance. Na primeira, afirma que Machado “gosta, usa e abusa da construção terciária: silogística ou hegeliana (premissa maior — premissa menor — conclusão; ou tese — antítese — síntese). A cada passo a gente esbarra com vestígios desse vezo, quando não com a armação completa, a qual pode ser decomposta de várias maneiras: um pulinho para a direita, outro para a esquerda, outro para a frente... quando não para trás”.

Os elogios ficam guardados para outro tópico: “De verdadeiramente interessante é no livro: a) o capítulo ‘É minha’, onde o autor descobre a ‘lei da equivalência das janelas’; b) o capítulo ‘O momento oportuno’, onde escreve: ‘Não há amor possível sem a oportunidade dos sujeitos’; c) a filosofia ‘humanitática’ de Quincas Borba.” Ao lado do “humanitática” o autor tasca outro dos seus “M%”.

A catimbada fica para o final. Depois de afirmar que não pretende ler mais nada do escritor, “a não ser seus afamados contos” e, talvez, o começo do Dom Casmurro, ele escreve: “Acho-o antipático de estilo, cheio de atitudes para ‘embasbacar o indígena’; lança mão de artifícios baratos, querendo forçar a nota da originalidade; anda sempre no mesmo trote pernóstico, o que torna tediosa a sua leitura”. Rosa não pára aí: “Quanto às idéias, nada mais do que uma desoladora dissecação do egoísmo, e, o que é pior, da mais desprezível forma de egoísmo: o egoísmo dos introvertidos inteligentes”. Para terminar, lança um “Bem, basta; chega de Machado de Assis”. No canto direito inferior da página acrescenta a data: “Hamburgo, 15 de agosto de 1939”. Duas semanas depois, Hitler invadiria a Polônia, marco zero da ii Guerra Mundial.

A diatribe contra Machado de Assis, morto no mesmo 1908 em que Rosa nasceu, acabaria por se revelar um momento raro não só nos diários, mas na vida do escritor, um homem de temperamento contemporizador, pouco dado a sinceridades indelicadas com seus pares. E, no entanto, assim como o conjunto do diário, a crítica jamais foi publicada em livro.

Não por falta de interesse. “O diário é de importância crucial para a compreensão da biografia e do processo de criação literária de Guimarães Rosa, além de ser muito esclarecedor sobre o cotidiano de um diplomata brasileiro na Alemanha, durante a ii Guerra”, afirma Eneida de Souza. Professora emérita de literatura brasileira da Universidade Federal de Minas Gerais, a ufmg, ela é uma das poucas pesquisadoras que conhecem os escritos de Hamburgo. Outros dois são, não por acaso, seus colegas de universidade: os professores Reinaldo Marques e Georg Otte. O diário chegou até eles por veredas vicinais.

Em maio de 1973, Aracy Moebius de Carvalho, viúva do escritor, permitiu que Henrique Gregori, então presidente da Xerox do Brasil e futuro proprietário da editora José Olympio, fizesse cinco reproduções dos cadernos de Hamburgo.