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Uma seleção dos melhores textos da edição zero da revista. Material inédito só para quem visita o site.
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MARCELO O. DANTAS
Em algumas canções, um ligeiro toque
de Lennon fazia a diferença entre
o excelente e o genial. A melhor estrofe
de We Can Work It Out é de John:
“Life is very short / and there’s no time /
for fussing and fighting my friend”. Sem
a intervenção cirúrgica do autor de
Being For The Benefit of Mr. Kite e Happiness
Is A Warm Gun, tampouco haveria
em Eleanor Rigby a estranheza surrealista
dos versos: “Waits at the window
/ wearing the face / that she keeps in the
jar by the door /Who is it for?”. Do mesmo
modo, a entrada em cena de John
— na voz dos pais desesperados — é indispensável
a She’s Leaving Home, talvez
a mais comovente e perene canção
sobre o conflito de gerações e a juventude
drop-out. Canção que inspirou o
nosso Rubem Fonseca a escrever a obraprima
Lúcia McCartney.
A sombra ameaçadora de Lennon fornecia ainda combustível para os ímpetos rockeiros de seu parceiro e rival. A visionária Back In The USSR traz o humor irônico de John estampado no rosto. Canções como I’m Down e Why Don’t We Do It In The Road foram feitas por Paul para mostrar a John que conseguia ser ainda mais primitivo que ele. E Get Back — o melhor rocker de toda a obra dos Beatles — nasceu da (compreensível) irritação de Paul com Yoko e do seu desejo de deixar bem claro quem continuava a ser o dono do pedaço. Mas como a dialética é uma via de mão dupla, também o lado suave de Lennon se nutria da presença benfazeja de Paul. A belíssima melodia de In My Life é puro McCartney e gemas preciosas como Girl, Because ou Julia têm as impressões digitais do parceiro por todos os lados, ainda que tenham sido escritas na mais monástica solidão. Nietzsche atribui o caráter dionisíaco aos nossos impulsos rebeldes, subjetivos, irracionais, apaixonados, lunares; forças do transe e da intoxicação, que questionam e subvertem a ordem vigente. Em contrapartida, designa como apolíneas as nossas tendências ordenadoras, objetivas, racionais, serenas, solares; forças do sonho e da profecia, que promovem e aprimoram o ordenamento do mundo. Ao se unirem, tais forças teriam criado, a seu ver, a mais nobre forma de arte que jamais existiu. Como criadores, tanto o metódico Paul McCartney quanto o irrequieto John Lennon expressavam à perfeição a dualidade proposta por Nietzsche, que ouso traduzir pelos termos Apaulíneo e Johnisíaco. Lennon punha o mundo abaixo; McCartney construía novos monumentos. Lennon abria mentes; McCartney aquecia corações. Lennon trazia vigor e energia; McCartney impunha senso estético e coesão. Não raro, os papéis se alternavam, se complementavam, se fundiam. Quando os Beatles se separaram, essa magia se rompeu. John e Paul se tornaram compositores com altos e baixos; intérpretes com falhas às vezes evidentes. Fizeram coisas boas. Deram material para compilações de peso. Mas raramente se aproximaram da perfeição alcançada pelo quarteto. Sem a presença instigante de Lennon, Paul começou a patinar em letras anódinas e baladas açucaradas. Seus rockers perderam a força vital e muitos arranjos deixaram de ser pautados pelo sentido da boa medida. A alma negra embranqueceu. Não se tornou um compositor ruim. Mas se aproximou perigosamente de Elton John e Burt Bacharach. Mesmo Band On The Run parece por vezes um Abbey Road sem dentes. É música de grande qualidade. Mas os Beatles faziam melhor. Do mesmo modo, John sofreu com a falta de Paul. Plastic Ono Band, embora genial, é um verdadeiro festival de excessos idiossincráticos. Em Imagine, John ensaia um bem-sucedido retorno à estética Beatle, mas logo em seguida a presença de Yoko irá se impor, destruindo o equivocado Sometime in New York City. Ironicamente, o grande disco dos ex- Beatles, a verdadeira obra-prima, acabou sendo All Things Must Pass, o álbum triplo em que George Harrison deglutiu os antigos companheiros de banda, abrindo as comportas de sua produção musical, represada durante uma década à sombra de John e Paul. E foi assim, por estranhos caminhos antropofágicos, que a dialética de Lennon & McCartney brilhou pela última vez. |
Site oficial dos Beatles (em inglês) Portal dos Beatles em português, com notícias, vídeos e uma infinidade de curiosidades sobre a banda inglesa Cirque du Soleil adota os Beatles como trilha sonora Tudo sobre o CD “Love”, inclusive a chance de ouvi-lo na íntegra e entender como foi feito! “The Beatles – Letras e canções comentadas”, um livro de Elaine de Almeida Gomes Para a revista Time, os Beatles foram e ainda são a melhor banda de rock. Estão entre as 100 personalidades mais importantes do século XX (em inglês) Adivinha quem estava na capa da primeira edição da revista Rolling Stones? Mr. Postman! Correios britânicos lançam selos dos Beatles Paul McCartney descobre como é a vida aos 64 e responde perguntas de música que fez aos 24 anos |
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